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dezembro 31, 2008

Improviso oriental...

Conduz-me discretamente
pelos canais da cidade proibida
que nenhuma vagina seja perfeita
entre tantos rumores de mulheres eclipsadas
nenhuma luz
às sombras
subtraia o teu corpo
entre os muros mais altos e impenetráveis
da cidade proibida
tudo hoje tem o sentido das trevas
os guardas à distância
observam-nos apenas
todas as vozes que caminham por nós
parecem ausentes
este é o país das bandeiras trocadas
aquele em que nos perderemos sempre
depois do pôr do sol.

Ademar
31.12.2008

dezembro 30, 2008

Improviso quase prosaico...

Hoje fui ao banco e descobri
que o meu gestor de conta
ainda é primo de Ali Babá
pelo lado dos quarenta ladrões
pedi o livro de reclamações
chamaram a polícia
fiquei de preventiva.

Ademar
30.12.2008

dezembro 29, 2008

Improviso para descaprichar...

Escrevo apenas
para que saibas que estou vivo
ainda estou vivo nas palavras que escorro
pelo menos nestas
estar vivo é uma graça da natureza
frequentemente uma piada
faz-se tudo o que se pode para morrer
e a morte joga connosco à cabra-cega
fingindo que não percebe
essa puta vadia e calaceira.

Ademar
29.12.2008

dezembro 28, 2008

Improviso para roteiro...

Faremos um filme sem figurantes
nem duplos
e os cenários não serão de papel
mas de barro que domine
os segredos íntimos do fogo
sem palavras
sem efeitos
a nudez apenas das serpentes
envenenando o tempo.

Ademar
28.12.2008

Improviso gramatical...

Perguntas-me se te guardo
não sei se gralhaste o verbo
e antes quisesses perguntar
se te aguardo
as palavras e a vida são assim
por uma vogal se ganha
por uma vogal se perde.

Ademar
28.12.2008

dezembro 27, 2008

Improviso quase metereológico...

À minha volta
todas as estradas foram ficando intransitáveis
dizem as notícias
que as pontes são agora
muros de neve
que nenhuma luz atravessa
aqueço as mãos numa sombra
que a noite enregela
e deixo-me acender nas palavras
à distância.

Ademar
27.12.2008

dezembro 26, 2008

Improviso para amortizar algo muito parecido com o amor...

Bebo ainda à tua saúde
amiga
como se agora só agora
a eternidade nos consentisse
um brinde fora de tempo
sempre estivemos do mesmo lado do balcão ou do cais
pagando a meias um destino impartilhável
e ouvindo aos marinheiros tantas epopeias sem gente dentro
como nos filmes de Fassbinder
não há saúde agora a que possamos mais beber
senão à nossa
foi por ela que perdemos e ganhámos tudo
e foi por nós que sempre fingimos
que não era nada connosco.

Ademar
26.12.2008

dezembro 25, 2008

Improviso em forma de decreto para afixar nos locais de culto...

Ser livre dá muito trabalho
nada melhor do que viver espreguiçado
no meio do rebanho
e dizer sempre o que se espera
da obediência.

Ademar
25.12.2008

dezembro 24, 2008

Improviso ainda para vaguear...

Um violoncelo e um acordeão
um binómio mais do que improvável
entre tantas mãos que tropeçam
na partitura desta noite
sempre tão enjoada de palavras
sento os gestos à mesa
e sirvo-me sobre a toalha de linho
a memória de todas as ausências
que dormem comigo.

Ademar
24.12.2008

dezembro 23, 2008

Improviso em forma de papagaio...

Não me desejes um feliz natal
nem um bom carnaval
já troco as mãos e os altares
e confundo tudo
sobreviverei apenas
se me lembrares.

Ademar
23.12.2008

Improviso para Confianzas...

Nada que o tango não liberte
o suor ou o pudor
ele há tantas viagens
que não saem do corpo
o cigarro que tu me acendes nos lábios
e o cigarro que eu te acendo na alma
morremos ambos
ou salvamo-nos assim
com este poema não dançaremos
nem nas margens da cama
nem na pista dos olhos
ainda não somos suficientemente estranhos
para entrelaçarmos as coxas
no desejo de um tango interdito a maiores.

Ademar
23.12.2008

dezembro 22, 2008

Improviso quase patriótico...

Há dias em que perco o pé
por muito pouco
a impaciência bate-me
no lugar ainda do coração
e abro mapas
para trocar de país ou de condição
Portugal mata-me de overdose.

Ademar
22.12.2008

dezembro 21, 2008

Improviso em forma quase de reportagem...

Ruínas que falam
como se a humanidade ainda as tocasse
antes do apodrecimento
as máscaras também derretem
quando ateadas pela raiva
a agenda do fogo pede apenas uma câmara
e a barbárie voa agora com as pedras
de um lado e do outro de nenhuma barricada
pandora percorre a europa descalça
e todos os ventos parecem segui-la.

Ademar
21.12.2008

dezembro 20, 2008

Improviso para pompa e circunstância...

Colocar a primeira pedra neste poema
digo
a palavra inicial
inaugurar-me solenemente
para mais uma noite
desconhecendo a medida da sofreguidão
desse olhar que me acolhe
ou a indiferença
a poesia é uma embriaguez de palavras
com a alma dentro
nunca sei quem paga a conta do bar
ou o violoncelista
as musas são sempre oferta da casa
como os deuses.

Ademar
20.12.2008

dezembro 19, 2008

Improviso para antologia...

Ninguém sabe
entre deus e o diabo
de que segredos
me alimento
nem a mim próprio os desvendo
nem a terapeutas confesso
não pertenço a nenhuma tribo
nos meus segredos
nem a nenhuma condição
sou ainda mais livre
do que na morte.

Ademar
19.12.2008

dezembro 18, 2008

Improviso para antítese...

As mentiras portáteis
pesam muito mais do que as poéticas
deus por exemplo
é um tupperware de mentiras
e a democracia não bebe de outro leite
nem o amor
escrevo ao contrário
por saber donde venho
adormeci há muito a contar ruínas
em vez de carneiros.

Ademar
18.12.2008

dezembro 17, 2008

Improviso para cântico...

Já escrevi tantas palavras
que sequei o dicionário em que me lia
agora refaço-me do cansaço das mãos
fingindo regressar às origens de mim
por caminhos cujas margens me estranham
esta peregrinação ao contrário
houvesse um deus que me esperasse
ou uma mulher ainda mais absoluta
no princípio de tudo.

Ademar
17.12.2008

dezembro 16, 2008

Improviso para Desdémona...

As imagens dançam-se
no palco do pensamento
não aspiro a dançar contigo
fora de nós
num lugar que não fosse de absoluto recolhimento
não precisamos de vozes
para nos ouvirmos
nem de braços
para nos enlaçarmos
ele há tantos bazares
em que nunca compraremos o destino
das palavras abençoadas
a perfeição entretece-nos
nesse impossível de nos sabermos.

Ademar
16.12.2008

dezembro 15, 2008

Improviso para teclar...

Nas palmas das mãos
nunca tentes acariciar o fogo
nenhuma superfície é tão combustível
fecha antes os olhos e sorri
estarás sempre a um passo de nascer
enquanto faltares ao destino.

Ademar
15.12.2008

dezembro 14, 2008

Improviso quase perfeito...

Não te agradeço o silêncio
nem o mais que de ti sobra
antes e depois das palavras
sempre tão breves e tão irregulares
não te agradeço o pudor nem o medo
sobre os telhados da insónia
em que dormes sem braços
não te agradeço a compreensão
de como tudo tão lentamente floresce
numa primavera que não chegou a visitar-nos
não te agradeço a teimosia das nuvens
nem a ilusão do esquecimento
na incerteza de todas as distâncias inúteis
e menos ainda te agradeço o amor
esse amor sempre arranhado numa corda solta
que de tão pouco assim nos serve
quando troca a partitura.

Ademar
14.12.2008

dezembro 13, 2008

Improviso para heresia democrática...

Servem a vaidade
que os engrandece
e pouco mais
o poder é um jogo de sombras e aparências
disputado num ringue universal
em forma de tela
e as paixões têm rédea curta
nos palcos onde tudo se imita
até a certeza de uma causa
antes da farsa como é sabido
ensaiam a máscara ao espelho
dialogam com o teleponto
treinam frases e gestos
e refinam duas ou três poses de culto
para o retrato de caderneta
e o cartaz da propaganda
nos arraiais deste circo
todas as lágrimas e todos os gritos
são de plástico
até os orgasmos das putas
e tudo se paga
tudo se pega.

Ademar
13.12.2008

dezembro 12, 2008

Improviso para nota de rodapé...

Evito as palavras que não me obedecem
exijo-me ainda o poder de atracção do centro da terra
mas todos os adjectivos já foram usados e abusados
e a originalidade está pela hora da antologia
a poesia é agora um bordel de magníficas insignificâncias
um bordel barato
ao preço do ego de ocasião
escrevo apenas para repintar o silêncio.

Ademar
12.12.2008

dezembro 11, 2008

Improviso a pensar na europa...

Tens uma batida velha
swing de passos
que parecem tropeçar sempre na luz
um cheiro a pólvora de liberdade
embrulhada em medos originais
que nunca colonizaste
doem tão pouco as palavras
quando simplesmente nos curamos nelas.

Ademar
11.12.2008

dezembro 10, 2008

Improviso para inscrição tumular...

Não sei de altares
que não tenham a forma de mausoléu
morri no embalo de todos os deuses
e só fui eu
quando descobri o segredo
de ler a eternidade ao contrário.

Ademar
10.12.2008

dezembro 09, 2008

Improviso caleidoscópico...

Nenhum espelho é mais nítido
do que essa água em que te consentes submergir
nenhuma sombra recortará o perfil
do teu corpo fragmentado
perdeste o tempo da perfeição
numa lavoura antiga de incertezas
e a infância que nunca chegaste a brincar
apodreceu-te nas mãos
a luz proporciona-se sempre
à área disponível da alma.

Ademar
09.12.2008

dezembro 08, 2008

Improviso para adagietto...

Reescrevo sobre Mahler a memória de Visconti
Cannaregio
Santa Croce
San Polo
Dorsoduro
San Marco
Castello
subimos na Piazza ao mais alto do Campanile
a água sabe connosco
e cumprimos sem bagagens a última viagem no vaporetto
nunca um romance tão breve
morreu assim
como se quisesse apenas adormecer entre murmúrios
estamos agora a um olhar do Adriático
sobre o terraço do Hotel dês Bains
há vozes ainda de adolescentes
risos enlaçantes de adolescentes
que parecem suspender a vida num plano-sequência
e o silêncio vagabundo das mulheres
que nunca despem o dever
mesmo quando a harpa sobressai
sobre todas as cordas que hesitam.

Ademar
08.12.2009

dezembro 07, 2008

Improviso à moda de Aleixo...

Há homens grandes cuja altura
só a morte realça
e homens minúsculos que todos os dias
se põem em bicos de pés
para parecer ainda mais pequenos
do que são
a irrelevância é um estertor de vaidades
os anões não governam mais do que as sombras.

Ademar
07.12.2008

dezembro 06, 2008

Improviso em dó maior...

Os heróis e os mártires
já só contam para efeitos estatísticos
a exibição do sofrimento
deixou de ser uma virtude teologal
a democracia dispensa agora a grandeza do sacrifício
todas as máscaras e todas as poses são efémeras
e até os deuses insistem em jogar aos dados
a salvação que já a ninguém aproveita
o crime finalmente compensa.

Ademar
06.12.2008

dezembro 05, 2008

Improviso para resguardar a partitura...

Já não sei escrever cantigas de amigo
nem de amante
tenho as palavras desafinadas
e as cordas suspensas das mãos
no lugar exacto da perplexidade
o amor é uma exigência de iluminação
alimenta-se das mais antigas penumbras
da memória.

Ademar
05.12.2008

dezembro 04, 2008

Improviso talvez democrático...

Castanholas enfim num passo de dança
sem termo
os dedos voando das trémulas mãos
essa fina cintura que as ancas reprimem
“lantejoulas rápidas”
um fado quase a tiracolo
suspenso de Os Lusíadas
uma guitarra sem cordas
um vibrador sem pilhas
e o Magalhães
qualquer idiota de plástico nos serve
para a patriótica encenação da farsa
bola preta ou bola branca
há-de sair a todos o euromilhões.

Ademar
04.12.2008

dezembro 03, 2008

Improviso em forma de desafronto...

Tenho esperanças volúveis
muito frequentemente adoeço de impaciências
em matéria de lixo
já só reconheço uma modalidade de reciclagem
foi ministro
é banqueiro
mas nunca digo por respeito às mães
puta que os pariu
já houve um tempo em que a decência me confortava
hoje confundo tudo
o esterco e a semente
a tese e a antítese
ninguém me arranca uma confissão em prosa
nem sob tortura eclesial
todos os deuses aliás são meus inimigos
todos os altares
todos os livros sagrados
e não há mulher que me ilumine mais do que o sol
ou que me assombre mais do que a lua
sinto mesmo que não há medida
para esta pele de lobo
arriscarei a vida na bolsa ou na roleta russa
para entreter o tempo que ainda me resta
não fiqueis preocupados
tenho um amigo no governo
que avalizará os prejuízos
ou pagará o enterro.

Ademar
03.12.2008

dezembro 02, 2008

Improviso para Maria de Lurdes...

Enquanto Roma ardia
Nero acariciava as cordas voláteis
de uma harpa
ou seria uma lira?
e falhava a eternidade num poema
que sempre tropeçava na métrica
e no resto
nada disto provavelmente
aconteceu assim
Nero simplesmente ignorava
que o fogo não tem a marca do império
e que a história não guarda o incenso
para os incendiários
eis senhora
o que poderíeis aprender com Nero
se não confiásseis tanto
na temerosa bovinidade do outrora rebanho.

Ademar
02.12.2008

dezembro 01, 2008

Improviso aconchegante...

Tenho os pés frios
hoje viajei para mais longe
do que as solas da alma permitiam
não reconheci no bairro ninguém
e as ruas abarrotavam de pedintes e peregrinos
que pareciam ainda mais sós
há amigas que me escrevem
perguntando se também nevou aqui
subo as persianas para responder
e não consigo ver além das sombras mais íntimas
retiro o arco da caixa do silêncio
e atrevo a incorrecção do gesto de me tocares
nenhuma noite emudece assim de tantos ângulos.


Ademar
01.12.2008

novembro 30, 2008

Improviso atmosférico...

Hoje nevava
quando começámos a descer a montanha
os teus passos iam à frente de nós
e o azul parecia ainda mais liquido
na têmpera da poesia
todas as cores se reconhecem
na volúpia do arco-íris
nenhum passado aconteceu exactamente assim
nem no futuro
não há verdade neste fluido de palavras
a montanha eras tu
e nenhum de nós a desceu.

Ademar
30.11.2008

novembro 29, 2008

Improviso incorrecto...

Há pontos cardeais que não localizo ainda
na cerca do teu corpo
bússolas que embaraçam as mãos
na cabra-cega da vindima
nenhuma aventura
promete tanta incerteza
como esta de nos viajarmos
morremos tão devagar
nascemos tão devagar.

Ademar
29.11.2008

novembro 28, 2008

Improviso socrático...

O poder tem a trela curta
da obediência
os rebanhos perdidos só reconhecem
a autoridade do chicote
mas frágeis os pastores
que se alimentam do sangue
das suas próprias feridas.

Ademar
28.11.2008

novembro 27, 2008

Improviso para encorajar...

As sombras têm vida curta
e ainda há quem sorria
no estertor do medo
nunca o universo vacila
na mesma respiração
as estrelas são eternas
como a luz.

Ademar
27.11.2008


novembro 26, 2008

Improviso para refrear o cansaço...

Um amigo morreu depressa
outro morre devagar
temos de estar sempre disponíveis
para este jogo diria cósmico de notícias
que nos suspendem do silêncio
vazios acumulados como fendas
no lugar da alma
onde o corpo por vezes se distrai
é isso mesmo
não faltam verdades para morrer
verdades absolutas
evidências larvares.

Ademar
26.11.2008

novembro 25, 2008

Improviso para prolongar a noite...

Sobre o caixão
uma bandeira preta
tecida de uma única palavra
dentro
o vazio onde tudo cabe
fora
o silêncio de todas as vozes
que despertam.

Ademar
25.11.2008


novembro 24, 2008

Improviso para tela nocturna...

As palavras inundaram o circo
e o fio serviu de trapézio a todos os pés descalços
as unhas roeram a corda
na última nota.

Ademar
24.11.2008

novembro 23, 2008

Improviso inadvertido...

Chamas-me a atenção por não ter respondido
a uma pergunta retórica sobre a anarquia
e logo penso na desobediência original
do corpo que está sempre a morrer-nos
até os carneiros obedecem contrafeitos
e só a submissão do rebanho os conduz
obrigas-me a sublinhar
essa evidência antiga quase antropológica
o poder precede a autoridade
o falo e a fala raramente conjugam
e nunca procriam
a poesia é apenas uma espécie de
terceiro género.

Ademar
23.11.2008

novembro 22, 2008

Improviso para tergiversar...

Perguntas em que rua
em que bar
todas as noites
encontro as palavras
que procuro
e como as reconheço
digo-te
entre todos os universos em que caibo esse é
o único mistério insolúvel
sei apenas que me encontro sempre
com uma parte de mim
que antes inexistia
e que depois de todas as noites
serei ainda um pouco mais
do que fui.

Ademar
22.11.2008

novembro 21, 2008

Improviso sob a forma de impaciência...

Todos os ricos já foram pobres
todos os pobres já foram ricos
deus síntese e perplexidade
nenhuma sabedoria é mais evidente do que o sol ou a lua
ou mais verdadeira
todos os ministros morreram
antes de tomarem a forma do bronze
e nunca nada ou ninguém se salvou
quem arremata promessas de ocasião na feira
não pede esmola à demência
diz-se por lá simplesmente
sem trejeitos de escárnio
puta que os pariu.

Ademar
21.11.2008

novembro 20, 2008

Improviso sem género...

Nem todas as deusas
semeiam papoilas brancas
nos altares da primavera
nem todos os deuses
esbarro sempre no género
dos substantivos imateriais
tenho fome do inesperado
há imagens que já não cabem nos meus olhos
metáforas nas palavras
escrevo apenas para me ampliar.

Ademar
20.11.2008

novembro 19, 2008

Improviso para dobrar esquinas...

Lume por favor
serve o olhar
tem horas?
garanto-lhe que não estou a tentar
meter conversa
preciso apenas de falar com alguém
hoje saí de casa mais cedo
e creio que me perdi na cidade
ou pelo menos em mim
sinto as palavras trocadas
ou os gestos
talvez me tenha vestido do avesso
ou a insónia ainda perdure
não responda
pegue-me simplesmente na mão
e conduza-me por favor
até ao outro lado deste silêncio.

Ademar
19.11.2008

novembro 18, 2008

Improviso para ressonar...

Hoje tropecei num sábio que soletrava Zaratustra
e quase caí
perguntei-lhe pelas credenciais
abraçou-me com uma gargalhada
do tamanho da antiguidade
clássica
os sábios como as crianças
desconhecem o labor da utilidade
que ninguém lhes peça receitas
verdades instrumentais
os sábios descuidam o tempo
e falham sempre a história
descemos depois da bancada
e entretivemo-nos a contar vaidades
logo adormecemos.

Ademar
18.11.2008

novembro 17, 2008

Improviso na ponta do isco...

Hoje lancei a cana e pesquei
um silêncio ainda maior do que eu
as palavras pesam com as mãos
na ramagem do vento
há pontes que suspendem a inclinação
das águas distraídas
e nuvens que salpicam de sangue
a memória dos dias felizes
este silêncio tem a forma de túmulo
onde cabem todas as multidões
que os olhos fundiram no horizonte do cais.

Ademar
17.11.2008

novembro 16, 2008

Improviso para incenso...

Colecciono sabores
cordas de harpa
cheiros antigos
colecciono histórias e estórias de arrepiar
luas zarolhas
trevos sem folhas
mulheres que nunca foram meninas
livros que nunca lerei
colecciono evidências sonoras
contrabaixos desafinados em mãos
que sangram apenas
palavras incandescentes sofreguidões
marés que nenhum barco transportará
às escadas do cais em que dormes
colecciono camas insónias
serpentes andantes
pesadelos quase perfeitos
noites intermináveis
colecciono amantes invulgares
e caixões que a memória
entre o céu e a terra
perfumou.

Ademar
16.11.2008

novembro 15, 2008

Improviso em forma de tumulto...

As ruas e as praças choram lágrimas
e um silêncio antigo parece retalhar por dentro
as vozes que gritam
nenhuma sombra tem agora mais passos do que esta
e nenhuma raiva
há quem estenda ainda a mão
para uma bandeira imaginária
e pergunte em vão por um rasto de luz.

Ademar
15.11.2008

novembro 14, 2008

Improviso em forma de anotação...

Abrir ainda mais os olhos para a cegueira
fingir o burlesco
e voltar sempre ao princípio de tudo
o palco que ainda não foi inventado
nem a noite.

Ademar
14.11.2008

novembro 13, 2008

Improviso quase pleonástico...

Hoje não escreverei mais sobre implicações
nem todas as causas padecem de consequências
há princípios que morrem precocemente no ovo
estórias que nunca se repetem
risos lágrimas silêncios mudos
e há também recidivas
efeitos em cascata sofreguidões inteligentes
nada no passado é previsível
estamos sempre a improvisar.

Ademar
13.11.2008

novembro 12, 2008

Improviso para voltar ao mundo fechado...

Não reconheci o teu número
o número que tatuaste no braço
passei por ti
e já nenhum de nós existia
o inverno é agora o nosso lugar
a lenha que sobrou de outros anos
já não aquece o pensamento
há lareiras incómodas
que convidam apenas ao sacrifício do tempo
sim
tenho um estilo de reunir as palavras
quando o fogo acende as clareiras da noite
uma espécie de gramática que reconheces
no deserto que arde sempre devagar
só as pausas e o silêncio diferem
ninguém se demite neste palco de sombras
ninguém vai a jogo ou passa
cremo-nos tão perfeitos
que nem cruzamos destinos.

Ademar
12.11.2008

novembro 11, 2008

Improviso com destinatária...

Não há dique senhora
que contenha o mar da insurreição
nem mentira ou ameaça
que desvie o rumo do vento
o poder é coisa pouca
quando a razão desfalece
nenhum temor ajoelha o pensamento
dos que sempre arderam no fogo.

Ademar
11.11.2008


novembro 10, 2008

Improviso ainda mais breve...

Não me lembro bem das circunstâncias
mas já fui feliz
tenho quase a certeza de que já fui
reconheço-me nas palavras perfeitas
sei até onde caibo nelas
a felicidade circula-me nos dedos
sou de uma tribo que já dançou com a lua
noites brancas.

Ademar
10.11.2008

novembro 09, 2008

Improviso para devolver o fogo...

Escrevo ainda sobre o fogo
nas tuas mãos
encostas que parecem arder
entre os olhos
quando o sol atravessa as nuvens
e a luz rasga a memória
esse é o fogo que ilumina
a mais romântica das ausências
o lugar onde tudo cabe
o tempo já não medindo distâncias.

Ademar
09.11.2008


novembro 08, 2008

Improviso para rimar castanhas com jeropiga...

Nenhuma frase sobrevive ao lume
o fogo crepita até as palavras furibundas
sobram sempre mãos para atear as chamas
no próprio corpo
nenhuma solidão é mais árdua
do que esta
quando as marés recuam
diante da sombra fumegante da lua.

Ademar
08.11.2008

Improviso mais do que elementar...

Um erro é um erro
dizes
um erro da natureza
e eu respondo
a natureza desconhece
as regras gramaticais
e as outras
todas as outras
também.

Ademar
08.11.2008

novembro 07, 2008

Improviso num copo de cristal...

Entre as estrelas
as clareiras da noite têm ainda mais luz
mas não há ponte que sirva
a tamanha sofreguidão do olhar
uma após outra
todas as margens parecem fugir
e nenhuma sombra ocupa o lugar da ausência
onde te procuras
o mar no fio do horizonte
e a lua sobre o cais
como se o bebesse.

Ademar
07.11.2008

novembro 06, 2008

Improviso para piano de cauda...

As teclas têm tantos caminhos
como o deserto
mais muito mais do que as mãos
ou os pés que te viajam por ele
trocas os caminhos
e ainda é no deserto que segues
nem reconheces a sombra dos teus passos
quando ajoelhas
as teclas oferecem-te apenas
um destino sempre efémero
uma partitura que o vento desfolha
como se já nada te pertencesse
o deserto caminha contigo
e nenhum destino o conduz.

Ademar
06.11.2008

novembro 05, 2008

Improviso para bailar ainda nas palavras...

Os cisnes nos pés não têm memórias
dos lagos que dançaram
mas apenas das margens
a sua altivez
é um pescoço atirado ao mais incerto
dos horizontes
mulheres insondáveis como cisnes
marés impossíveis.

Ademar
05.11.2008

novembro 04, 2008

Improviso quase confessional...

Hoje fingirei que não durmo
escreverei que tudo se agradece
no princípio ou no fim
a esperança e o transe
algo mesmo que imite o amor
seja lá isso o que for
ou a história que nenhuma notícia decreta
hoje fingirei uma espécie de insónia
ou de paixão
se me virem curvar na esquina mais próxima
não serei eu
a gargalhada sim
e o ressono depois.

Ademar
04.11.2008

novembro 03, 2008

Improviso para máscara e manufactura...

As palavras não colam estilhaços
nenhum desejo é menos sôfrego
mesmo quando as mãos parecem cegar
cidades são apenas labirintos
e nenhuma distância encurta ou prolonga
a urgência dos mapas
entre tantos desertos que nos habitam.

Ademar
03.11.2008

Improviso politicamente incorrecto...

Tudo vai acabar ou começar
outra vez na sala oval
talvez agora com um cunninlingus inter-racial
ou multicultural como agora se diz
o problema da testosterona presidencial é o tesão
que nenhum deus abençoa
nem o deus privativo da grande próstata americana
elas costumam dizer que o tamanho não interessa
mas a curiosidade move montanhas
e o carisma porra o carisma
também os tem no sítio e palpitantes
mas não há duche frio que não evangelize
um orgasmo universal
a orgia pode ficar sempre para depois.

Ademar
03.11.2008

novembro 02, 2008

Improviso para contar o que sobrou do dia...

Inventas rios numa cidade
que ergueste sobre o deserto
as casas aqui não têm alicerces
e tu vais de porta em porta
distribuindo perfumes que ninguém reconhece
talvez precises ainda de vinte euros
para ganhar o dia
na esmola ao deus a que pertences
qualquer sombra serve
um banco corrido na igreja ao fim da rua
um altar despido de eternidades
esse subúrbio que só a noite habita
um carro que passa e que pára
e tu entras
esgotaste o estoque de palavras
e os cigarros e a esperança quase
e perguntas se isto ainda é a europa
está muito frio lá fora
finalmente o outono arrefeceu
agora a tarde tem pressa
e há crianças abandonadas no cais
donde partem todos os barcos
que ainda traficam escravos
tu ficaste e baixas as calças
como se já não soubesses viver de outra maneira
senão de joelhos ou debruçada
sobre esta espécie de ausência de humanidade
as mãos têm a sabedoria da eficiência
o deserto sobre que assenta a cidade
é tão árido como o corpo que lhe ofereces
já não há rio que te percorra
por dentro ou por fora
a viagem agora começa e acaba sempre em terra
uma escultura apenas
uma máscara de veneza estilhaçada
e nenhuma carne ou água sobre os ossos
apenas bronze por derreter.

Ademar
02.11.2008

novembro 01, 2008

Improviso para plano-sequência...

Tanta gente indecisa
atravessa agora o hall deste hotel
saindo e entrando
como se fugisse simplesmente de uma noite
onde já não coubesse mais ninguém
fora ou dentro
deixas cair os olhos e tropeças neles
talvez saibas de cor o caminho
menos o do corpo
que nunca habitaste
género incerto
há machos que te perguntam ainda
por que não sobes ao quarto 512
e fêmeas que apenas arriscam
o convite para o bar
põe os óculos
abre os braços
e veste-te
nenhuma nudez é tão ostensiva
como a da invisibilidade.

Ademar
01.11.2008


outubro 31, 2008

Improviso à sombra de uma figueira...

As orelhas dialogam sempre
mais depressa com as mãos
e mais intimamente
e quando os pés imploram
o sustento do chão
até o silêncio parece sulcar
ainda mais profundamente
a memória do corpo que se interroga
afinal
talvez haja ainda mais terra
depois daquela em que nos perdemos.

Ademar
31.10.2008

outubro 30, 2008

Improviso para esculpir a rigidez...

Nenhum biombo protege da nudez
o pó das estrelas
o desejo tem um ferida
que o sangra por dentro
não há ciclo de fertilidade
que humanize essa armadura antiga
o pensamento é um rio gelado
e há vulcões adormecidos nas palavras
que morrem no estuário das mãos.

Ademar
30.10.2008

outubro 29, 2008

Improviso para desafiar a imortalidade...

Um dia escreverei um poema imortal
depois morrerei
os poemas imortais são caudas de fogo
nenhuma água os conduz
um dia ficarei suspenso de um orgasmo
e engravidarei o universo
assim começam e acabam
todos os livros de aventuras.

Ademar
29.10.2008

outubro 28, 2008

Improviso na forma de outono...

Coloco na montra
para que escolhas
dois braços
duas mãos
passos que os pés
ainda não tentaram
um livro de segredos impartilháveis
foices e arados por usar
poemas tão nus de metáforas
que enregelam
e uma cama vazia
deixo o mais de fora
quase todo o efémero.

Ademar
28.10.2008

outubro 27, 2008

Improviso para entreter algo que se pareça com o destino...

Tens um jeito especial de conjugar
o verbo talvez
e nunca acertas na frase ou na vida
o ponto final
há gramáticas que estranham
o método da intemporalidade
de Charlie Brown.

Ademar
26.10.2008

outubro 26, 2008

Improviso suspenso em forma de lua...

Numa nesga de esperança
era uma esquina ou um violino tardio
um sopro quase de vento impossível
no deserto dos ossos
as mãos que tremiam o cigarro esquecido
e o labirinto interminável
de portas e janelas fechadas por fora
que nenhuma luz habitava
a noite escrevia palavras doentes
que perduravam
e os bares não serviam ninguém.

Ademar
26.10.2008

outubro 25, 2008

Improviso para antecipar o que sobra do tempo...

Abro as janelas mais cedo
para que a noite não espere mais
por quem não chegará
e fumo um cigarro proibido
nos lábios que perderam a tarde
viajo pelos subúrbios de uma paixão
que tropeça nas próprias sombras.

Ademar
25.10.2008

outubro 24, 2008

Improviso até um dia...

Hoje preciso de dormir
duas noites ou mais
e fosse como fosse
não celebro nenhum aniversário
se vieres
usa a chave com que costumas abrir
o postigo do vento
e não me acordes
o corpo hoje pede-me eternidades
não sei se voltarei.

Ademar
24.10.2008

Improviso para dizer, simplesmente, que a poesia não serve para nada...

Desempregados da vida
os poetas não aspiram a empregos
nem a futuros que a economia consagre
a poesia só gere mais valias
no mercado das incertezas
é um recolhimento interior
uma sombra no deserto
um cântico silencioso
que só ouve quem desce
ao lugar mais grávido de si.

Ademar
24.10.2008

outubro 23, 2008

Improviso sobre "Dieu fumeur de havanes", de Serge Gainsbourg...

No balanço das vozes imortais
peitos que emagrecem apenas
na tela dos ossos
e as mãos que tremem o cigarro
na ponta dos dedos
essa certeza de que nunca quiseste ter
vinte anos
e ser tão virgem assim
de uma virgindade quase antropológica
tantas cadeiras no palco
tantos microfones para o silêncio
os lábios que beijam devagar
e as palavras que tropeçam na garganta
nenhum futuro cicatriza
nas asas que não voam.

Ademar
23.10.2008

lecinema08aa.jpg

habanesss.jpg

outubro 22, 2008

Improviso ainda artesanal...

Mãos como teares
teço o que vestes
é pouco corpo
para tanto linho
sobram palavras
e dedos
e a tela porém
onde não cabes
parece infinita.

Ademar
22.10.2008

Improviso quase bíblico...

Tenho sempre medo
quando adormeço profundamente
que me roubem uma costela
eu também li o génesis
e sei o que aconteceu.

Ademar
22.10.2008

outubro 21, 2008

Improviso elementar...

Escrevo sobre despojos
memória exaustas
há uma ruína diária nas palavras
em que tropeço
a vida perde-se assim
numa lenta hemorragia de sentidos
o futuro regressa no tempo
a um tempo que já foi passado
a noite sussurra os pesadelos
que absurdamente sorriem
esse berço antigo que já não embala
nenhuma promessa
agora dizes-me cansado e aborrecido
e adivinhas exactamente como sangro
na luz que atravessa ainda a janela
de todos os dias.

Ademar
21.10.2008

outubro 20, 2008

Improviso para esgotar talvez a poesia...

Troco frases
por uma vida menos retórica
os orgasmos estão pela hora do vento
como as energias renováveis
poderia escrever tratados
sobre o medo do corpo
e a culpa do espelho
se não coleccionasse palavras como cromos
e não morresse devagar
(projecção recorrente)
no prazer solitário e ambíguo de todas as noites
troco frases
por uma luz apenas que me encandeie.

Ademar
20.10.2008

Improviso autografado para servir de epitáfio...

mor08a.jpg

outubro 19, 2008

Improviso para viajar em contramão...

Estarei perto da praia
só não sei se pelo lado do mar
ou da terra
se tropeço antes
ou naufrago
receio ter perdido a bússola
ou alguém a escondeu
agora sigo o vento
na direcção talvez do cais
dos impossíveis.

Ademar
19.10.2008

outubro 18, 2008

Improviso em câmara lenta...

Hesitas sempre entre subir ou descer as escadas
sair ou entrar
não tens fome dizes
e nunca conjugas a mesa com a sobremesa
apetece-te apenas mais um cigarro
ou uma cerveja
tens o corpo fechado
e o destino suspenso do corpo
que não abre
há um lado do rosto que parece ter quebrado
como um espelho
e é desse lado que me espreitas
enquanto tremes por dentro do olhar.

Ademar
18.10.2008

outubro 17, 2008

Improviso sobre a nudez...

Numa máscara
cabem todos os medos
agora já podes despir-te
as cicatrizes são tatuagens
sobra o caminho do género
no corpo predestinado
esse caminho que ainda não fizemos
como te direi
que nem as sombras nos pertencem
nem o chão
nenhuma nudez foi assim tão urgente.

Ademar
17.10.2008

outubro 16, 2008

Improviso quase naturalista...

Pântanos que cheiram a rosas
jardins desfeitos
que guardam saudades da terra original
a chuva e o vento
e as marés uterinas que transportam
os pólenes do big bang
os pés que já não acertam os passos
os passos que já não reconhecem os pés
rosas que perfumam os pântanos
jardins que guardam saudades
da terra original.

Ademar
16.10.2008

outubro 15, 2008

Improviso sobre um tema de Toumani Diabaté...

Não digas lindíssimas as mãos
que te conduzem a África
por um caminho de cordas
vibra com elas
como se estivesses ainda para nascer
a paixão no corpo que ofereces
ao segredo lentamente partilhado
o sol que rasteja na virgindade da areia
humedecendo esse tão antigo deserto
em que viajas.

Ademar
15.10.2008

outubro 14, 2008

Improviso quase pornográfico...

Hoje a lua jantou à minha mesa
trocámos apenas olhares silenciosos
e servimo-nos o desejo de noites intermináveis
não posso garantir que tenha sido
rapto ou sequestro
mas fomos ambos reféns do culto
da sobremesa
o infinito
ou algo assim.

Ademar
14.10.2008

Improviso para drama e saudade...

Se reescrevesse a minha história
já não seria a minha história
mas uma espécie de romance de mim
talvez existisse ao contrário
talvez começasse por morrer
e só depois acordasse
a vida no princípio só convém à poesia
a sabedoria é o envelhecimento
morre-se sempre na viagem.

Ademar
14.10.2008

outubro 13, 2008

Improviso sobre Le Chien, de Léo Ferré...


Sim
posso dizer todas as noites que a lua
não importa o adjectivo ou o grau
belíssima ou esplendorosa
a lua que cruza todos os olhares
quando se levantam do chão
que a lua és tu e ninguém
ou mais ninguém
que a lua improvisa todas as sombras
que a luz descurou
que a lua não existe
senão nas palavras que a noite grita
à diversão dos cães de Ferré
ele próprio que se dizia cão
sim
posso dizer todas as noites
que as diligências da memória vão vazias
ou lotadas de toda a gente que morreu
e que ninguém até hoje viveu no corpo
que te viaja
território tão frágil e tão virgem
que nem tu própria pareces habitar
todas as noites a incerteza do dia seguinte
o direito de ser tudo no futuro
e nada hoje
a não ser o pó que conjuga as estrelas.

Ademar
13.10.2008

outubro 12, 2008

Improviso íntimo...

Corpos assim
ausentes do seu próprio destino
mulheres que nunca se fizeram engravidar
pela luz dos dias que riem
que desconhecem o colo e o coito
no lugar da alma
e que vigiam o medo
como se o medo andasse por aí
desejos impolutos
que descem pelas mãos criadoras
que perguntam tudo
e tudo aspiram a saber
uma tatuagem em árabe no pensamento
e a nudez que finalmente nos embaraça.

Ademar
12.10.2008

outubro 11, 2008

Improviso sobre "Parlez-Moi D'Amour"...

Vou escrever um dicionário
de palavras de amor
para que nunca as usemos em vão
ou mais depressa do que a inteligência deveria consentir
os corpos que se desejam
descuidam o rigor da linguagem.

Ademar
11.10.2008

outubro 10, 2008

Improviso sobre um quadro de Diana Martins...

dianabessa.jpg

Mãos que entram por mãos
por todas as mãos e nenhumas
mãos sem dedos
incompletas
disformes
como garras
mãos quase cicatrizadas
que tão depressa acolhem e repelem
mandíbulas de cães mitológicos
na tarde que ladra ao longe
essa máscara sem mãos
veneziana
e o espelho breve e antigo
em que apenas brilham os olhos
mãos com luvas por dentro
que ajoelham a ternura ainda incomestível.

Ademar
10.10.2008

outubro 09, 2008

Improviso para dizer uma vez mais que no princípio foi o verbo...

Interiores
que se abrem muito devagar
que a luz e o vento penetram obliquamente
entre grades
e um pudor antiquíssimo
que a matriz do género prolonga e retarda
essa é a parte que chove
na noite que não adormece
a parte que vagueia num sonho anfíbio
entre a terra e o mar
suspendes as mãos e os olhos
diante do espelho
e suspendes a vida
enquanto o pensamento humedece.

Ademar
09.10.2008

outubro 08, 2008

Improviso para fresta...

Como se não tivesses voz
e eu adoecesse de palavras
ou te faltasse um corpo
apresentável
celas subterrâneas
em que a luz não entra
destinos que são bunkers
como se já tivesses nascido
em pijama
e nunca te despisses
nem para o banho da chuva.

Ademar
08.10.2008

outubro 07, 2008

Improviso em sol...

O fogo nasce algures no pensamento
e depois pulveriza os ossos
por dentro da pouca carne que ainda os envolve
ardes tão lentamente tão velozmente
que as chamas iluminam as estrelas da noite
como cinzas suspensas de um vulcão
e tudo crepita em volta
como se queimasse
há silêncios que gritam
naturezas adormecidas.

Ademar
07.10.2008

outubro 06, 2008

Improviso no modo de trespasse...

Hoje arrendei o sol ou uma parte dele
exactamente a parte que me devia
e fui feliz no futuro
agora já poderei renascer no outono
e morrer talvez na primavera.

Ademar
06.10.2008

outubro 05, 2008

Improviso como lâmina...

Desenho cicatrizes
num lugar que já não é o corpo
mas a casa o berço
há destinos que quase morrem na infância
condições sempre adiadas
agora teço hímenes complacentes
numa quase ausência de género
desfolho flagrâncias
e parece que nunca sorris
homens a mais talvez num mundo tão fechado
tão curto nos seus limites
e o renascimento ao alcance das mãos
enfim cicatrizadas.

Ademar
05.10.2008

outubro 04, 2008

Improviso sobre uma imagem...

Não sei agora por onde começar
a noite arrefeceu
e caminhas devagar
há evidências de luzes na sombra
e olhares desfocados
um cansaço que tropeça
entre vozes que já não gritam
caminhas devagar
mas para longe
não importa os braços caídos
as pernas que parecem errar os passos
entras na noite cada vez mais fria
e chamas por quem
te conduza ao outro lado do vida.

Ademar
04.10.2008

outubro 03, 2008

Improviso à luz de Oríon...

Entre as setas e as cordas
no arco que seguras
como se a castidade te impusesse o sacrifício
de todos os caçadores
nada mais elementar do que a vertigem
do ciúme da mãe que sempre triunfa
protectora e temível
deusa inquieta
a constelação tem agora o nome
do mito que fundaste
e é lá que todas as noites esperas
o feitiço da lua
entre braços e mãos e olhares que dominas
as palavras vão a caminho
e tu despes a alma
enquanto contas os astros no teu corpo
pó estelar
a espada que te corta ao meio
e te divide
quem soubesse reunir-te
e fosse capaz de cerzir tanta beleza
fragmentada.

Ademar
03.10.2008

outubro 02, 2008

Improviso para ditar uma resposta...

Essa parte não é a totalidade
mas faz parte dela
e é talvez a parte
de que todas as outras procedem
o sexo e o género
que nem sempre conjugam
ou harmonias que falham
no tempo exacto em que fundiriam
a origem da identidade é sempre um enigma
há partes que oscilam
numa espécie de baloiço
mulheres que nascem muito tarde.

Ademar
02.10.2008

outubro 01, 2008

Improviso em forma de futuro...

Há uma intimidade anterior às palavras
dizes
e viagens que só se cumprem depois
de equacionada e resolvida a incógnita da distância
são apenas seis letras
e a história toda da humanidade
dentro delas
foi sempre assim
será sempre assim
talvez amanhã chova
e os olhos fiquem ainda mais límpidos
talvez amanhã
o poema voe da tela
ou da paleta
e o universo se interrogue por quê
silêncios que só as vozes reconhecem.

Ademar
01.10.2008

setembro 30, 2008

Improviso para dedilhar numa única corda...

O pensamento reparte-se
como um bolo de aniversário
ponho velas no desejo
e deixo-me atear
há talvez copos a mais
na bandeja que conduzes entre as mesas
e as garrafas já estiveram vazias
sobra agora um poema incompleto
e a paixão inteira
primeira.

Ademar
30.09.2008


setembro 29, 2008

Improviso para servir um pudor arqueológico...

A luz fechada sobre o corpo
o embaraço da janela que se abre de mais
que tudo fosse tão simples como parece
o passado tem jugos
que poucos silêncios desvendam
e nem todas as lágrimas choram pelos olhos
a tua nudez é mais liquida
do que a lua minguante.

Ademar
29.09.2008

setembro 28, 2008

Improviso para surrealizar...

Andas sempre na rua e
a rua morre devagar
não há passos que te reconduzam a casa
e a noite chove sombras de estrelas
no teu olhar
hoje
arriscarás o subúrbio num altar de pedra
como esse a que já subiste
e contarás pegadas
nenhum carro no fim da rua te espera
pedes boleia
às cordas íntimas de um violoncelo
e começas enfim a caminhar.

Ademar
28.09.2008

setembro 27, 2008

Improviso para desviar o teu rio...

Todos os corpos são
territórios estreitos
e têm apenas duas margens
desabitadas
já não há alternativa à corrente
no caudal que nos viaja
deixa-me ainda ensinar-te isto
nada é tão urgente e definitivo no teu corpo
como o perfume que lhe acrescento.

Ademar
27.09.2008

setembro 26, 2008

Improviso para natureza viva...

Vodca e chocolate preto
ou whisky e bolinhos de bacalhau
não discuto a cor da lingerie
nem o tamanho da mochila
apenas o rigor da paixão
ou a sua verdade
a mesa pode esperar
e a cama
a viagem não.

Ademar
26.09.2008

setembro 25, 2008

Improviso de circunstância para aconchegar uma amiga casadoura...

Não me peças que me enrede
ainda mais na lavoura das palavras
a felicidade será
ou talvez já tenha sido
nunca estamos no lugar das notícias
morreremos antes ou depois.

Ademar
25.09.2008

Improviso para borboleta...

Hoje apetece-me inventar ou reinventar um verbo
despetrificar
digo
limpar do feitiço da pedra
não importa a física dos materiais
há metamorfoses
que só ao desejo se consentem
a urgência dos braços abertos
o sono em forma de berço.

Ademar
25.09.2008

setembro 24, 2008

Improviso para memória futura...

Pedes-me que te sequestre
impeles-me a uma certa forma de crime
dizes que assinas um papel
a autorizar
e que não farás queixa
mas a poesia não releva como atenuante
muito menos a paixão ou o desejo
todos os crimes
convidam ao recolhimento de uma cela
e as palavras são grades
quando falham o horizonte dos olhos
e das mãos
quero ser livre
para te aprisionar.

Ademar
24.09.2008

setembro 23, 2008

Improviso na forma de urgência...

O coração por vezes arde assim
na floresta virgem das palavras
se a fénix soubesse
como as cinzas ainda queimam
o fogo que renasce das entranhas
e se propaga
na humidade distraída das noites que chovem
esses passos tão lentos
que o coração ainda ardendo
quase adormece nas chamas.

Ademar
23.09.2008


setembro 22, 2008

Improviso para apóstrofe...

Não sei se entendes mesmo a circunstância
tenho sempre de esquecer o que já escrevi
para voltar a escrever
toda a escrita vive do esquecimento
por isso
não me exijas a memória
das palavras que fui
e que reproduzes
renasço em todos os textos
para me assegurar a ilusão da eternidade
aprendi hoje a escrever
e só agora começo a desejar-te
ontem não era eu
se era
morri.

Ademar
22.09.2008


setembro 21, 2008

Improviso para dizer que não chegaste...

Agora tenho as mãos sujas
dos botões da concertina
e o desejo é um fole
que a saudade atravessa
mas ainda há frases que reconheço
essa fui eu que escrevi
não importa onde a encontraste
hoje fiz apenas três ruas
e não passaste por mim

tenho o chapéu vazio de moedas
hei-de morrer ainda mais pobre nesta cidade
ou descuidado.

Ademar
21.09.2008

setembro 20, 2008

Improviso estranhável...

Não posso escrever poemas perfeitos todas as noites
falta-me
eu ia escrever nas mãos
magia para tanto
e quem a quisesse
aprendi apenas meia dúzia de truques
veio tudo numa caixa e nem fui eu que a abri
a infância passa depressa
e os adultos não brincam
morrem mesmo assim
desfolho-te e leio-te devagar
tenho os olhos cheios de tantas luzes
cobardes
soletro o teu corpo
arrisco frases
e tropeço sempre em mim
antes do ponto final
assim.

Ademar
20.09.2008

setembro 19, 2008

Improviso estelar...

Tu ainda não aprendeste a dizer poemas
ao porteiro da lua
o homem das longas barbas brancas
que atravessa distraído o deserto
como se tivesse errado a bússola
das coordenadas da noite
tantas algemas na voz
tantas luzes à distância que embaraçam o olhar
o porteiro da lua acende estrelas
no lugar do medo
o homem das longas barbas brancas
no silêncio do cais.

Ademar
19.09.2008

setembro 18, 2008

Improviso para bivalve e muito mais de quatro cordas...

Já não aspiro à eternidade
mas apenas à paciência das ostras
e ao seu brilho interior
tenho pérolas no pensamento
entre as palavras que uso
e mãos como pinças
partituras em forma de concha
e essa luz que te abre devagar.

Ademar
18.09.2008

setembro 17, 2008

Improviso para retiro na cidade...

O fumo separa
cada noite do dia seguinte
já quase não há chaminés na cidade
e agora sobram apenas as palavras
para dizer que arde
chove no pensamento
com que viajas pelas entranhas do fogo
e já te pesa a roupa molhada
tão frágil a nudez que te prometes.

Ademar
17.09.2008

setembro 16, 2008

Improviso entre carris...

Talvez o comboio não passe
por essa estação ou apeadeiro
talvez o cais
seja apenas um jardim
ou um museu de satélites
a viagem pode ser um embaraço
ou não ter regresso
há comboios que não respeitam destinos.

Ademar
16.09.2008

setembro 15, 2008

Improviso sobre um poema de Adélia Prado...

Contas os livros
é mais fácil contar lombadas
do que sentimentos
as mãos que se deixam impregnar do pó acumulado
ainda não voam
mas é por pouco tempo
fechas a porta para banhar-te
e abres o pensamento a Lucrécia
como o abres para mim
lavada dos livros
cheiras ainda mais intensamente
Adélia diria
que andas no mar encantada
e que transpões montanhas
na bicicleta do sonho
tomara que a biblioteca tivesse o tamanho do universo
e que todos os livros dissessem uma verdade qualquer
enquanto os desfolhasses.

Ademar
15.09.2008

setembro 14, 2008

Improviso para partitura de viagem...

As esquinas suspendem o olhar
a rua é um plano que adormece na tela
procuras o lugar certo na noite
uma espécie de berço que ainda te acolhesse
há um traço branco no asfalto
uma tatuagem no braço
e palavras que são casas ainda
sem portas nem janelas
o mar fica sempre tão perto e tão longe do perigo
quando projectas esquinas
na rua em que despertas.

Ademar
14.09.2008

setembro 13, 2008

Improviso na forma de gesto...

Sim fecha a porta
e diz antes
com licença
é evidente que
a porta nunca se fecha
mas convém
que não a deixes sempre escancarada
ele há tantas frestas
no pensamento que nos abre
atrás do biombo
pareces muito mais do que um reflexo
e ouço a água a atravessar o corpo
que nunca se despe
a porta
e o gesto de a fechar
o gesto apenas
e a mão que tropeça.

Ademar
13.09.2008

setembro 12, 2008

Improviso num bar imaginário...

Dois cubos de gelo ou três
dose dupla dizes
sentas-te sobre as pernas abertas
desces as pálpebras
e começas a molhar os lábios
como se só agora os pressentisses
a garrafa tem muitas formas
e muitas que desconhecesses
é indispensável voltar sempre
à origem de tudo
és anterior ao próprio universo
e ainda não nasceste.

Ademar
12.09.2008

setembro 11, 2008

Improviso no cemitério...

Não beijes assim
tão perto do bronze
não afastes os braços
não escondas as mãos
e sobretudo não feches os olhos
enquanto beijas
tão perto do bronze
há altares de pedra
que bebem as marcas dos teus pés
e nenhum vento tem pressa
de voar no teu silêncio
já tiveste a forma de uma cruz
e desceste dela
à distância de um salto
a terra ainda não percebeu
como lhe concedes tanta leveza.

Ademar
11.09.2008

setembro 10, 2008

Improviso como tributo...

Nesse tempo o espelho
ainda tinha duas superfícies
e nenhum reflexo
prolongava a realidade dos teus olhos
eras magra muito magra
e raramente confiavas à noite o teu regresso
há um tempo na vida
em que os espelhos respiram
e nada parece fugir ao seu entendimento
depois
as palavras despertam
e começam a doer no silêncio
o medo tem uma retórica antiquíssima
tão antiga
que canta sempre por muitas vozes
alheias.

Ademar
10.09.2008

setembro 09, 2008

Improviso para transubstanciação...

No dia em que cheirasses a perfeição
um de nós já teria deixado de cheirar
por agora adoeces
e ainda tens medos
e os medos são tão reais
que até parecem verdadeiros
digo
corpo do teu corpo
ou sangue que alguém pudesse beber.

Ademar
09.09.2008

Improviso quase gramatical...

Faltam-me palavras para o resto da viagem
já esgotei todos os processos
todos os estados
e todos os atributos
agora repito os verbos
e descuido a adjectivação
na vida das palavras
o eterno retorno
está tudo dito minha amiga
e talvez tudo vivido
só falta mesmo o ponto final
este.

Ademar
09.09.2008

setembro 08, 2008

Improviso em forma de chave...

Nesse mundo fechado
o chão está à mesma altura do céu
e os olhos não querem ver
senão para dentro
o labirinto começa quando hesitas o corpo
entre as margens do rio em que corres
o pântano e o medo
queres despir-te lentamente de todas as amarras
e sofres a impaciência da nudez
nos pulsos que já ofereces às algemas
alguém que guarde a chave dos teus segredos
alguém que abra a porta do teu silêncio
o pântano e o medo
e a sofreguidão de todas as cores
na tela em que te projectas.

Ademar
08.09.2008

setembro 07, 2008

Improviso sobre uma fotografia...

Mulheres que nascem devagar
um risco branco cortando o asfalto
e o corpo atravessado nele
céus lapidados de estrelas
sobre os gestos da mulher
que não dorme
a fome e a sede
ao balcão do desejo
e a fragilidade deitada no lugar dos olhos
os olhos tão abertos da mulher
que se deixa abrir e semear no asfalto.

Ademar
07.09.2008

setembro 06, 2008

Improviso para venda, espelho e tela...

Há um plano em que fechas os olhos
ou
em que duas mãos descem sobre os teus olhos
uma venda azul
nesse plano há também um espelho
um espelho antigo
uma superfície aparentemente vidrada
em que as imagens se sobrepõem
como se não tivessem memória
nem data
o plano suspende-se do pensamento
sabes que um verbo detém a câmara
da narrativa
e usa-lo no exacto momento
em que as mãos se aproximam
dos botões interiores
e em que o espelho parece quebrar-se
nenhum filme é tão verdadeiro
como este
nem tão lunar
abres finalmente os olhos
para pintar a tela.

Ademar
06.09.2008

setembro 05, 2008

Improviso entre a primavera e o outono...

Virá por fim
quem vier por bem
são estas as palavras que lês
na placa imaginária
desse roteiro tão íntimo
que nenhum mapa acolhe
palavras antigas
como o musgo
ou as pedras
mais leves muito mais leves
os olhos que as decifram
os pés que as seguem
a água
a água da chuva
essa vertigem de roupa molhada
essa imposição da nudez original.

Ademar
05.09.2008

setembro 04, 2008

Improviso em forma de metáfora instrumental...

O corpo armário de evasivas
e dentro dele ou de ti um violoncelo
afinado entre a violeta e o contrabaixo
cordas tão secretas
que nenhuma mão alcança
nem à partitura
abres as pernas
e só o espigão te prolonga
até ao interior das palavras
chove lá fora de novo
adivinho humidades.

Ademar
04.09.2008

setembro 03, 2008

Improviso para que ninguém mais entenda...

O caminho das cerejas
que se perde sempre nos novelos da primavera
perguntas-me ingenuamente o que isto quer dizer
e
à mingua de cerejas
ou de primavera
convidas-me a provar das uvas
que te descem das orelhas
e eu que nem sei o teu nome em árabe
inscrito na tatuagem
com que me abraças
nem o tamanho dos pés
com que foges
sim
quero dizer apenas que me vendo
em palavras
(vendo do verbo vendar).

Ademar
03.09.2008

setembro 02, 2008

Improviso açoriano...

Fixo finalmente o olhar nas pedras e nos pés
e nos cabelos que já foram compridos
tudo parece humedecer em volta
e nos dedos frágeis que
ancoram o corpo
é aqui que me detenho
neste equilíbrio precário com a grécia dentro
não há pernas que te conduzam tão longe
como pelo olhar
a água escorre silenciosamente
de uma fresta recortada na furna
que se abre
e tudo aquece e fervilha de novo
no interior da terra.

Ademar
02.09.2008

setembro 01, 2008

Improviso para duas notas só...

Um pouco de chá
e um pouco de jazz
as teclas do corpo
e todas as mãos
palavras para lábios
quando nada fica por dizer
ou por cantar
não importa que seja um standard
este chá bebe-se frio
e sem adoçante
serve-me o piano e o contrabaixo
não preciso de prato sob a chávena
não preciso de chávena
não preciso de chá
basta-me a partitura desta tela
em branco
e o swing sempre apetecível
dos teus silêncios.

Ademar
01.09.2008

agosto 31, 2008

Improviso para ventilador...

Morri hoje
mas ainda tenho que escrever este poema
antes que venham buscar o meu corpo
para a reciclagem
não sei se ainda tenho crédito de palavras
e temo mesmo que a password
neste momento
já esteja desactivada
mas arrisco
nem na morte me pesou a vida
digo-te que é apenas uma vertigem
nada que o amor entenda
ou o desamor
uma última miragem
o barco que finalmente sai da linha do horizonte
e parece naufragar
e foram necessárias tantas mortes
para chegar a esta
em que só tu me esperavas
não levantes já o meu corpo peço-te
deixa-me ainda acabar de morrer neste cigarro.

Ademar
31.08.2008

agosto 30, 2008

Improviso para pira e viola de arco...

Chegas o fogo ao combustível
e deixas arder
quando retomo a vertigem do fumo
envolvo-me nas chamas
e ofereço-me à fragmentação
em todos os gestos incendiários
este é o fogo que eu exijo
que ninguém apague
nem a água nos olhos
nem a espuma do céu.

Ademar
30.08.2008

agosto 29, 2008

Improviso quase vagabundo...

De vez em quando
convocas-me pelo lado errado da noite
ou da vida
como se tudo afinal fosse indiferente
partir ou chegar
ou ficar ainda suspenso de uma esquina imaginária
entre luzes que cegassem apenas
todos os bares já tinham fechado
quando saí ao teu encontro
e tu não estavas em nenhum
estes bairros sem gente dentro
estas ruas que as sombras assaltam
estas ruínas em que só nós cabemos
já é tão tarde para voltar para casa.

Ademar
29.08.2008

agosto 28, 2008

Improviso para "voucher"...

Haverá talvez um hotel
sobre o Tejo
um terraço uma varanda
e uma ponte
perpendicular à memória de Aranjuez
as noites adormecem devagar
quando ninguém te espera
e há mãos que não te oferecem mais do que poemas
trazes uma guitarra nos olhos
e as páginas do concerto
e não poupas ninguém ao recolhimento dos teus dedos
nesse hotel sobre o Tejo.

Ademar
28.08.2008

agosto 27, 2008

Improviso para desenhar a escuridão...

Já dei muitas voltas ao planeta
à procura dos teus olhos
e das tuas mãos
e adormeci sempre entre satélites
sem te ter encontrado
sei que me olhas e que me tocas
mas não te reconheço na noite antiquíssima
quando todas as luzes se apagam
e sobro apenas para a saudade
do que serás
nenhum corpo resiste a tamanha ausência
e não há palavras que ocupem o lugar
da vida que não quisemos.

Ademar
27.08.2008

agosto 26, 2008

Improviso para continuar a contar noites...

Hoje inventei uma caixa de música
para não ter de me dar à manivela
do silêncio
volto sempre ao princípio de mim
para iludir o tempo
e digo-te as mesmas palavras
numa partitura sem fim
em dó menor ou em sol maior
tenho nuvens no pensamento
e não me ensinaste ainda a abrir o pára-quedas.

Ademar
26.08.2008

agosto 25, 2008

Improviso para responder a uma pergunta demorada...

Do terraço verás lá em baixo o rio
e se fechares os olhos
subirás ainda acima do K2
a um braço apenas da lua
essa encosta tem dois caminhos
e é na confluência deles que me encontrarás
não há mais vidas
depois desta que perdermos
não há mais palavras
nem silêncios
as noites morrem assim
entre janelas que ninguém abre
e ninguém fecha.

Ademar
25.08.2008

agosto 24, 2008

Improviso para essência...

Lavo todos os dias as palavras que uso
como as mãos
é uma higiene elementar
antes da mesa e antes do corpo
que te sirvo sobre a mesa
podes até embrulhar-te na toalha
imaculada
cheiras as palavras
e dizes rosmaninho
o leite e o mel
humedecem com a noite
os nossos lábios secretos.

Ademar
24.08.2008

agosto 23, 2008

Improviso para adormecer o futuro...

Nunca dançaste para mim o flamenco
em Sevilha era cedo
e em Granada já todos dormiam
e porém os teus pés
cobiçavam o palco do meu olhar
em joelhos servido
à luxúria do movimento dos dois braços que apontavas à lua
eras muito mais alta do que dizias
mais alta e mais esguia
mesmo quando dançavas nua e descalça
e os teus cabelos cheiravam a deserto
grutas afeiçoadas nas cordas
de todas as guitarras que me tocavam
por dentro do teu corpo
e ninguém dançava o flamenco como tu
nas tábuas dos espelhos da minha saudade.

Ademar
23.08.2008

agosto 22, 2008

Improviso para 46 cordas, mais as que te acrescentares...

Hoje adormeceria a ouvir esta harpa
se ajoelhasses à cabeceira da minha alma
e a tocasses
já pertenci a todas as mãos
menos às tuas
nenhuma noite tem tanto futuro dentro
como a noite que dizes
que nunca será.

Ademar
22.08.2008

agosto 21, 2008

Improviso para dizer que percebi...

Há mãos que circulam labirintos
e biombos transparentes
e há títulos que são máscaras caídas
e sedas que ainda enrugam o olhar
mas também há marcas de nudez
como impressões digitais
gestos que transportam memórias
de Álvaro de Campos
noites antiquísimas (lembras-te?)
outras vidas
outros corpos
mas sempre o mesmo
sempre o teu.

Ademar
21.08.2008

Improviso quase redundante...

Há coisas que eu escrevo
e que só tu entendes
há coisas que eu escrevo
e que nem tu entendes
e há coisas que eu escrevo
para que tu não possas entender
tenho segredos impartilháveis
e outros que nem as palavras
saberiam dizer
é essa parte do mistério de cada um
que explica a resiliência dos deuses
todos os altares convidam
à ilusão do recolhimento.

Ademar
21.08.2008

agosto 20, 2008

Improviso para decifrar o Tejo...

Antes da idade das palavras
ainda não existíamos
e só o vento servia de ponte
às margens do rio que habitávamos
nesse tempo
nem o silêncio engravidava de palavras
eram só rumores e olhares
e cheiros primitivos
e as noites não cumpriam estações
todos os dias tinham em nós
a duração da eternidade.

Ademar
20.08.2008

agosto 19, 2008

Improviso para tela e melancolia...

Continuas à janela
a ver as palavras que passam
a janela e as palavras
pintam uma tela nos teus olhos
dir-se-ia que nenhum recato
pousa nela
e a noite não desce persianas
sobre o silêncio em que te ouves
lá fora
e há uma voz que canta
numa língua que não entendes
as palavras tropeçam nas sombras
e pedem-te ajuda
deixas uma esmola com o olhar
parece um vinil dos mais antigos
esse que desce da janela
em que permaneces assim
será ainda Nat King Cole?

Ademar
19.08.2008

agosto 18, 2008

Improviso para errar o cartaz...

Regressaremos sempre àquela rua
em que nunca estivemos
e daremos as mãos
como na primeira vez
em que não demos
e desceremos ou subiremos as escadas
que só existem no filme de Wong Kar Way
para nos encontrarmos
onde logo nos desencontraremos
os violinos e os violoncelos têm as cordas
dos teus longos cabelos imaginários
e mesmo o corpo assim desnudado
é muito pouco provável que te pertença
hoje mais uma vez
chegaremos atrasados à sessão da meia noite
e nem a lua estará à nossa espera
quando finalmente nos cruzarmos
ah sim habitamos também uma longa história
de reposições falhadas.

Ademar
18.08.2008

agosto 17, 2008

Improviso cobarde...

Não temos cartas para ir a jogo
nem para passar
as mãos vazias e cheias
de tantas mesas em que já ganhámos e perdemos
as noites agora começam e acabam assim
entre baralhos e máscaras que não se consentem sequer
o risco da nudez.

Ademar
17.08.2008

agosto 16, 2008

Improviso breve para servir de tela...

Há mais luzes no deserto
do que nas noites que o habitam
faltarão talvez os teus olhos
sobre o oásis mais próximo
nenhuma constelação tece no silêncio
a sombra das tuas asas.

Ademar
16.08.2008

agosto 15, 2008

Improviso para plano e sequência...

Os olhos
convidam a memórias concêntricas
nesse lugar da alma
em que viajas sempre sobre um fio de luz
há penumbras em que ainda me perco
quando acendes na noite
uma vela apenas
e adormeces palavras.

Ademar
15.08.2008

agosto 14, 2008

Improviso para piano e contrabaixo...

Afinas em dó
a quinta corda
os dedos ainda não arriscam
o arco
nem os olhos
a teia da partitura
há um corpo
que se furta à nudez
uma máscara
que não cai
no princípio do jazz
o swing
o labirinto depois.

Ademar
14.08.2008

agosto 13, 2008

Improviso para diário de bordo...

Arrumar a casa
o corpo
o pensamento
ou desarrumar tudo de vez
antes de partir
arrumar a compaixão
e o medo
e não voltar atrás
não olhar sequer para trás
arrumar o arrependimento
e a culpa
e a memória de outras viagens
arrumar a saudade
deste lugar a que já não pertenço
e o desejo
e as palavras derrotadas
antes de partir
não voltarei aqui
senão para te dizer
que voei por outras vidas.

Ademar
13.08.2008

agosto 12, 2008

Improviso para sobrevoar o tempo...

Tantas vezes dissemos perfeição
que nos metemos dentro dela
e agora já não sabemos sair
que faremos com as noites que faltam?
a que destino cortaremos a cabeça
na manhã em que finalmente nos celebremos?
todas as lágrimas parecem levitar
quando as marés rebentam nos teus olhos.

Ademar
12.08.2008

agosto 11, 2008

Improviso húmido...

Escalar-te pela vertente das noites
quando nenhuma voz te desperta
mais intensamente
e ouvir a respiração do silêncio
no desejo que parece rasgar ainda mais fundo
o pensamento
beber-te devagar
gota a gota
entre a foz e a nascente
de todos os rios interiores
e dizer-te sempre a sede
na nudez dos lábios que não adormecem.

Ademar
11.08.2008

agosto 10, 2008

Improviso para inventar outra cidade...

Fosse eu o deus de turno
e inventaria uma cidade à medida do pensamento
sem gólgotas onde todas as noites nos deixássemos crucificar
uma cidade que não fosse
um labirinto de esconderijos
mas uma teia de bairros seguros e acolhedores
com ruas de poemas
em vez de heróis
e tocadores de harpa ou acordeão
em cada esquina
pedindo apenas um sorriso
nessa cidade
não trocarias de nome
nem de identidade
amarias apenas como és.

Ademar
10.08.2008

agosto 09, 2008

Improviso para regressarmos a Veneza...

vaporetto.jpg

Não empurres as ondas com o olhar
não perturbes ainda mais o seu embalo
faz-me companhia na proa do vaporetto
acordar-te-ei apenas no instante preciso de acostarmos
essa azáfama de barcos e de vidas
essa teia de memórias de tantas descobertas
o cais que nos espera os canais
e as águas tão sujas
antes de nos lavarmos delas
tens a pele tão branca
quando a lua começa a confundir-se com o teu corpo
que adormece nas minhas mãos.

Ademar
09.08.2008

agosto 08, 2008

Improviso para explicar por que não há poemas, nem amantes perfeitos...

Se eu tivesse mais vidas para dispor
disporia desta
como se fosse apenas a primeira
e tu indefesa me esperasses no regresso
de todas as viagens que não chegarei a fazer
já não tenho cama em que te deite
mas apenas altares ou proas de fantásticas embarcações
chegando e partindo
e esta é a vida sabes? a única vida
em que ousaria adorar-te
não há poemas nem amantes perfeitos
e só tu aliás os reconhecerias.

Ademar
08.08.2008

agosto 07, 2008

Improviso na forma de natureza viva...

Se não levantares o olhar
verás apenas o que se eleva dos pés e pouco mais
corpos e movimentos que não reconheces
vidas que não cabem sequer na tua história
talvez quem se aproxime
venha ainda mais devagar
do que tu própria desejaste
o mar sugere preguiças e adormecimentos
não fotografes agora as ondas nem os barcos
fecha as narinas
ao perfume do vento
e concentra-te apenas nos rumores
que te atravessam.

Ademar
07.08.2008

Improviso para regressar a Álvaro de Campos...

Em todas as batalhas há um momento
em que a guerra se perde ou se ganha
em todas as batalhas
e em todas as causas
falo de nenhuma realidade ou certeza
mas apenas de um momento perceptivo
esse exacto momento por exemplo
em que te olhas ao espelho
e sorris.

Ademar
06.08.2008

agosto 05, 2008

Improviso para guardar no Guadalquivir...

Passo sempre ao largo da mesquita de Córdoba
e não entro
porque ainda não me convidaste a entrar
preferes antes o recolhimento sombrio da Sinagoga
e eu acompanho-te sempre
outras vezes fugimos para Medina Zahara
ou fingimos apenas que fugimos para lá
sim há excesso de flamenco e de turistas
nas bordas da mesquita
e tu gostas de amar em privado
não consegues (são palavras tuas)
partilhar o que desejas
Córdoba como cada um de nós
intimidade impartilhável.

Ademar
05.08.2008

agosto 04, 2008

Improviso quase geográfico...

Já não há lugar nas nuvens
para quem simplesmente arrenda horizontes
dos condomínios fechados do desejo
abrem portas e janelas sobre todas as ruas
e lugares ermos
e nenhuma noite cabe já
no mapa de incertezas do nosso olhar
há um bairro íntimo em que nos procuramos
passos que ouvimos muito longe de nós
e cada vez mais perto
e vozes que até levitam no silêncio
antes de ajoelharem.

Ademar
04.08.2008

agosto 03, 2008

Improviso para explicar apenas a perfeição do desejo...

Se vivêssemos apenas
no pensamento uns dos outros
seríamos todos felizes
e até sobraria espaço nas entrelinhas de nós
para a indispensável infelicidade
não há vestígio de imperfeição
no pensamento que nos acolhe
nem sombra de materialidade
ausência ou sofrimento
todas as vozes nos abraçam
quando cantam
todos as noites prometem amanhãs
ainda mais primaveris
todas as palavras estão no lugar certo
da sintaxe da alma
e nenhuma verdade
requer mais explicações
o pensamento nunca nos distingue
começas sempre onde termino
e terminas sempre onde começo.

Ademar
03.08.2008

agosto 02, 2008

Improviso entre vírgulas...

Desaprendi de ler futuros
quando suspendi o tempo
(espero que entendas)
na projecção retroactiva da memória
não importa agora de que passado venhas
não reconhecerei a vibração dos passos
nem dos silêncios
terei de reaprender tudo
na fonte dos segredos
e dos gestos impossíveis.

Ademar
02.08.2008

agosto 01, 2008

Improviso para explicar ao ouvido...

De todos os segredos incontáveis
que esse seja o primeiro
definitivo ou não
uma casa com portas
abrindo apenas para fora
e uma luxúria de frestas e janelas
entre nós.

Ademar
01.08.2008

julho 31, 2008

Improviso para distrair Marrakech...

Há um paraíso a que os anjos ainda não chegaram
algures na planície a caminho do Atlas
uma constelação de areias e fogos naturais
todos os cenários que fizeram Casablanca
já não há cidades sagradas nem balcões
que debrucem ingenuamente do teu olhar
e Dooley Wilson já não trabalha aqui
agora sou que me ocupo das teclas
e digo poemas em vez de cantar
estas são as mãos em que repousas
sirvo-me ainda delas.

Ademar
31.07.2008

julho 30, 2008

Improviso na forma de reportagem...

Contaram-me que tudo se passou assim
no check-in
(não importa em que aeroporto)
perguntaram-te se viajavas só
ou acompanhada
num primeiro momento hesitaste
parecendo não entender a pergunta
depois abriste simplesmente a mão
e num lento sorriso levaste-a ao peito
indicando o sentido do coração
quem não entenderia o silêncio
nas tuas palavras?

Ademar
30.07.2008

julho 29, 2008

Improviso para dueto de cordas...

As ondas soltas da harpa
sobre o Mediterrâneo de todos os sóis e de todas as luas
e rosas vermelhas no colo
diante da porta que abres com os olhos
rosas ou cordas
oferecidas à sofreguidão de duas mãos
nenhuma harpa
tem mais antiguidade do que o mar
que te enche
ou mais profundidade.

Ademar
28.07.2008

julho 28, 2008

Improviso para chegar a Goa...

Pétalas
não importa de que cor
nem os olhos
sei apenas como sorris
e te entrelaças nas palavras
e como os cabelos se confundem
nas minhas mãos
enquanto danças
todas as máscaras que nos viajam
a túnica molhada
os pés ainda mais altos
e finalmente a nudez
a muitos quilómetros de altitude
e ainda sobre as asas
o desejo e a paixão
vestindo-nos.

Ademar
28.07.2008

julho 27, 2008

Improviso como tela...

Mel ou água
ou azeite de Pandava
o teu néctar escorre agora lentamente
sobre os lábios de Shiva
o enfeitiçador de serpentes
e o teu corpo
parece não ter fim de matéria
quando arde
nas cinzas que queimam ainda
a boca de Shiva
o enfeitiçador de serpentes
luas que crescem como brincos
entre os teus cabelos
e o Ganges que parece finalmente
suster a respiração
apenas para ouvir no silêncio
o rumor das tuas braçadas.

Ademar
27.07.2008

julho 26, 2008

Improviso para maravilhar...

taj33.jpg

Debrua de rosas brancas o sari
seja o teu corpo
essa “lágrima suspensa no queixo do tempo”
e não caibas como os amantes de mármore
em nenhum túmulo vazio
deixa-me em silêncio cheirar-te as mãos
entranhadas do mistério de Taj Mahal
línguas de fogo
odores que triunfam destinos.

Ademar
26.07.2008

julho 25, 2008

Improviso quase erótico...

E foi então que falaste
da banalidade do rosto
como se a luz que o projectasse
não fosse o próprio olhar iluminador
e como se nessa luz
ainda coubessem enganos e desilusões
que nenhuma poética depurasse
e foi então que falaste também
do sofrimento da tela em branco
diante da sofreguidão do pintor
surpresas e mistérios
que só a voz desvenda
quando a alma antes do corpo
se despe.

Ademar
25.07.2008

julho 24, 2008

Improviso para encomenda...

As palavras podem ter o feitiço
de suspender a memória
na fronteira exacta das lágrimas
os pensamentos felizes não choram
asseguram-se a eternidade.

Ademar
24.07.2008

Improviso à espera que passe a trovoada...

Estás sentado ao balcão do universo
e ainda não tomaste a decisão
apetece-te um whisky
ou uma voz simplesmente que te peça um poema
para adormecer na mesa mais próxima
tentas adivinhar à distância o rosto da lua
mas a trovoada lá fora distrai-te o pensamento
e só lhe vês os pés as pernas e pouco mais
entram pessoas molhadas
que se entendem numa língua que não entendes
percebes vagamente os nomes que se dizem
nomes que te transportam a outras vidas
a outros lugares
começam por todas as letras do abecedário
e terminam na memória do teu corpo
ao balcão do universo ninguém te serve
teces apenas palavras e esperas.

Ademar
24.07.2008

julho 23, 2008

Improviso para servir de leito...

Cura-me do silêncio da noite
ainda que a nossa amizade
não passe de um lugar
em forma de cais
com todo o mar por cima
ou por baixo
já não há estradas que nos conduzam
a outros silêncios
a outras noites
somos agora um concerto de grilos
e só nos reconhecemos nas vozes
dos grilos
que cantam por nós
há um instante na memória
em que exactamente trocámos Pessoa
como se nenhum outro poeta
pudesse ser convocado
ao ménage à trois
talvez a poesia seja
a cama em que despertamos.

Ademar
23.07.2008

julho 22, 2008

Improviso para ferir a noite...

Nesta valsa de máscaras
há homens que se fazem passar por mulheres
e mulheres que dançam com outras mulheres
o território íntimo desta geometria
não tem fronteiras certas nem destinos
só personagens
à procura de um enredo
como numa peça de Pirandello
aceita agora o medo que te ofereço
e acaricia-o
para que adormeça.

Ademar
22.07.2008

Improviso para repudiar a incerteza...

São sempre as mesmas imagens
que me visitam
quando te abro a porta
e nada me parece completo
na hora de partires
ou de nunca chegares
nenhuma impossibilidade é tão instável
como o silêncio a que me prendes
nenhum muro tão invisível
já te disse que a porta abre apenas
para dentro
e não tem aldraba
e a lua adormece algemada
na cama do quarto dos hóspedes
como se ainda fosses tu
que em segredo me visitasses.

Ademar
22.07.2008

julho 21, 2008

Improviso sobre "Dance me to the end of love"...

Nunca ninguém me tratou assim
por meu caro poeta
não sabia que era tão notória
a deficiência
e nunca ninguém se escondeu
atrás de um biombo
para mo dizer
foste a primeira
e só poderei agradecer-te por isso
mas não me convenci logo
de que fosses mulher
há máscaras que não tem gênero
almas sem corpo
olhos sem mãos
pés sem braços
talvez no terraço de um hotel sobre o Tejo
respirasses ainda mais intensamente
e nenhum poema fosse definitivo
na hora de adormeceres
o sexo pode ser
o que deixaremos sempre para amanhã
hoje ainda sobra vontade para dançar
entre as palavras
e talvez choremos.

Ademar
21.07.2008

julho 20, 2008

Improviso para iludir o horizonte...

Por vezes sou
uma estranheza de ventos
nas palavras que
me conduzem ao alto-mar
de mim próprio
por vezes
não caibo sequer no cais
donde nunca parto
tenho excesso de luas
nos braços que me pesam
ondas insólitas
no lugar das palavras
a minha alma transpira
como se fosse ainda
o prolongamento das mãos
e por elas
apenas por elas
desconhecidamente
te desejasse.

Ademar
20.07.2008

julho 19, 2008

Improviso para contar margaridas...

No princípio de tudo
é o que não existe
antes mesmo do silêncio
antes mesmo da ausência
antes mesmo do pensamento
ou do desejo
o que não existe
é a vida que será ou não
se algum dia for ou deixar de ter sido
há mais beleza
nos pontos de interrogação
que interrogam o que ainda não existe
o universo ele mesmo já foi uma inexistência
e hoje
é tudo aquilo que parece
uma imensidão que nem as palavras
alcançam
algo maior
muito maior
do que o próprio infinito
ou a noção que temos dele
o que não existe
não tem curso na corrente das emoções
porque nem sequer o podemos projectar
se fosse projectável
seria como os sonhos ou as utopias
teria um corpo no horizonte das ideias
um corpo talvez visionário
mas ainda um corpo realidade interrogável
tudo o que convida à expectativa
já existe
mas eu falo aqui do que não existe
e não sei
porque não existe
como dizê-lo
fosse eu capaz de te dar um nome
e já serias real
mesmo que o teu corpo não passasse
de uma constelação de margaridas.

Ademar
19.07.2008


julho 18, 2008

Improviso para viajar...

Destreinei-me de perguntar
perdi o hábito e a destreza do punhal
agora só poderei dizer-te
que nasces
onde te esperam
e esse será o nosso milagre
uma longa e demorada viagem
entre mistérios
que lentamente se despem.

Ademar
18.07.2008

julho 17, 2008

Improviso como enigma...

Talvez essa foto não fosse
verdadeira
as imagens perfeitas
contêm sempre alguma trama de imperfeição
talvez nem mesmo a voz
fosse verdadeira
nem a noite
nem o poema
talvez a verdade
fosse ainda mais ínfima
do que a urgência de coisa nenhuma
as auto-estradas nunca terminam
na última portagem
e há sempre mais cidades
depois de nós.

Ademar
17.07.2008

julho 16, 2008

Improviso ainda mais desconcertante...

As máscaras não dormem
e falam por vozes
que nunca chegam a adormecer-te
talvez o desejo reclame
feitiços ainda mais exactos
ou o fogo da poesia
em que enregeles.

Ademar
16.07.2008


julho 15, 2008

Improviso para mapa de despojos...

Na rua dos cães abandonados
nem todas as mulheres
cheiram a mulher
ou vestem de mulher
há esquinas e campos e casas
que não fazem parte de história alguma
e mulheres
muitas mulheres
que morderam solitariamente
o isco da rua.

Ademar
15.07.2008

julho 14, 2008

Improviso na forma de pedido...

Convém que não digas a ninguém
que morri
recolhe antes os filmes
e os poemas que não cheguei a escrever
e limpa o disco duro
pelo menos do portátil
se te perguntarem de que morri
responde poeticamente
que me cansara de abrir e fechar
gavetas vazias
ninguém entenderá
mas os segredos não são para contar.

Ademar
14.07.2008

julho 13, 2008

Improviso para aniversário...

Sim podes dizê-lo
os anos passam e só
as circunstâncias mudam
imagens aparências caixilhos
os olhos que já não calçam
os chinelos que foram da moda
as palavras mais antigas
do que as mãos que as tocam
canso-me agora
muito mais depressa
a não ser que levite
ou rasteje sobre corpos inanimados
já não distingo as fotografias
pela data
nem os cenários
volto sempre ao princípio de tudo
ao princípio de mim
para não me esquecer.

Ademar
13.07.2008

julho 12, 2008

Improviso para atiçar o vento...

O relevo
sobressai as evidências
o chão
engole todas as sombras
os gestos incompletos
e a noite contrai na ausência
a respiração do vento.

Ademar
12.07.2008


julho 11, 2008

Improviso como contemplação e discernimento...

Meia lua
sobre os cavalos enfim adormecidos
o verde agora
já não se distingue na paleta da noite
e há memórias que o cigarro queima
e há saudades e silêncios que ardem
no lugar mais oculto do coração
impões-me todos os dias o esquecimento
para que eu me lembre.

Ademar
11.07.2008

julho 10, 2008

Improviso sobre uma espécie de renúncia...

Há vozes que prometem lâminas
mulheres feridas rasgadas de dentro para fora
violoncelos voláteis
ancoradouros para sempre esquecidos da condição de cais
há estátuas jacentes em lágrimas de calcário
máscaras anteriores ao próprio olhar
e à persona
um turbilhão de silêncios
e de segredos
e uma sabedoria impenetrável
uma história impenetrável
átrio cada vez mais sombrio
sobre o qual não se abre já
nenhuma janela.

Ademar
10.07.2008

julho 09, 2008

Improviso para legenda dos dias desertos...

Nenhuma fantasia
suporta a ausência que a sustém
és mais inteira ainda
do que a sombra
que te precede
há gritos que só estão ao alcance
da tua voz
e há movimentos
que têm exactamente a forma das tuas pernas
e dos teus braços
quando desaguam no pensamento.

Ademar
09.07.2008

julho 08, 2008

Improviso quase epistemológico...

Não é apenas o planeta
senhora
que gira sobre si próprio
para cumprir o destino incerto dos dias
nós giramos com ele
e com ele voltamos sempre ao princípio
de tudo
e de nada
o movimento é apenas uma ilusão cosmológica.

Ademar
08.07.2008

julho 07, 2008

Improviso para enunciado...

O desespero tem entranhas por dentro
não tem palavras
com palavras
não se faz o desespero
mas a poesia.

Ademar
07.07.2008

Improviso ao jeito de Mário-Henrique Leiria...

Está provado e comprovado que
só há nove pessoas que sabem
como se resolve o problema
é verdade que são muitas mais
as que julgam que sabem como se resolve o problema
mas um júri olímpico
constituído por deuses de condição indeclinável
concluiu fora de qualquer dúvida razoável
ainda que divina
que são nove apenas nove
as pessoas que efectivamente sabem como o problema se resolve
quatro já desapareceram
e não deixaram obra publicada
duas outras já tentaram
e não conseguiram
as restantes não cabem no inventário
uma
porque não quer ser identificada
outra
porque entretanto enlouqueceu
e a terceira finalmente
porque finge ignorar que sabe
como se resolve o problema
e não aceita ser mobilizada para a patriótica missão
de salvar o país
espera-se a qualquer instante
o despacho final de arquivamento
do supremo juiz de turno.

Ademar
07.07.2008

julho 06, 2008

Improviso a desoras...

Hoje
na viagem de regresso
perdeste o sentido da lua
e eu já não fiquei no cais
a perguntar-me se seria
a última vez
alguém trocou os mapas
ou os horizontes
e é preciso começar tudo
de novo
nenhuma noite é eterna
e a morte pode esperar.

Ademar
06.07.2008

julho 05, 2008

Improviso em forma de anotação...

Há perguntas que são quase tão inúteis
ou redundantes como o tempo que faz lá fora ou cá dentro
a resposta está nos olhos
e nas pausas a que o silêncio obedece
estou bem claro
se estivesse mal
também responderia que estou bem
e morto
continuaria ainda a responder
ouvi há pouco aliás umas tretas sobre a imortalidade
parece que não tardará
mas hoje doeu-me o estômago
ou terá sido a alma no lugar dele
será cancro? será gente?
cancro não é com certeza
diria o Gil
e a gente nem sempre dói assim
o Henrique disse
que estava muito cansado e pôs-se com o sol
mas ainda não adormeceu
a propósito de trilhos poéticos
perguntaram-me se apreciava Torga
devo ter mentido
o Francisco quis terminar o Borat
e eu aproveitei para arrumar de vez
O Conto dos Crisântemos Tardios
fomos três ao jantar
e ninguém te serviu.

Ademar
05.07.2008

julho 04, 2008

Improviso para tentar significar que ainda há sonhos gratuitos...

De vez em quando
há quem peça refúgio às minhas palavras
quem se abrigue e recolha nelas
se dependesse apenas de mim
as minhas palavras seriam de toda a gente
como a água ou o fogo
ou o oxigénio de todas as manhãs.

Ademar
04.07.2008

julho 03, 2008

Improviso para dizeres ao balcão...

Não sabes para que serve Piazzolla
quando o copo está vazio
e ninguém se oferece
para te encher a alma
não sabes para que serve a morte
naqueles instantes em que só te apetece mesmo
suspender a vida
e retomá-la depois do pesadelo
ou do cansaço
não sabes para que serve o corpo
quando o corpo é uma casa deserta
e a noite cai sobre ele
e não cai mais nada
não sabes para que servem as palavras
quando apenas queres falar com o silêncio
e nem já o silêncio te responde.

Ademar
03.07.2008

julho 02, 2008

Improviso para Ingrid Betancourt, finalmente resgatada...

ing.jpg

Conta-se que o povo de Romorantin
naquela manhã
saiu todo à rua para ouvir Sidarta
na voz talvez daquela mulher que gritava
piedade!
diante das escadas que a elevariam ao cadafalso
perguntaram ao iluminado
como é da lenda
se era deus ou o diabo
e ele respondeu a todas as perguntas
que não
nem homem disse
estava apenas acordado
mas o povo de Romorantin já não o ouviu
porque a mulher entretanto deixara de gritar
foi a última vez naquela praça
que o silvo da lâmina se sobrepôs
à verdade ou à mentira de um profeta
nenhum cativeiro tem fim
quando apenas o povo o mantém.

Ademar
02.07.2008

julho 01, 2008

Improviso para violino e bandoneon...

Chama-me apenas
quando tiveres escolhido
a última ária
o último poema
quando a morte já tiver adormecido
nos braços e nas mãos
o silêncio
e a noite finalmente
por inteiro
possa pertencer-nos
nem só os olhos abrem janelas
quando as pontes renunciam à luz.

Ademar
01.07.2008

junho 30, 2008

Improviso para partitura...

Se ainda quiséssemos namorar
não faltariam para as mãos
encostas nem contrabaixos
é uma arte para iniciados
entre o montanhismo e o jazz
bastam dois olhos e dois ouvidos
e cordas que prendam.

Ademar
30.06.2008

junho 29, 2008

Improviso sitiado...

Não preciso de consultar nenhum mapa
para saber como se sai desta cidade
todas as ruas têm uma marca no meu corpo
uma tatuagem invisível
mas não há caminho para fora de mim
esta vida de espera é um vicio
não sei partir
não sei tão pouco como se parte
vejo apenas os barcos chegar
e chego sempre com eles.

Ademar
29.06.2008

junho 28, 2008

Improviso indisposto...

Ninguém ensina a viver
a vida nunca se aprende
vive-se e morre-se
simplesmente
talvez tenham reprovado mesmo em todos os exames
mas foram pais e mães
e governaram o mundo
não foram à escola da vida
porque a vida
é uma vertigem de programas
mas aprenderam tudo de ouvido
decoraram frases
para fingir apenas que sabiam
e com elas
governaram o mundo
os génios da vida morrem incógnitos
no palco da glória efémera só cabem
os castrados os falhados os bandidos e os patetas
lede os jornais e as revistas
espreitai as televisões
estão lá todos
os vossos heróis.

Ademar
28.06.2008

junho 27, 2008

Improviso quase visionário...

Eu sei que o impossível muitas vezes
pede apenas um olhar diferente
mas não tenho olhos
para todos os ângulos da vida
não esperes por isso
que eu seja capaz de ver tudo
ou dizer que vi ou percebi
há imagens simplesmente que não cabem
nos limites do pensamento que me imponho
imagens que não vejo
porque não me pertencem
ou porque não me merecem.

Ademar
27.06.2008

junho 26, 2008

Improviso para descantar os amanhãs que choram...

Há quem aspire a ver ainda
o dia prometido
entre os raios de uma bruma qualquer
a ambliopia da alma
nunca acerta a visão
ou a fé.

Ademar
26.06.2008

junho 25, 2008

Improviso como explicação...

Perguntas-me por que escrevo sempre
poemas tão curtos
como se as palavras me queimassem nas mãos
se te dissesse a verdade
se tivesse ao menos uma verdade
para te dizer
talvez não acreditasses
as palavras pesam-me sempre mais
do que o fogo.

Ademar
25.06.2008

junho 24, 2008

Improviso para confortar o bacalhau à gomes de sá...

Desaprendi a técnica de perguntar
ou a vontade de chegar mais depressa à desilusão
os mapas não escolhem os caminhos
tenho os passos trocados
entre todos os desertos e nenhum oásis.

Ademar
24.06.2008


junho 23, 2008

Improviso na berma da estrada...

Nenhum pássaro azul sorri agora
à porta dos meus olhos
só tenho jaulas
do pensamento para dentro
e ainda não me ensinaste a libertar-te
nenhuma prisão tem a forma
da tua ausência
e não há verbo
que me consentisses
conjugar no futuro.

Ademar
23.06.2008

Improviso sobre uma tela de Ticiano...

salo.jpg

Hoje sairão todos à rua
com Salomé
para jogar uma vez mais
a cabeça de João Baptista
mas depois da orgia
ninguém lavará as mãos
no Jordão
todos os rios secam
na origem dos mitos.

Ademar
23.06.2008

junho 22, 2008

Improviso para afugentar o caos...

Nunca sei se o próximo verso será o último
a viagem nas palavras tem esse único aliciante
nada se alterará depois
mas arrisca-se sempre a vida
a vida toda
no suicídio de cada poema
sei apenas que morrerei entre palavras.

Ademar
22.06.2008

junho 21, 2008

Improviso para dizer por que não parto...

Quando limpo o futuro da memória
atenho-me velozmente à vontade de brincar
há muitas crianças em mim
que esperam apenas a trombeta do sol
para desarramar
as palavras formam na noite
tapetes de flores
e todas têm na pele
a marca vagabunda dos meus pés
uma tatuagem feita
de viagens que não saíram do cais.

Ademar
21.06.2008

junho 20, 2008

Improviso enleante...

Nenhuma cidade termina
no bairro onde fomos felizes
a felicidade sofre da ambiguidade dos mapas
e não tem cama nem memória certa
em que repouse
uma praça ou uma rua
ou a avenida inteira
já estivemos lá
e prometemo-nos voltar
não importa o nome da cidade
e talvez o bairro não caiba em nenhuma
mas foi lá exactamente lá
que fomos felizes.

Ademar
20.06.2008

junho 19, 2008

Improviso para soluçar o hino...

Eles correm atrás de uma bola
e a bola corre atrás de um país
que tropeça na relva e cai
na glória fácil
eram todos heróis do mar
mas nas sete partidas do mundo
nunca foram além do cais
o excesso de luz embriaga
os tímidos.

Ademar
19.06.2008

junho 18, 2008

Improviso quase pedagógico...

Hoje as conversas são menos espessas
do que na antiguidade clássica
quando todos respeitavam
a vez de cada um falar
principalmente os escravos e os mudos
os discípulos as crianças e as mulheres
hoje até consigo conversar ao mesmo tempo
com todos os deuses do olimpo
mais o diabo de serviço a todos eles
a internet foi uma grande descoberta
contra a obesidade das falas
e dos falos
hoje
(dizem-me as pitonisas)
ninguém exibe os tomates
como antes.

Ademar
18.06.2008

junho 17, 2008

Improviso para antecipar o descanso...

E um dia
não terei mais palavras para dizer ou escrever
as palavras também esgotam na fonte
como tudo o que morre ou seca
sempre tive a certeza
de que só teria férias de mim
no silêncio.

Ademar
17.06.2008

junho 16, 2008

Improviso para natureza quase morta...

De costas
todos os machos parecem
muito menos imperfeitos
aprendi nos olhares impudicos
(os livros pecam por omissão)
que não há rabo
que as mulheres não cobicem.

Ademar
16.06.2008

junho 15, 2008

Improviso suspenso de uma nota...

Se eu pudesse chegar a vida atrás
como nos filmes
e não tivesse passado já
o carro do lixo
se tudo fosse ainda reconstruível
ou reciclável
como antes do big bang
e se as palavras não pesassem sempre tanto
sobre a memória
atrofiando-a
nenhum fruto apodrecesse nas mãos
e todos os prazos do olhar
fossem eternos
e também as flores
e o sangue que corre delas
e ainda me tocasses
na quinta corda do violino que fui
no teu arco.

Ademar
15.06.2008

junho 14, 2008

Improviso para fazer o download do dia...

Tudo bem
a vida hoje correu ao largo
não consegui os mínimos para Pequim
mas também não traí a verdade desportiva
bebi do mesmo sangue de ontem
e do mesmo vinho
e comi à mesa de todas as ilusões
servindo-me das sobras do destino
não fui à praia
nem à montanha
passeei apenas no pântano
e devo ter sido feliz
pelo menos
não me lembro de ter pensado
que amanhã poderá ser diferente.

Ademar
14.06.2008

Improviso só para chatear os europarvos...

Quando os rebanhos mandam à merda
os putativos pastores
a vida e a história
têm muito mais encanto
e o oxigénio até parece finalmente sobrar
para todos.

Ademar
14.06.2008

junho 13, 2008

Improviso em forma de post-it...

Essas botas não são para descalçar
senhora
forram o desejo
até ao mais íntimo da pele
e a memória
de todas as mãos
que ajoelharam por elas
também as minhas
senhora
também as minhas.

Ademar
13.06.2008

junho 12, 2008

Improviso sob a inspiração de Cole Porter...

Ninguém sabe como morro
todas as noites
quando o pensamento me foge
e não consigo mais agarrá-lo
ninguém sabe como as mãos
se misturam nas palavras e nos sons
e como trabalham diligentemente
a matéria sempre fátua da ausência
ninguém sabe como me divirto
desejando o indesejável
e morrendo assim
ou ainda vivendo.

Ademar
12.06.2008

junho 11, 2008

Improviso para me interrogar...

A surpresa tem corpo e forma
de réptil
distraio os pés
e sinto logo o pântano
no interior da terra que me grita
todos os dias acrescentam indecisão
à nenhuma sabedoria do destino
em que tropeço
não sei se viva
ou se escreva
já fui menos incompatível.

Ademar
11.06.2008

junho 10, 2008

Improviso junto ao cais...

Na fronteira das lágrimas
a mais próxima do medo
não me perdi das tuas mãos
nem as tuas mãos me perderam
que sempre a água tece
o que a terra decompõe.

Ademar
10.06.2008

junho 09, 2008

Improviso intemporal...

Nenhuma árvore resume
os benefícios da civilização
nem o plátano de Handel
em ombra ma fù
não há voz que nos agarre
quando falha o tronco ou a imortalidade
e tudo no pensamento parece perfeito
o arco-íris súbito nas cores do horizonte
e as mãos que prolongam ainda a avidez
nas palavras que comem a noite
nenhum poema honesto
dir-te-á menos do que isto.

Ademar
09.06.2008

junho 08, 2008

Improviso para explicar Alberto Pimenta aos indígenas...

A existência da maior parte dos filhos da puta
prova apenas
que o verdadeiro problema
não está nas putas
nem necessariamente na descendência delas
tenho mesmo por amplamente demonstrado
que todas as mulheres são respeitáveis
mesmo quando se deixam emprenhar
pelos pais dos filhos da puta
a investigação académica concluiu
(e as universidades
sabem muito bem do que falam)
que o problema dos filhos da puta
não está nas putas
mas a montante delas
ou seja
nos espermatozóides
que carimbam sempre o destino da descendência.

Ademar
08.06.2008

junho 07, 2008

Improviso contrastante...

O ópio tem a forma de uma lua
que não dorme
a alegria é pouca coisa
uma rua que ainda grita
na noite suspensa
dos títulos da insónia.

Ademar
07.06.2008

junho 06, 2008

Improviso no pretérito mais-do-que-imperfeito...

Há noites em que me pesa ainda mais
a memória das palavras
e fico enredado nelas
como numa espécie de novelo de mim
sigo então a pista do último gato
que molhou as patas no sangue
dos meus dedos feridos
e ponho-me novamente à escuta do universo
atrás do silêncio.

Ademar
06.06.2008

junho 05, 2008

Improviso para convocar Hervé Pierra...

Em sete dias se cria o universo
e em seis apenas se morre
Hervé
os teus olhos ainda abertos
rasgarão o futuro
e talvez sonhes ainda sonhes
humanidades paliativas.

Ademar
05.06.2008

hervep.jpg

junho 04, 2008

Improviso humilíssimo...

Quase tudo se depura
na experiência da dúvida
o adjectivo
o advérbio
a frase
a pontuação
o pensamento
até o corpo
até as mãos
até o olhar
até a memória
até a saudade
a sabedoria emagrece-nos
de convicções e de certezas
e de paixões
mas nenhuma autoridade
tomará o lugar
da única e exacta circunstância em que cabemos
desde a origem
a nossa própria verdade.

Ademar
04.06.2008

junho 03, 2008

Improviso irlandês...

Há palavras que sofrem a ironia
senhora
talvez por excesso de delicadeza
à flor do étimo
palavras frágeis indefesas
e que nunca viram a cara
em nenhuma taberna
a nenhuma ofensa
como se todas as agressões
fossem cordas de uma harpa andarilha
que o último bardo irlandês
tivesse abandonado na soleira da porta
do poema que não chegou a abrir.

Ademar
03.06.2008

junho 02, 2008

Improviso sobre "A Invenção do Dia Claro", de Almada Negreiros...

Entrei hoje contigo Almada na livraria
e pus-me também a contar os livros
que há para ler
e os anos que terei de vida
claro que tinhas razão Mestre
os anos não chegam
nem para metade da livraria
deve certamente haver outras maneiras
de a gente se salvar
senão estamos fodidos
muito mal fodidos
tu não escreveste assim naturalmente
porque no tempo em que frequentavas livrarias
ainda não se tinham inventado os advérbios de modo
de foder
os melhores leitores perdiam-se sempre
no exercicio solitário da luxúria
no entanto
partilho ainda o teu olhar
as pessoas que entravam connosco na livraria
estavam todas muito bem vestidas
de quem precisa salvar-se
e aspiravam simplesmente a encontrar
uma vida um livro que pudessem imitar
eles também não sabiam
que quando nascemos
as frases que hão-de salvar a humanidade
já estavam todas escritas
só faltava mesmo uma coisa
salvar a humanidade
e perdermo-nos com ela.

Ademar
02.06.2008

junho 01, 2008

Improviso para desconversar...

Jogaria às cerejas senhora
se o prémio fosse o próprio bolo
e não apenas a bandeira
ou o caroço no topo dele
já não tenho olhos
para notas de rodapé
e fetiches
não compro nos saldos
nem peço de empréstimo a Paulo Coelho
alfaiate de meninas.

Ademar
01.06.2008

maio 31, 2008

Improviso cansado...

Sim
há quem prefira as linhas rectas
e a poesia a metro
bem rimada
como a vida
mas eu tenho um problema embrionário
de percepção
perco-me sempre em todas as esquinas
e nunca me encontro com a utilidade
em cidade alguma
sinto-me pois inútil
imprestável
redundante
já não tenho a idade certa
nem os vícios
nem o corpo
e as palavras distraem-me
da missão de salvar o mundo
que me mata
há trabalho a mais
para tão poucas mãos
e eu miseravelmente
só tenho duas.

Ademar
31.05.2008

maio 30, 2008

Improviso para saudar Leonardo...

Hoje
entre musas dissonantes
encontrei mais uma vez Leonardo
no bar do Chelsea Hotel
diante de um copo de cicuta
que me pareceu finalmente genuína
os sapatos lustrados
por sobre um poema
que ardia
nenhuma valsa
e um tango oblíquo.

Ademar
30.05.2008

maio 29, 2008

Improviso na forma quase de romance...

Mesmo quando não saía de casa
vestia-se todos os dias para morrer
nunca se negando uma última nudez
no espelho íntimo da eternidade
ela sabia de todas as ciências do corpo
que na alcova do diabo
nenhuma mulher pertence à condição incerta
dos anjos.

Ademar
29.05.2008

maio 28, 2008

Improviso para Sísifo...

Nenhum gesto é perfeito
com a lua dentro
quando a noite adormece
de mentiras
nenhuma palavra está preparada
para fechar o poema
a memória pede sempre um novo dia
ou um trabalho irrealizável.

Ademar
28.05.2008

maio 27, 2008

Improviso para romance e muitas cordas...

Por mais que as palavras pudessem
combinar infinitamente
ela sabia que teriam fim
todos os poetas um dia
regressariam ao mote inicial
foi então que ela decidiu criar
um dialecto
para dizer a si própria
o que mais ninguém seria capaz
de entender.

Ademar
27.05.2008

maio 26, 2008

Improviso para distrair da actualidade...

Talvez o mais difícil
não seja mesmo chegar a marte
mas sair de marte
pelo menos com vontade
de voltar a aterrar
as vantagens comparativas de marte
vêm descritas em todos os tratados
de ecologia política
e crítica literária
destaco a principal
para fechar o poema
a impossibilidade da prática da escalada.

Ademar
26.05.2008

maio 25, 2008

Improviso para contracapa de almanaque...

Nunca fui capaz de comprar a felicidade
senão a retalho
nas lojas de conveniência
e pagando à vista
digo a pronto
ainda hoje ignoro
por que está sempre em saldo
e não se vende a prestações.

Ademar
25.05.2008

maio 24, 2008

Improviso para confortar a noite...

Nunca sei se esperas apenas
palavras silenciosas
ou a vaga incerteza de um rumor de ausências
sei que te fechas sempre por dentro
apagas a luz
e escondes a chave de ti própria
eu continuo sentado do lado de fora
à espera talvez que abras a porta
ou acendas a luz
e me espreites pela fechadura.

Ademar
24.05.2008

maio 23, 2008

Improviso entre punhais...

Já dei não sei quantas voltas
à terra
e ainda não encontrei o pólo maior
do sentido da tua gravidade
nesse eixo imaginário
que atravessa o silêncio e o pudor
entre todas as noites e todos os dias
encontro apenas espelhos
servindo punhais.

Ademar
23.05.2008

maio 22, 2008

Improviso para o Torcato...

Bendito o santo nome de deus em vão
e a mão do pilha-galinhas
que agarra o pescoço da noite e cozinha as miudezas
bendita a pátria
da rua de santo antónio das travessas
dos cónegos das putas e do resto
benditos os quintais da literatura incomestível
e os bilhares da mocidade portuguesa
diante do seminário maior
e o boi-ápis reitor de meninos
benditas as moçoilas do libertino
e os magalas farricocos
que embarcarão em triunfo para angola é nossa
e o mais do império deles
se soubesses o que custa mandar
terias obedecido toda a vida
benditos os astórias e as arcadas
o fado canalha e o testamento da gata e o enterro do senhor
e benditos os desvairados do ateneu
ali tão próximo
e os congregados de uma torre só
e o magistério primário
e as novenas da maria imaculada
que cheirou o incenso antes da coca
e bendito o cemitério de monte d’arcos
para a digestão eterna do bacalhau à narcisa.

Ademar
22.05.2008

maio 21, 2008

Improviso em forma quase de diário...

Nenhuma notícia traz o futuro dentro
amanhã distraidamente
abrirás o coração
a todos os ventos
como quem abre a porta de casa
a ninguém
e ainda vê multidões
esse culto do invisível
tem altares secretos e vazios
que só tu reconheces
nenhuma alma sobrevive
por muito tempo
ao exterior das suas próprias rotinas.

Ademar
21.05.2008

maio 20, 2008

Improviso para dizer de marinheiro...

Nunca percebeste por que tantas harpas
conspiram o mar
e por que tantas vozes o desafiam
digo-te apenas o que sei
o mar é o que sobra de mais distante
dos olhos que mendigam horizontes
toda a poesia cabe nele
e toda a literatura que não cabe na poesia
o mar tem um palco dentro
que cumpre dançar
depois da vida.

Ademar
20.05.2008

maio 19, 2008

Improviso atómico...

No parque das monções
nunca descures a orientação do vento
não me peças que explique
o sentido destes versos
nunca peças aliás o bilhete de identidade
ou o passaporte
à mulher ou ao homem que te bata à porta
numa noite de insónias
recorda-te sempre
que nada existe para fazer sentido
senão para os controladores do tráfego aéreo
e os moralistas
não mordas a língua quando beijes
o átomo do desejo
aponta a objectiva do telemóvel e fotografa-o
para o álbum da primavera
que não mostrarás a ninguém
digo-te
escreves de mais
ou
vives de menos.

Ademar
19.05.2008

maio 18, 2008

Improviso por débito da lua...

Esse barco já estranha
a superfície temperada das águas
e quase tranquila
como se as raízes do casco
já não fossem outras
que as dos próprios olhos que o navegam
esse barco dentro
tem um caudal íntimo de temores e pressentimentos
marés que não dormem.

Ademar
18.05.2008

maio 17, 2008

Improviso sobre raízes...

Envelheci as verdades
que me enjaularam
somei ignorâncias
em vez de varandas
ou janelas
agora tenho pontes nos olhos
suspensas sobre nenhuma margem
de mim
e o sol é uma árvore intocável
em que me arrefeço.

Ademar
17.05.2008

maio 16, 2008

Improviso para morrer cientificamente...

Um segundo antes
de asfixiar
ainda respirava e escrevia
entre a vida e o que sobra dela
a fronteira é um tempo imaginário
que nenhum cronómetro suspende
dois segundos apenas
e entre um e outro
exactamente
o ponteiro da eternidade.

Ademar
16.05.2008

maio 15, 2008

Improviso gregoriano...

Os meus deuses têm a profundidade de entendimento
de todas as crianças que se recusam a crescer
são deuses baratos
não fazem milagres
nem cobiçam rebanhos
os meus deuses odeiam altares e sacerdotes
e igrejas onde não ressoe o gregoriano
esse convite intemporal à luxúria
os meus deuses gostam de se tocar
e não se lhes embaraça o prazer nem o pudor
na estética ritual do swing
lêem Caeiro em vez de jornais ou revistas
e vício por vício preferem a pornografia à idolatria
os meus deuses serão tão absurdos
quanto os vossos
mas não têm pressa
porque sempre souberam
que morrerão comigo.

Ademar
15.05.2008

maio 14, 2008

Improviso para saudar o Esteves...

Há quem viva de ler as mãos
e quase sempre se perca em todas
como se nenhum destino
tivesse livros para contar
ou o silêncio inverso
podia começar assim uma história
de infortúnio profissional
no preciso instante em que a noite se despisse
e todos os livros já se tivessem deitado
e adormecido
para não acordarem mais
que fadas diz-me
serviriam então a madrugada
ao balcão da pastelaria?

Ademar
14.05.2008

maio 13, 2008

Improviso para auto-retrato...

Sou do género compulsivo
torturo as palavras
até que elas digam exactamente o que eu quero
e não me canso nunca
de ouvir o mesmo concerto
a mesma ária
a mesma canção
ou de ler o mesmo autor
ou de ver o mesmo filme
ou a mesma árvore
sinto como imperativo categórico
que devo à beleza em que caibo
essa fidelíssima conformidade
que resiste a todas as modas e tentações
e entendo-me melhor com as pessoas
que não correm atrás do que será
porque são felizes assim.

Ademar
13.05.2008

maio 12, 2008

Improviso futurista...

Ibéria
nove de dezembro de dois mil e noventa e dois
faço hoje anos
cento e quarenta
tenho dezasseis carcinomas
dois desfibriladores internos
um pulmão e dois olhos artificiais
que não vêem por mim
e já perdi a conta às próteses e ortóteses
ontem
pela décima terceira vez
nos últimos trinta anos
pedi ao governador regional de saúde
autorização para morrer
pedido automaticamente indeferido
ao abrigo do artigo décimo sexto número dois
da Directiva de Sobrevivência Europeia
o cansaço não é motivo atendível
um amigo sugere-me em alternativa
que cancele electronicamente todos os seguros de saúde
ou tente sair do hospital pela janela
nem sequer lhe ocorreu
que já não tenho pernas.

Ademar
12.05.2008

maio 11, 2008

Improviso para dizer simplesmente que sei...

Não ofuscas nem arranhas nos olhos
e se bem me lembro
nunca me fizeste uma pergunta
nem um pedido
nem uma promessa
há pessoas que se pesam tanto a si próprias
que até parecem levitar entre as estrelas
nada em ti é falso ou redundante
ou postiço
cabes sempre nas palavras que dizes
e poupas nos gestos
para que nenhum te atraiçoe
há quem não entenda o rigor da integridade
ignorando que não é outra coisa
honestidade.

Ademar
11.05.2008

maio 10, 2008

Improviso a destempo...

Por vezes
esqueço-me da alma
no cinzeiro
e fumo a tua ausência
até ao filtro
como se estas noites fossem
irrespiráveis
não me perdoo a distracção
dos mastros e das bandeiras
quando viajo
no sentido contrário
dos ponteiros do teu tempo.

Ademar
10.05.2008

Improviso quase genealógico com endereço...

Obra pai
obra filho
obra mãe
obra filha
obra tio
obra tia
obra sobrinho
obra sobrinha
obra homem
obra mulher
obra irmã
obra irmão
obra amigo
obra amiga
obra primo
obra prima
obra-prima.

Ademar
10.05.2008

maio 09, 2008

Improviso em forma de inibição...

Desfolho o álbum das fotografias
trocadas
em busca de alguma em que estejas
como nunca te viste
se bem te recordas
já desfolhei muitas vezes
este mesmo álbum
e nunca te encontrei
e nenhuma culpa caberia
nas palavras com que dissesses
tamanha ausência
ou esquecimento
já fechaste tantas vezes os olhos
à indelicadeza da memória
que nenhum sorriso
poderia emoldurar agora o teu pudor.

Ademar
09.05.2008


maio 08, 2008

Improviso em forma de evidência...

Ninguém entende
por que estou sempre tão atento
no chão que piso
às marcas dos meus próprios passos
é apenas porque não quero
ir demasiado depressa
ou devagar
em relação ao que fui
ou ao que serei
ninguém caminha seguro
sobre pés que não caibam
no destino da viagem.

Ademar
08.05.2008

Improviso estremunhado...

A telefonia garante
que não chove
em Portugal
a televisão confirma
que não chove
em Portugal
subo a persiana
da janela mais próxima
espreito
e vejo chover
Portugal
finalmente
já não mora aqui.

Ademar
08.05.2008

maio 07, 2008

Improviso para cumprir uma promessa...

Escreveste sobre o Sena
ou seria Veneza
amanhã acaba um amor de imitação
ele imitou o meu
e a partir daí
embrulhámo-nos num verdadeiro jogo de espelhos
e eu disse-te
talvez mais logo ou um dia
escreva sobre esse amor
que começa ou acaba assim
acrescentaste
recuperei agora uns pedaços do meu espelho original
e ando a refazer-me
e eu disse-te
o espelho da gente
nunca é inteiramente da gente
mas uma colagem de pedaços
de todos os espelhos que fomos quebrando
dentro de nós
amanhã
informaste
trocaremos pertences
confesso que comecei por ler
presentes
c’est la vie.

Ademar
07.05.2008

maio 06, 2008

Improviso para distrair talvez a norma...

Nunca aprendi a escrever
poemas perfeitos
reprovei senhora
em todos os exames
na escola da crítica
sofro agora com as doenças
e as rugas das palavras
como se envelhecesse com elas.

Ademar
06.05.2008

maio 05, 2008

Improviso sem malícia...

Já não ganho a vida a corrê-la
estou reformado das pistas
e dos cronómetros
não ouço tão pouco Bob Dylan
por causa das cãibras
o coração já não aguenta tudo
senhora
nem a hora do fecho da edição
quando a edição fechava ainda na Duque de Palmela
lamento que este não seja
o estado do mundo
mas apenas
o estado do mundo em que me observo
quando desleixo a crítica
do que ainda escreverei.

Ademar
05.05.2008

maio 04, 2008

Improviso para outras cordas...

A quem me pede
índices
apenas concedo
quando respondo
notas de rodapé
nunca aprendi a ordenar a vida
retroactivamente
nenhum passado reconhece
o que serei.

Ademar
04.05.2008

maio 03, 2008

Improviso para servir de mastro...

No bairro em que vivo
todas as casas dão luz e estão completas
não falto em nenhuma
nem mesmo na tua
ainda assim
sairia à rua nesta noite
se alguma bandeira hasteasse
a lua de uma janela que se abrisse
para mim
mas nada
nada do que eu pudesse escrever
alteraria o curso do vento e das marés
neste cais de que não parte
um único barco sem destino certo
a bandeira agora sou eu
e nenhuma lua ilumina
a casa ainda mais distante
que naufraga no poema.

Ademar
03.05.2008

maio 02, 2008

Improviso para lamuriar...

Quanto mais me instalo na prosa
menos se me vêem as cuecas
quem escreve assim
tão pouco poeticamente
não faz jus à imortalidade
para adoçar a crítica
amanhã direi simplesmente
que descuidei a higiene das metáforas.

Ademar
02.05.2008

maio 01, 2008

Improviso em forma quase de editorial...

Duas pedras
uma em cada mão
nenhuma luz ou sombra
a servir de alvo ou objecto
nenhum altar
nenhum deus
o puro desconsolo da ira
que te impele em direcção a um espelho
vazio
as ruas agora desabitadas
os sinos pesam como terra molhada
e já ninguém consegue tocá-los
há multidões que ainda choram uma criança desaparecida
diante da tela estreita de todas as noites
como se o universo coubesse todo
em Hitchcock
há multidões que tentam descer à cave
dos satélites
para disparar sobre o monstro
enquanto o presidente garante
civilização
há multidões que querem saber de tudo
e de nada
nessa indiferença assassina
entre a mesa e a cama
em que se deita o cansaço de todas as vidas
e há multidões refasteladas na espreguiçadeira do tédio
esperando apenas a tragédia
da próxima edição.

Ademar
01.05.2008

abril 30, 2008

Improviso para fogo e armistício...

A vida nunca sai da toca
para ser caçada
mais depressa
enferruja a arma
ao caçador
nenhuma fábula
cabe no enredo da caça
nenhuma moral
nenhuma verdade.

Ademar
30.04.2008

abril 29, 2008

Improviso sobre um azulejo...

azule.jpg

Uma criança perguntou-me hoje
se a felicidade podia ser estampada
num azulejo
estampada não
respondi
tecida apenas
a fonte da felicidade
está no tear
(expliquei-lhe o que era um tear)
e na inteligência das mãos
que distinguem e entrelaçam os fios
disse-me que entendera.

Ademar
29.04.2008

abril 28, 2008

Improviso ele mesmo excêntrico...

Vivo de menos
para escrever de mais
há uma vida nas palavras
que só cabe nas palavras
uma vida que fosse
todas as vidas
de que nada ficasse por contar
ou por dizer
no horizonte das palavras
não há destinos excêntricos
todas as personagens são reais.

Ademar
28.04.2008

abril 27, 2008

Improviso concêntrico...

Renuncio à geometria
das certezas da alma
todas as formas têm um desleixo
de cores e de sons e de sentidos
que me incompleta
percebo mais de desterros
do que de multidões
e nunca espero respostas
da eternidade
senão intuições.

Ademar
27.04.2008

abril 26, 2008

Improviso para índice do poeta...

Existo para pouco
tirando naturalmente para o que me pagam
ouvir Bach
e colher improvisos no espelho das noites
como quem
de olhos vendados
colhesse rosas num canteiro de acácias
é quase tudo falso ou redundante
no que escrevo
menos a vida e a morte
e o sangue das palavras
não tenho resposta para perguntas fabulosas
nem sei como se fotografa o reverso do silêncio
nas costas da insónia.

Ademar
26.04.2008

abril 25, 2008

Improviso para abençoar o paradigma...

A inteligência artificial tem as suas vantagens
senhora
coloca-se nela
tudo o que se quer
a aula planificada
a paixão pela história
e até pela gramática
a calculadora mental
e a crítica da razão pura
e a disciplina claro
a obediência silenciosa e reverente
sem a qual
não há escola nem aprendizagem
e quando toca a campainha senhora
para o turno da ensinança
é só carregar na tecla
e tudo volta a engrenar
a inteligência artificial tem as suas vantagens
senhora
até dispensa a democracia
até dispensa a liberdade.

Ademar
25.04.2008

Improviso sobre um tema de Ian Curtis...

Todas as manhãs visto
a mesma pele
e saio à rua
com a mesma pele
para que ninguém me reconheça.

Ademar
25.04.2008

abril 24, 2008

Improviso para invalidar o Génesis...

Não sei se falta um terceiro género
ou um terceiro sexo
sei apenas que deus abandalhou
a obra da criação
ao sétimo dia ou um pouco antes
deus ou a selecção natural
por melhor que encaixem
pela frente ou por trás
macho e fêmea nunca esgotam
o espantoso roteiro das possibilidades.

Ademar
24.04.2008

abril 23, 2008

Improviso para me dizer muitas vezes...

Ainda guardo na memória dos sons
todas as caixas de música que nunca me deste
sonatas e valsas e talvez alguns tangos
e aquele nocturno de Chopin
que se calhar nunca foi de Chopin
e melodias simplesmente sem pedigree
cães sem trela nem raça
vadios nos olhos
como sempre me viste
as caixas de música têm a infância dentro
a acústica dos grilos
nas noites que não sobram.

Ademar
23.04.2008

abril 22, 2008

Improviso para servir de estátua...

Não sei escrever poemas
populares
rimados no senso comum
os meus olhos vêem fendas
até nas verdades de bronze.

Ademar
22.04.2008

abril 21, 2008

Improviso em forma de brinde teológico...

Bebamos hoje à saúde
do próximo deus que inventaremos
a morte é um negócio cansado
precisamos de deuses descontraídos
e sorridentes
que não se injectem à porta dos bares
do alterne da vida
deuses baratos
que não cobrem côngrua nem dízimo
nem se façam explodir
entre as coxas das virgens adiadas
essas virgens eternamente prometidas à eternidade
que nunca dura mais
do que uma vida mal contada
deuses sem toras e sem taras
etimologicamente intocáveis
à prova de messias e de mártires
e de altares que não caibam na noite
bebamos hoje à saúde de nós mesmos.

Ademar
21.04.2008

abril 20, 2008

Improviso para traduzir domingos...

A porta sempre entreaberta
para que não precises de procurar a chave
nenhuma pergunta ensombradora
nenhum sorriso forçado
um abraço sempre de rosas molhadas
que estivessem à nossa espera
há quem se agite muito lá fora
competindo com o vento e com o verbo
ninguém entenderia este conforto
de gestos sempre tão íntegros
e esta teia de silêncios que nos envolve
o impossível ao alcance dos olhos
e nenhuma exigência
na certeza de tudo.

Ademar
20.04.2008

abril 19, 2008

Improviso para desdogmatizar...

Não aspiro à verdade publicitária
das evidências
não aspiro aliás
a verdade alguma
prefiro a diversidade da mentira
que não engana
essa quase plasticidade pluridimensional da mentira
há no excesso de luz
digo
de verdade
uma cegueira íntima que me oprime.

Ademar
19.04.2008

abril 18, 2008

Improviso elementar...

Todos os amores são
clandestinos
de antes das palavras
no dia em que ele disse
no dia em que ela disse
que amava
já não precisavam mais de dizer
o amor morre com o segredo.

Ademar
18.04.2008

Improviso intemporal...

Hoje falhei a incerteza da chuva
e errei o sentido do vento
nenhuma previsão metereológica
acertou a circunstância do meu tempo interior.

Ademar
17.04.2008

abril 16, 2008

Improviso vegetariano...

Não é preciso dizer tudo
para que tudo fique dito
basta que o silêncio
harmonize na noite
a dissonância dos sentidos.

Ademar
16.04.2008

abril 15, 2008

Improviso aristotélico...

Se é isso que interrogas
talvez um dia a vida faça sentido
no abstracto e no concreto
sem redundâncias de palavras
até lá
sobrevivamos nas sombras da perfeição
e nas suas fendas
abrindo portas e fechando portas
mas cedendo o menos possível
(retomo a expressão que não chegaste a usar)
à matemática dos automatismos
ouve
(e esculpe no espelho de todas as ilusões
o que agora te direi)
esperamos sempre dos outros
o que prometemos em vão a nós próprios.

Ademar
15.04.2008

abril 14, 2008

Improviso exorcista...

As noites não são frias
quando arrefecem por fora
mas apenas quando vacilam
na mais perplexa confusão de si mesmas
devias ter mudado hoje de lençóis ou de pijama
poeta
ou de cama
ou de insónia.

Ademar
14.04.2008

abril 13, 2008

Improviso para despir a evidência...

A quem nada exige
tudo se oferece
há uma sabedoria antiga
nesse despojamento de paixões
a que me convidas
nenhuma certeza
nenhuma ilusão
nenhuma esperança
a verdade apenas das águas
que nos levam
no limite
até à foz de nós mesmos.

Ademar
13.04.2008

abril 12, 2008

Improviso em forma de agenda...

Sobram rosas sobram marcas
palavras que ficam sempre por dizer
sobram abraços e pudores
numa prudência imperceptível
de silêncios contrafeitos
e ecos de outros rumores
sobram viagens que não foram
e regressos que nunca serão.

Ademar
12.04.2008

abril 11, 2008

Improviso em onze linhas...

Se as camisas também vestissem
o que sobra da alma
nesse inverno de todas as estações
não haveria algarismo em que coubesse
nem nas tuas mãos
mas o comboio agora já não pára
no último cais
da linha em que me esperas
encomendo a nudez
a outras viagens menos terrestres
e nunca passo do check-in.

Ademar
11.04.2008

abril 10, 2008

Improviso para servir de boletim clínico...

Sabia tudo sobre os autores que lera
e quase nada
sobre a sua própria vida
e a vida dos outros
era professor catedrático
e analfabeto
foi internado ontem num
hospital psiquiátrico
continua a fingir que dá aulas
a alunos imaginários.

Ademar
10.04.2008

abril 09, 2008

Improviso para me reconfortar..

Tira-me os sapatos
e ajuda-me a calçar as pantufas
serve-me um whisky com muito gelo
e diz-me um poema
ou dá-me a ouvir uma balada
ou olha apenas para o meu cansaço
e deita-te com ele
como se fosse comigo
esta noite
ou o que me resta dela
preciso do que nunca serás.

Ademar
09.04.2008

abril 08, 2008

Improviso em forma quase de acta...

Reúnes agora e reúnes depois
reúnes hoje e reúnes amanhã
este país é um permanente concílio
não de Trento nem dos deuses de Olimpo
mas de treta
um concílio de treta
treta barata e quase sempre indolente
ninguém ouve mas todos falam
ninguém diz o necessário
ninguém faz o suficiente
reunimo-nos apenas
a agenda está inscrita nos astros
ou nos genes
quase dispensávamos convocatória
é da nossa natureza reunir reunir reunir
reunimos tanto que não nos sobra tempo
para mais nada
pensamos enquanto dormimos
e acordamos apenas quando nos esquecemos
de desligar o despertador.

Ademar
08.04.2008

Improviso para trompa e umbigo...

Nunca jogues em público
com Maomé
(ainda que o confundas com Cristo
ou outra tela qualquer)
nenhum profeta
resiste a fazer batota
quando vai a jogo
para perder a face
nunca transportes a tocha olímpica
com as mãos ensanguentadas
nem te laves no fogo
nenhuma medalha vale a incerteza
da civilização
nunca peças a recontagem dos votos
porque há urnas em que só cabem os mortos
e principalmente
nunca arrisques a vida pela pátria
que as pátrias esquecem depressa
como os amantes que erraram as mãos
no umbiguismo dos gestos.

Ademar
07.04.2008

abril 06, 2008

Improviso sobre um tema de Didier Squiban...

Não arrumarei as vozes
com os pratos
esta mesa
despida das tuas mãos
servirá hoje
de piano
sobre um silêncio
ou a tua ausência
de partituras.

Ademar
06.04.2008

abril 05, 2008

Improviso para começar a descatalogar-me...

Não cabem mais objectos no
museu da minha alma
já nem chego à boca de cena
para abrir as portas e as janelas
estou fechado por dentro
e através das fissuras só passa
quem for mais estreito do que o futuro
e mais leve do que o silêncio
desisti
de me acrescentar prateleiras.

Ademar
05.04.2008

abril 04, 2008

Improviso sobre o medo...

O medo
é o silêncio do escravo
e do prisioneiro
o abuso do poder
alimenta-se do medo
serve-se do medo
nenhuma dignidade se autoriza
a quem ajoelha no medo
diante de quem manda.

Ademar
04.04.2008

abril 03, 2008

Improviso retirado de Debussy...

Deduzo que o mar
deste lugar que apenas os olhos habitam
é uma virtude que nem os ouvidos alcançam
um novelo de sentidos entrelaçados
nas marcas do peito que te ofereço
para que faças de mim
o mais próximo e o mais distante
de todos os horizontes líquidos
que confundes com o cais.

Ademar
03.04.2008

abril 02, 2008

Improviso para iludir a perfeição...

Pergunto-me muitas vezes
como seria o poema perfeito
em que nenhuma palavra falhasse
nenhuma pausa ou silêncio
um poema feitiço ou bruxedo
luz apenas sem feixe de sombras
tão perfeito
que se garantisse a eternidade
na evidência elementar
do mais poderoso espanto.

Ademar
02.04.2008

abril 01, 2008

Improviso para comentar uma notícia... *

E as crianças
finalmente amordaçadas
falam com a parede
como nunca falaram com ninguém
a surdez de muitas escolas
não tem frechas
nem janelas.

Ademar
01.04.2008

* A notícia é esta.

março 31, 2008

Improviso para partitura de surpresas...

O pensamento não tem mãos
as mãos com que escondes sempre
os olhos que talvez preferisses cegar
na superfície do espelho
só o corpo guarda as marcas
dos dentes que falam
tatuagens de poemas que duram mais
do que as palavras impressas
movimentas-te sempre devagar
pela casa que não dormes
há destinos de tão perfeitos
que não cantam
ou vozes que nem precisam de cantar
para se fazerem ouvir no silêncio.

Ademar
31.03.2008

março 30, 2008

Improviso para servir de almofada...

As portas e as janelas do pensamento
só o silêncio as abre
o silêncio que convida à renovação
do sentido das palavras
quem não se põe à escuta do universo
em si próprio
ensurdece.

Ademar
30.03.2008

março 29, 2008

Improviso em forma de noite...

Hoje
antes de sair de casa
abri a janela do quarto
ou da alma
para que o ar respirasse
quando voltei
a lua tinha procurado abrigo
na minha cama
é muito mais fácil
viver com as palavras
do que na própria vida
sem elas
abracei-me à lua em silêncio
e deixei a janela aberta
para que ela pudesse sair
discretamente do meu quarto
ou da minha alma
quando eu finalmente adormecesse.

Ademar
29.03.2008

março 28, 2008

Improviso para servir de oráculo...

inve.jpg
Ademar
28.03.2008

março 27, 2008

Improviso para dizer que morro...

Apodreço devagar
eu sei eu sei
não é poético escrever
apodreço devagar
os poetas não apodrecem
morrem apenas
e muito pouco naturalmente
diga-se aliás que
a morte do poeta é uma metáfora
ou nem chega a tanto
porque a obra do poeta nunca apodrece
está sempre pronta
digo disponível
para a antologia
ou a edição póstuma
a verdade porém é que sinto que
apodreço devagar
aliás
(perdoai que repita o advérbio)
no país e na língua em que escrevo
apodrece-se devagar
com excessiva e patriótica frequência
digamos assim
só os tolos é que apodrecem depressa.

Ademar
27.03.2008

março 26, 2008

Improviso para adormecer metáforas...

O poema é uma vitrina
de palavras
que nenhuma mão alcança
nenhum olhar retém
uma ilusão
que acende apenas fascínios
e bruxedos
nas chamas que ardem
nos entreditos
o poema é sempre um perfume
a cheirar por dentro
do pensamento que o engravida.

Ademar
26.03.2008

março 25, 2008

Improviso para agradecer uma confidência...

Se fosse mulher
também casaria com um pintor
de interiores
que delicadamente oferecesse
o pescoço à trela
e os lábios à mama
os homens querem-se assim
maneirinhos no trato
maneirinhos no trote
e maneirinhos na treta.

Ademar
25.03.2008

março 24, 2008

Improviso para servir de eco...

Nenhuma beleza sobrevive
ao desalento das tuas lágrimas interiores
como se todos os dias
encenasses a mesma ópera
num palco estranho
e te faltasse sempre a voz
ou a partitura
ouve esse violino que rasga
silenciosamente a noite
e pergunta-lhe donde vem
de que parte da tua alma.

Ademar
24.03.2008

março 23, 2008

Improviso sobre um vídeo cinquentenário... *

Nenhuma mulher foi
tão alta e tão firme
na minha vida
como esse plátano
que nos sobreviverá
à sombra do qual
todos nos deixámos fotografar
como se fosse o ascendente
mais antigo de nós
e o mais próximo
e o único que afinal nos unisse
nessa voz
que ouvíamos no pequeno quarto
da janela interior
da casa do pai e da mãe
que nenhum órgão habitava
nesse tempo em que Beniamino Gigli
ainda não cantava Handel
e todos tínhamos nascido aí
fica sempre um perfume de mãos no teclado
depois de todas as palavras
e de todas as vozes se calarem.

Ademar
23.03.2008

* Beniamino Gigli morreu em 1957.

março 22, 2008

Improviso pascal...

Obrigado
por me deixares beijar
os pés
em vez da cruz
prometo fazê-lo sem embaraço
fingindo que não percebo o teu.

Ademar
22.03.2008

março 21, 2008

Improviso em forma de haiku para dizer a contingência...

É mais fácil descansar do futuro
ainda que no caminho tortuoso das palavras
os gestos tropeçam sempre na memória.

Ademar
21.03.2008

março 20, 2008

Improviso para servir de epitáfio à enésima reforma do sistema educativo...

Todos sabem como há séculos se faz
ora-se do alto de um estrado
como na missa ou na universidade de coimbra
e cinco minutos antes da campainha
pergunta-se se alguém tem dúvidas
agora os quadros de lousa até
são interactivos
e numa tela cabem sempre
muitos bonecos muito powerpoint
olha para o boneco rapaz
olha para o boneco!
e tira apontamentos
não vás perder o manual
a sala de audiências é rectangular
mas um martelo já não basta
para impor a ordem
as varas antigas apodreceram
como a autoridade dos mestres
agora os mestres sabem muito pouco
porque já nascem professores
mal tiveram tempo para emprenhar a vida
quanto mais para a ensinar
mas todos sabem como se faz
de ciência certa e experiência velha
resolve-se tudo com duas estaladas
ou a cavalo-marinho
e o lixo põe-se à porta da escola
para que alguém o recolha
a autoridade está na lei
mude-se pois a lei
para que a autoridade regresse à jaula
a disciplina ao cemitério
e o silêncio dos ciprestes
e mude-se o mundo todo à volta da escola
para que a escola não tenha de continuar
a zangar-se diariamente com o mundo
tira apontamentos rapaz
tira apontamentos ou dorme em paz
vais ver que não dói nada.

Ademar
20.03.2008

março 19, 2008

Improviso para quem escolhe morrer...

Quando nenhuma esperança mais
nos consentirmos da vida
com que autoridade
nos compelirão ainda à esperança
aqueles que nunca viveram por nós?

Ademar
19.03.2008

março 18, 2008

Improviso para fazer de clepsidra...

O tempo
essa rotina antiquíssima
em que jamais te lerás
ouve
nenhum segredo é mais íntimo
e mais instante
do que a própria vida.

Ademar
18.03.2008

março 17, 2008

Improviso para semente...

Exactamente
poderia dizer-te milhões de palavras
para romper o silêncio
mas os olhos e os ouvidos só engravidam
quando chove
e o corpo humedece.

Ademar
17.03.2008

março 16, 2008

Improviso cantabile...

Gestos sem gramática
mãos intraduzíveis
falha sempre uma música
para colorir o silêncio da partitura
já não há colos ciganos
que arrisquem a eternidade
sobram apenas noites adiadas
e milhões de perguntas
a que jamais responderás.

Ademar
16.03.2008

março 15, 2008

Improviso para esplanar...

Talvez pouco poeticamente
tenho saudades de esplanadas
não em praças maiores de Espanha
mas no abrigo do teu silêncio
que nunca pede ou exige nada
senão
campos despidos de verdes
desertos de sombras
abandonadas pelo sol.

Ademar
15.03.2008

março 14, 2008

Improviso para chamar a chuva...

Se agora chovesse
nenhuma noite seria mais igual a esta
só talvez faltasse o céu da tua noite
esse abrigo tão próximo
e sempre tão distante
onde não cabe ninguém
se agora chovesse
seriam apenas lágrimas e silêncios
nessa tela em que as cores vulgares
não entram
nem as palavras
nenhuma noite seria mais igual a esta
só talvez faltasse o céu da tua noite
esse abrigo tão próximo
e sempre tão distante
onde não cabe ninguém
nem tu.

Ademar
14.03.2008

março 13, 2008

Improviso para traduzir o vento...

Não faças perguntas ao mar
porque o espelho do cais
nunca te dirá o que esperas
há multidões que ainda te ouvem em silêncio
só porque ignoram que viajaste
o mar é sempre uma imprecisão interior.

Ademar
13.03.2008

março 12, 2008

Improviso para acolher primaveras...

Hoje ouvi finalmente os grilos
não sei se dentro de mim ou fora
algo me diz
que o inverno morre algures
entre outros silêncios.

Ademar
12.03.2008


março 11, 2008

Improviso para trenga e orquestra ...

Palavras espalhadas pelo chão
já não sei onde coloque os pés
para não me calcar
sei apenas que a desarrumação da casa
começa nos braços e nas mãos
que já não se oferecem como dantes
à eterna ilusão da novidade.

Ademar
11.03.2008

março 10, 2008

Improviso mais do que secreto...

Talvez invente ainda uma fórmula
para te dizer
o que as palavras nunca disseram
um poema irresolúvel
como quase todos os que já escrevi
equação a nenhuma incógnita
e a todas
exceptuando nós.

Ademar
10.03.2008

março 09, 2008

Improviso para grelha de avaliação...

O modo de andar
e de dizer
bom dia ou boa tarde
o sorriso
o abraço
o jeito de pedir por favor
a segurança dos gestos
e das palavras
e dos silêncios
a voz
o olhar acolhedor
o respeito
a delicadeza
a tranquilidade
o mérito da confiança
e a inteligência
a tua verdade
de todas as horas
como te avaliarei?

Ademar
09.03.2008

março 08, 2008

Improviso em forma de circunstância...

Hoje retirei do céu
não sei quantas nuvens
e passeei com elas na cidade
fingindo-me de trela
ninguém estranhou ou entendeu
senão uma maré distraída
e uma ministra sem dorso.


Ademar
08.03.2008

março 07, 2008

Improviso para dizer sempre a primeira vez...

Nenhuma noite é tão antiga nas palavras
que dispense a memória
ou a perfeição da voz
como se ainda voltasse a dizer
como no poema primeiro
vem soleníssima e triste
e colhe todas as folhas de mim
que ainda não tenham murchado.

Ademar
07.03.2008

março 06, 2008

Improviso para distrair momentos...

Não há imagens
que me reconciliem com a esperança
de descobrir a novidade
os dias nascem e morrem assim
na mesma certeza do movimento intemporal
das peças no tabuleiro
repito as palavras e os sons
que me reconduzem ao que fui
antes de todos os berços
e deixo-me embalar
numa espécie de pré-história de mim
quando ainda não confundia as marés
e os sentimentos pareciam eternos.

Ademar
06.03.2008

março 05, 2008

Improviso sobre a aragem dos dias que sopram...

Escrevo na água
para que não fique rasto das palavras
que me fogem
pressinto a ameaça dos abutres
sobrevoando discretamente sobre o rumor
dos pântanos
mas nada é igual ao que sempre foi
as vozes que se erguem agora
parecem ainda mais antigas e audíveis
e há uma estranha teimosia no ar
uma irreverência que quase apela
à insubordinação
já não havia mais chão
nem mais silêncio
para tanto joelho dobrado.

Ademar
05.03.2008

Improviso para viola e resiliência...

Dizes-me em privado que
sessenta mil euros
são trocos
trocos públicos naturalmente
sim
já trocámos todas as condições
e todos os lutos
ministros e ministras
sempre tão ocasionais e efémeros
como as reformas que pariram
já federámos e confederámos
fomos pais e professores
professores e pais
e emburrecemos na escola
e no destino
já trocámos de papéis
lembras-te?
quando te conheci
eras uma furiosa sindicalista
hoje
bates nos sindicatos
a vida é uma ironia
nesta pasmaceira tão previsível
à portuguesa
o nosso impudor
já não cabe
em nenhum espelho
conta os euros rapaz
conta os euros que faltam na conta
e mete a viola ao saco
antes que as cordas te falhem
e te enforques nelas.

Ademar
04.03.2008

março 03, 2008

Improviso para servir de lembrança ...

Garanto-vos que o mar
não escreve poesia
nem avalia o curso dos rios
há humanidades que
o mar desconhece
digo
subjectividades
boémias da alma
mistérios inemolduráveis
o mar não dita sumários
nem desafina ondas ou marés
padece silenciosamente de metáforas
e só desce às ruas
quando transborda de si
e enlutece pela terra desembarcada.

Ademar
03.03.2008

março 02, 2008

Improviso em forma de haiku para iluminar as trevas ...

Não há altares prometidos à eternidade
senão os que dispensam
a paixão célere dos rebanhos.

Ademar
02.03.2008

março 01, 2008

Improviso para recordar Bocage...

A casa suja o chão
a alma esgotada
aspiro a uma segunda edição
muito mais do que actualizada
talvez me falhe o coração
numa noite assim entediada
há rimas que não dão tesão
mas são melhor do que nada.

Ademar
01.03.2008

fevereiro 29, 2008

Improviso em forma quase de elegia...

Conheço homens
que já foram puros
quero dizer
que não vendiam destinos de empréstimo
nem usavam calculadora
na hora de conjugarem o verbo
pensar
tão pouco voláteis e conformes
que arriscavam sempre na ousadia
muito mais do que o futuro
agora só reconheço rebanhos crispados
e pastores e cães de fila
cabem todos na tela da monotonia
digo na trela
e já nenhum na moldura inteira de si próprio.

Ademar
29.02.2008

fevereiro 28, 2008

Improviso para Luchino Visconti...

visc.jpg

Morre-se em Veneza
como noutra cidade qualquer
as agências de viagens só vendem
ilusões de eternidade
e nem sempre a preços convidativos
evite-se o Lido e os enjoos póstumos do vaporetto
fica sempre mais barato morrer em Mestre
a montante do que já foi a ponte da liberdade.

Ademar
28.02.2008


fevereiro 27, 2008

Improviso na forma de eterna réplica...

Se a alma me sobrasse
como sobram os dias
viveria talvez ainda mais leve
e não teria que pensar
como dizes sempre
que está tudo errado
ainda que já o tenhas dito
milhões de vezes
em todas as vidas anteriores a esta
e em todas as vidas
que já não chegarás a viver.

Ademar
27.02.2008

fevereiro 26, 2008

Improviso para servir de sacrário...

No lugar da porta ou do altar
poderiam ficar apenas as impressões digitais
ou a lenta caligrafia dos gemidos das mãos
um ano não chega
para apagar os vestígios de uma vida inteira
entre grades e algemas.

Ademar
25.02.2008

Improviso para o Eduardo, aluno-palhaço...

palhaço11.jpg

Nenhuma verdade é mais urgente
do que as lágrimas com que te despes ao riso
e poucos sabem por que choras
quando desces ao palco de ti próprio
e perguntas por ela.

Ademar
25.02.2008

fevereiro 25, 2008

Improviso para fechar a noite...

Hoje sinto-me adoecer de braços e mãos
e dedos
estou sentado diante das palavras
e desconheço ou não quero saber
o que mais adoece em mim
o universo pesa-me nos olhos
e cego
se me levanto
talvez levite ou morra
diz quem já viajou
que não há diferença alguma.

Ademar
24.02.2008

fevereiro 24, 2008

Improviso desconcertante...

Todas as noites
digo-me em segredo que poderá ser a última
ou a primeira
todos os poemas
todas as palavras
que ainda não escrevi.

Ademar
24.02.2008

fevereiro 23, 2008

Improviso quase marítimo...

Não tenho o mar
entre os meus confidentes
adormeço sempre na lentidão
de todos os horizontes
e nunca sei desancorar na distância
os mastros do destino
quando me perco nos ponteiros da bússola
não tenho a lua
nem madrugadas ou manhãs
apenas um pacto breve com a noite
nesta antiquíssima servidão de palavras.

Ademar
23.02.2008

fevereiro 22, 2008

Improviso para toalha e talheres...

Hoje comi não ao jantar
o não serve-se frio
de preferência fulminante
e sem notas de rodapé
digo
entradas ou sobremesas
o vinho pode ser
de nenhuma colheita
e o pão ázimo
como numa ceia de profetas
ou amantes distraídos
hoje comi não ao jantar
e fingi que a mesa era eu.

Ademar
22.02.2008

fevereiro 21, 2008

Improviso em forma de chama...

Nenhuma luz
cura a água das sombras
acende-se uma vela
e o barco flutua na superfície da alma
uma espécie de barco à vela
do tamanho da memória
de todas as infâncias
e tão leve como a brisa que o detém
nestas palavras.

Ademar
21.02.2008

fevereiro 20, 2008

Improviso para dizer ainda boa noite ...

Procurei no dicionário o verbo
acabar
e só encontrei o verbo
morrer
envelheço apenas nas palavras
quando o silêncio me reconduz a elas
fosse tudo tão simples e exacto
como o esquecimento.

Ademar
19.02.2008

fevereiro 19, 2008

Improviso em dó...

Nunca me deste de beber
tenho ainda o copo vazio
ou a boca
e agora o bar fechou
nem o cigarro que me acendam
nem a cantora ou o piano
deixamo-nos apenas tocar pelo
contrabaixo
enquanto chove
e a noite não desperta
pagas tu ou pago eu?

Ademar
19.02.2008

fevereiro 18, 2008

Improviso para distrair ainda Fevereiro...

Encurto os poemas no inverno
para não engravidar do silêncio
o sofrimento inútil das palavras enregela-me
e os pássaros só começam a cantar
quando acasalam
há que poupar a voz para as cerejas.

Ademar
18.02.2008

fevereiro 17, 2008

Improviso sobre a eterna idade...

Só os regressos impossíveis
forçam o pé ao destino
tomara eu que a eternidade
fosse apenas uma palavra
que livremente pudesse decompor
eterna idade
e sempre terna.

Ademar
17.02.2008

fevereiro 16, 2008

Improviso para arranhar as cordas de um violino...

Desconheço o timbre da perfeição
nenhuma voz ecoa tão eloquentemente
na minha memória dos sons
como o silêncio de todas as vozes
quando calas.

Ademar
16.02.2008

Improviso para servir de mural às vítimas de Carlos, o rei da piolheira...

A António Papança fez conde de Monsaraz
a Tristão Queiroz fez marquês da Foz
a Estevão Tormenta fez conde da Serra da Tourega
a Cândido Calado fez conde de Monsanto
a Carlos da Mota fez conde de Juncal
a Joaquim Palha fez conde de Ribandar
a Henrique Lowndes fez conde de Leopoldina
a António do Rego Botelho fez conde do Rego Botelho
a Gaspar Melo fez conde do Vale da Rica
a James Mason fez conde de Pomarão
a João Valente fez conde da Tabueira
a Alexandre Lancastre fez conde de Cuba
a Amâncio da Câmara fez conde dos Fenais
a António Lacerda fez visconde de Granja do Tedo
a Venâncio Cordeiro fez visconde de Velber
a Luís Pires fez visconde do Passadiço
a João de Deus fez visconde de São Gião
a Valentim Lopes fez visconde de São Valentim
a António Rego fez visconde de Sousa Rego
a Joseph Gay fez visconde de Gay
a Manuel Furtado fez visconde de Vale da Costa
a João Júnior, antes barão do Socorro, fez visconde do Socorro
a José Azevedo fez visconde de Barrosa
a Joaquim de Utra fez visconde da Vinha Brava
a James Bellamy fez visconde de Reynella
a Inácio de Carvalho fez visconde de Bardez
a António de Almeida fez visconde de São João Nepomuceno
a Ezequiel de Sousa Prego fez visconde de Sousa Prego
a Cipriano Palhinha fez visconde de Amoreira da Torre
a José de Sá fez visconde de Merceana
a Júlio Carneiro fez visconde de Cabrela
a António de Sousa fez visconde de Carnaxide
a Joaquim Cunha, antes barão de Rio Torto, fez visconde de Rio Torto
a Cristovão Barata fez visconde de Olivã
a Eduardo Cohen, antes barão de Matalha, fez visconde de Matalha
a Faustino Moreira fez visconde da Rebordosa
a António Guerra fez visconde da Barreira
a António Rebelo fez visconde de Marzovelos
a António Melo fez visconde de Montedor
a Mariana Quintas fez viscondessa do Bom Sucesso
a Carlos Vieira fez visconde de São Carlos
a Manuel Penetra fez visconde de Cantim
a Carlos Gayo fez visconde de Fervenças
a Tomás Metelo e Nápoles fez visconde de Nápoles e Lemos
a Gaspar Sottomaior fez visconde do Mato
a João Dias fez visconde de Reboleira
a Aparício dos Santos fez visconde de Povoença
a Albino Azevedo fez visconde de Santo Albino
a Júlio Basto fez barão de Basto
a Karl Merk fez barão de Berk
a Vicente Falé fez barão das Silveiras
a José Gouveia fez barão de Gáfete
a Jacques René O’Fard de la Grange fez barão de O’Fard de la Grange
a Alfredo de Pinho fez barão de Burgal
a Manuel Mendes fez barão do Candal
a José de Pina Calado fez barão de Teixoso
a Frederico Telles de Menezes fez barão da Nora
a Geminiano Maia fez barão de Camocim
a Manuel Amorim fez barão de A-Ver-o-Mar
a Tristão da Câmara fez barão de Jardim do Mar
a Joana Crespo fez baronesa de Vale da Mata
a Ambrosina Loureiro fez baronesa de Fragosela
a Ricardo Franz fez barão de Frantzenstein
a José Joaquim da Silva Guimarães
meu bisavô paterno
fez visconde de Guilhofrei
Manuel dos Reis da Silva Buiça
desfez tudo
no dia um de fevereiro de mil
novecentos
e
oito.

Ademar
15.02.2008

fevereiro 15, 2008

Improviso sobre uma tela de Vermeer...

Uma carta uma folha de papel
respigando de uma tela
não sei se é a tua letra
nunca fui capaz de imaginar
caligrafias
talvez na luz dessa janela
ainda sejas tu
essas mãos que ardem sem palavras
fogo irrespirável.

Ademar
15.02.2008

fevereiro 14, 2008

Improviso para contrariar o calendário...

Talvez numa página em branco
eu escrevesse o teu nome
se o teu nome pudesse ser escrito
numa página em branco
já não tenho páginas em branco
para escrever o teu nome.

Ademar
14.02.2008

fevereiro 13, 2008

Improviso a conta-gotas...

Há realidades que não cabem num poema
luzes brilhos ângulos rectos
realidades furiosas
há novidades sem pessoas dentro delas
palavras sonâmbulas
despertando nenhures
hoje a poesia exige uma espécie de
cósmica imaterialidade
ondulante imperfeita labiríntica
mais próxima de nenhuma cor do que do azul
nada que se entenda como um titulo de jornal
ou um remendo na alma.

Ademar
13.02.2008


fevereiro 12, 2008

Improviso empresarial...

Um dia
quando me faltarem as palavras e as metáforas
fecharei a fábrica da poesia
e abrirei falência
há quem morra apenas com dois tiros
e um válido apenas
para efeitos estatísticos
eu tenho a pretensão prosaica de falir
mas com estrondo
nenhuma vida merece menos
nenhuma morte.

Ademar
12.02.2008

fevereiro 11, 2008

Improviso imaterial...

Mapeei as manchas do teu corpo
e vi o mais remoto dos continentes
e o mais íntimo
nunca na fronteira dos olhos
te exigiram o bilhete de identidade
ou o passaporte
passaste sempre por indocumentada
e até o silêncio negavas ao check-in
há quem viaje assim
num permanente desconcerto de vínculos
como se a única origem que lhe coubesse
fosse a incerteza de todos os laços e berços
mapeei as manchas do teu corpo
e sobrevoei uma memória de feitiços
entre caixas de pandora.

Ademar
11.02.2008

fevereiro 10, 2008

Improviso cenográfico...

Palmas talvez apenas no fim
quando o silêncio repousar
das aventuras no palco
num estrado ainda mais incerto
do que o fio nocturno da saudade
palmas lentas e tristes
como valsas que perderam o par
ou violoncelos
o arco das mãos.

Ademar
10.02.2008

fevereiro 09, 2008

Improviso antes de todos os domingos...

Os sinos
lembram-me sempre que nasci aqui
mesmo quando troco as imagens
eu sei que nasci aqui
não muito longe deste lugar
onde tudo parece exactamente a sombra
do que foi
há domingos em que os sinos
ainda tocam assim
como se chamassem alguém
e só tocassem em mim.

Ademar
09.02.2008

fevereiro 08, 2008

Improviso para lembrar Sevilha...

Sim
estou sempre do outro lado da janela
quando me espreitas
disponível nas palavras
e nos olhos que te vêem
só te posso reservar uma vida
ou o que sobra dela
duas mãos apenas
e um coração que ainda treme
não sei se voltaremos a dançar o flamenco
a mais de quarenta graus à sombra
ou se terei mesmo de morrer
numa quase indiferença de braços
leio uma espécie de sina
nas crostas do silêncio
e tudo me parece ainda luminoso
como castanholas.

Ademar
08.02.2008

fevereiro 07, 2008

Improviso para completar uma fala...

Claro que tenho um pacto com o diabo
todas as palavras que me enfeitiçam
digo
que brincam comigo
um pacto antigo
arqueológico da infância
quase tão antigo como o medo de cegar
na luz do sol ou da lua
como quando era menino
é esse o diabo que reencontras
nas palavras que te enfeitiçam
digo
que brincam contigo
connosco.

Ademar
07.02.2008

fevereiro 06, 2008

Improviso antes do próximo...

Estou sempre à procura de uma última verdade
antes da seguinte
um gesto ainda mais surpreendente
gritos que não pareçam lágrimas
lágrimas que não pareçam gritos
não há mãos como as primeiras
não há nuvens
não há olhos
todas as tardes agora são diferentes
só as palavras coincidem no silêncio que as recolhe.

Ademar
06.02.2008

fevereiro 05, 2008

Improviso depois do dilúvio...

Uma gota distrai o silêncio
na noite
nenhuma sombra sobre a tela
nenhuma voz
apenas a certeza de uma gota
uma ínfima certeza
um barro prematuro
na inconstância do oleiro
e na angústia
sobro-me em palavras
e segredos
procuro a chave e a porta
e fecho-me por dentro.

Ademar
05.02.2008

fevereiro 04, 2008

Improviso para antecipar Veneza...

Se chovesse
a água teria hoje um sabor especial
muito diferente do sabor
de todas as gravuras
e poemas
talvez a chocolate ou a cerejas
ou a queijo da serra
só falta escolher a máscara
e beber o carnaval.

Ademar
04.02.2008

fevereiro 03, 2008

Improviso em forma de haiku para distrair o vento ...

Os barcos não frequentam esquinas
todos os cais navegam horizontes
na distância do alto-mar.

Ademar
03.02.2008

fevereiro 02, 2008

Improviso no cais...

Um pássaro pousou delicadamente
no ombro que ofereço todas as noites à saudade
nunca sei se os pássaros que me visitam
vêm de longe ou de perto
ou mesmo de dentro de mim
e se voltarão
outras vezes confundo pássaros com estrelas
e perco-me para além das nuvens
num silêncio que não pertence à ordem
desta galáxia
não tenho outra forma de dizer
que escrevo apenas para me lembrar que existes.

Ademar
02.02.2008

fevereiro 01, 2008

Improviso para povoar o vazio...

Faço perguntas inesperadas irrespondíveis
e ainda assim espero sempre respostas
confio talvez de mais no optimismo das palavras
na íntima cegueira das noites e dos dias
que já poucas luzes distraem
a tudo porém respondo
já não tenho vidas nem mortes para segredar
apenas labirintos interiores
que nenhum mapa ilumina
como se tudo fosse indecisão.

Ademar
01.02.2008

janeiro 31, 2008

Improviso quase religioso ...

Discordarei do mar
enquanto a terra me for tão próxima
tenho saudades de ondas
que façam parte de nós
e nos prolonguem
já nos vimos tão perto
de todos os cais
já tivemos um pé
em todos os barcos
já fomos livres
de nos prendermos
talvez nos falte apenas a sabedoria
do amanhecer ou do pôr-do-sol
uma espécie de livro sagrado
antes da sagração de todos os deuses.

Ademar
31.01.2008

janeiro 30, 2008

Improviso intervalar ...

Deixei apenas de ouvir os silêncios
ou os gritos
agora nada adivinho
nada presumo
posso imaginar tudo
a incerteza dos passos
as mãos que se atrapalham
no ângulo da defesa
até os olhos que se deixam vendar
nas palavras sempre hesitantes
todas as verdades são tão imateriais
como esta.

Ademar
30.01.2008

janeiro 29, 2008

Improviso por conta da prosa em dívida...

Hoje pensei um romance
só não encontrei ainda as palavras
com que poderia escrevê-lo
há mais de vinte anos pelo menos
que penso o mesmo romance
e baralho as palavras
como quem tropeça e atrapalha a vida
por vezes acredito que nasci apenas
para escrever esse romance
e foi assim que engravidei
talvez me sobrem palavras
ou me faltem
ou simplesmente tempo
para amadurecer nelas.

Ademar
29.01.2008

janeiro 28, 2008

Improviso recorrente...

Ejecta-te do elmo ou
ergue pelo menos a viseira
pousa o escudo
distende a armadura
e tenta dar mais um passo
nenhum destino merece tanto rigor
digo
tanta rigidez de mãos e de braços
uma prisão interior
em todos os gestos mais sóbrios
um pudor irrespirável
relaxo as algemas que os pulsos confundem
nas próprias veias
podes finalmente reaver a paz
dos cemitérios da alma
nem todos se deixam morrer assim.

Ademar
28.01.2008

janeiro 27, 2008

Improviso para dizer origami...

origami.jpg

No princípio claro não era o papel
mas o verbo
e nenhuma imagem nenhum som
reportava ainda ao deslumbramento das formas
como nas tuas mãos
depois as palavras cederam à alquimia do fogo
e o brinquedo infância desfez-se papel.

Ademar
27.01.2008

janeiro 26, 2008

Improviso para tela e caixilho...

O quarto vazio
e não cabe mais ninguém
o quarto a casa a vida
o pensamento tem folhas soltas
cortinas que iludem a frágil nudez
de todos os medos e pudores
outrora corrias janelas
e todos os olhos te despiam
agora confundes as mãos com as grades
e até as palavras parecem pesar-te
muito mais do que armaduras.

Ademar
26.01.2008

janeiro 25, 2008

Improviso para enganar o pôr-do-sol...

Não tens o sorriso pendurado das nuvens
nem do cume de nenhuma montanha
tudo na tua vida tudo
é esforço e inclinação
e medo
uma espécie de torpor
silêncio primitivo primordial
caminhas vagarosamente sobre uma teia de fragmentos
de muitos espelhos quebrados
a tua história lembra uma árvore perdida
entre raízes que pertencem a nenhuma.

Ademar
25.01.2008

janeiro 24, 2008

Improviso sobre uma imagem...

t2.jpg

Se me pudesse dependurar da vida
dependurar-me-ia assim
como uma toalha de banho
e nenhum corpo dentro
nem olhos nem mãos
apenas tatuagens de dentes gritos fúrias
sobre a água hesitante
e a espera da evidência de uma razão superior
para descer do cabide.

Ademar
24.01.2008

janeiro 23, 2008

Improviso para acompanhar um solo de oboé...

Já comecei vezes de mais a mesma frase
esgotei o berço das palavras
como se já tivesse desaprendido de nascer
agora batalho apenas com os pontos finais
discuto o meu lugar no fim da frase
no fim da vida.

Ademar
23.01.2008

janeiro 22, 2008

Improviso com todas as vozes dentro...

Ouço vozes sempre incompletas
como se tivesse deixado de ouvir
ou já me ouvisse apenas a mim próprio
nenhuma voz me convida à perfeição auditiva
sofro de silêncios que a surdez amplifica
e tresleio todas as partituras.

Ademar
22.01.2008

janeiro 21, 2008

Improviso despido de metáforas...

Aprendi contigo humildemente
a desconsiderar as palavras
nada é menos verdadeiro
de que um poema
um cavalo desleixado
um cão vadio
uma rocha um cogumelo
uma castanha apodrecida no chão
que recolhes e acaricias
nenhuma palavra
revive a magia do teu silêncio
a soberana exactidão de todos os gestos
nenhum poema.

Ademar
21.01.2008

janeiro 20, 2008

Improviso breve para servir de salvo-conduto...

Não tenho chaves
que sirvam nas tuas algemas
nem algemas
que sirvam nos teus pulsos
apenas um anel de memórias
e duas mãos sempre prisioneiras.

Ademar
20.01.2008

Improviso entre parêntesis...

Seria invencível
se não tivesse perdido todas as guerras
mesmo em palavras
faltou-me sempre o definitivo poder das lágrimas
que derrotam o slêncio.

Ademar
20.01.2008

Improviso quase ao jeito de monossílabo...

Não conservei a factura
ainda me poderei trocar?

Ademar
20.01.2008

janeiro 19, 2008

Improviso para repousar da mais longa viagem...

Não recordo nenhum hotel em particular
todas as cidades no passado
parecem exactamente iguais a esta
cujo nome agora me foge
já estivemos lá? já dormimos lá?
que mais fizemos entre a noite e o dia
para além de estar?
não atendas o telemóvel
deixa que as vozes te pertençam
nessa montanha que parece sempre tão próxima
e tão longínqua
como se fosse apenas a tua inconformidade
já fui bom já fui mau
tive todas as virtudes e todos os defeitos
menos o feitiço de ser mais ou menos
do que eu
regresso à recepção do hotel
e digo os nomes
a reserva tem sempre a data do dia seguinte
ou do anterior.

Ademar
19.01.2008

Improviso desconcertante...

Uma réstia de luz
e a janela sempre aberta
ou nenhuma ponte de promessas
talvez a fome do tempo
servida à mesa da espera.

Ademar
18.01.2008

janeiro 17, 2008

Improviso para descansar das mágoas...

Quando me perguntam
como estou
respondo que amanhã direi
tenho sempre pressa
de me ouvir depois.

Ademar
17.01.2008

janeiro 16, 2008

Improviso para cantar Leonard Cohen...

Não tenho inimigos nem balas para te oferecer
e se as mãos me obedecessem
pintar-te-ia de outras cores
numa tela em que nunca escurecesses
devolvo-te a impaciência com juros
no modo de uma tranquilidade
que sempre terás desconhecido
não tenho mapas para te ensinar
como se guerreia
desfraldei a bandeira da paz
quando vieste ao meu encontro
e me rendi.

Ademar
16.01.2008

janeiro 15, 2008

Improviso em forma quase de contrato de adesão...

Parece que foi eu que escrevi
“somos todos caçadores antropologicamente desempregados”
e
“a poesia é a arte de dizer o que ninguém mais entende”
talvez a brincar com as palavras
(por exemplo, foi eu)
eu seja competente
no mais ainda tropeço
tenho mesmo dias em que sinto
que falhei completamente a agenda
falta-me uma secretária
digo
uma gestora de eventos domésticos
sempre renováveis.

Ademar
15.01.2008

janeiro 14, 2008

Improviso aritmético...

Seis vidas ou sete como os gatos
mas nenhuma para perder ou ganhar
seis máscaras ou sete
e uma única personagem dentro delas
de tanto te contar
quase desaprendi de saber
por que palavras te diga
há pessoas que não cabem em norma alguma
e que nunca nos consentem
a proeza do conhecimento
corrijo
a ilusão do conhecimento
talvez agora o silêncio seja mais entendível
o silêncio ou o acanhamento dos gestos
essa distância exacta entre o pensamento
e as raízes voláteis do corpo.

Ademar
14.01.2008

janeiro 13, 2008

Improviso para desmarcar compromissos...

A mais antiga das metáforas
e o número talvez
o mais próximo da perfeição
reconto lentamente as velas que deixaste
e reacendo a que apagaste
no veloz transporte da partida
carne da minha carne
sangue do meu corpo
este é então
o cheiro em que viajas
quando perguntas por mim
nenhuma intensidade é tão certa
como o teu silêncio feito de tantas grandezas
há mistérios há paixões
que se envergonham nas palavras
e nas perguntas distraídas
claro que acenderei outra vela
quando o fogo te iluminar.

Ademar
13.01.2008

janeiro 12, 2008

Improviso como se anoitecesse...

Nunca dás a vida de barato
todos os pontos são de reticências
respostas adiadas
frases inacabadas
horizontes que tremem diante dos olhos
e embrumecem
não garanto que o verbo se escreva assim
invento diariamente palavras
para me transgredir a teus olhos.

Ademar
12.01.2008

janeiro 11, 2008

Improviso para dizer apenas que também sei rimar...

A perfeição tem as datas trocadas
e viaja sempre em classe turística
entre aeroportos banais
não lê revistas nem jornais
nem tem agenda diarística
a perfeição tropeça em todas as calçadas
e nunca rima quando se quer
homem ou mulher.

Ademar
11.01.2008

janeiro 10, 2008

Improviso ao natural...

Desaperto os laços
para que não adoeças dos pés
abro as janelas e
voltas a respirar
sobre a mesa
deixo a fruta e deixo o vinho
e o pão que comerás
depois de todos os prazeres
e sobre a cama o livro
e sobre o livro os olhos
antes de adormeceres
hoje não me apetece escrever
infinitos
há evidências que têm mais poesia dentro
do que todas as metáforas.

Ademar
10.01.2008

Improviso para dizer talvez saudade...*

Nunca te esqueças
a vida é um carrocel
estamos sempre a voltar
ao princípio de nós
ao princípio ou ao fim de tudo
mesmo quando julgamos
que partimos
ou apenas sonhamos.

Ademar
10.01.2008

* Para a Conceição, que parte para a Alemanha. O teu lugar na turma nunca mais será ocupado.

janeiro 09, 2008

Improviso para descuidar amanhã...

O mesmo trilho outonal
um cavalo que pede e tem a mão
o homem ainda não
notícias que vêm
notícias que vão
segredos suspensos na tarde
algures uma clareira sem fogo dentro
ou o fogo todo
e as testemunhas ausentes
o contrato mais uma vez adiado
nos soluços da rebeldia
e um cavalo que pede e tem a mão
o homem ainda não
notícias que vêm
notícias que vão
ecos de vozes que sussurram
passos que deixam sempre pegadas no chão
uma incerteza quase tão antiga
como os dias que a memória consente
mas há mais claridade
na distância dos gestos
talvez menos imprecisão
e um cavalo que pede e tem a mão
o homem ainda não.

Ademar
09.01.2008

janeiro 08, 2008

Improviso para aperfeiçoar o sol...

Deixo sempre no horizonte uma luz acesa
para que a noite não sofra de insónias
e fecho os olhos para não ver
talvez me leias algures no Japão
ou ainda mais longe ou mais perto
ou sejas tu própria as palavras
que não chego a escrever.

Ademar
08.01.2008

janeiro 07, 2008

Improviso em tons de arco-íris...

A cegueira
não se recomenda às evidências
tenho ângulos
que os olhos distraem
ou o que sobra deles
não há segunda pessoa
para dizer a poesia
e o singular ignora-me
morro devagar nas palavras
que me estrangulam
há viagens em que tropeço
metáforas pantanosas
e perco sempre o pé da alma
no que escrevo.

Ademar
07.01.2008

janeiro 06, 2008

Improviso para contrariar a rotina...

Outros olhos
sobre as palavras
ou sobre os corpos que se oferecem
há mais alguém no quarto
do pensamento
mãos à espera de aventurar
territórios desconhecidos
desiludimos a culpa
abrindo a porta a desertos sempre inexplicáveis
há tanta gente só
que aparece apenas acompanhada do universo.


Ademar
06.01.2008

janeiro 05, 2008

Improviso sobre uma imagem para dizer como se morre...

tib.jpg

Morrerei assim num caminho de outonos
desencontrado talvez do olhar e das mãos
que tantas vezes dispensaste
numa íntima surdez de vibrações e folhas silenciadas
há fúrias e lágrimas a que nenhum coração resiste sempre
e a um certo jeito cansado de encolher os ombros
e as palavras na impaciência de todas as culpas
como se a tortura fosse a última higiene da alma
e só o trabalho redimisse as destemperanças do corpo
tomara que soubesses como se morre assim devagar ou depressa
algemado ao silêncio
na outra margem do sofrimento
não há contexto para dizer ambiguamente a claridade dos dias que vencemos
e em nenhuma data deixámos de ser o que éramos
e o que somos.

Ademar
05.01.2008

Improviso em forma de haiku para dizer alguma coisa...

Há dias em que falho à vida
em que atrapalho quase tudo
na sorna do cais.

Ademar
04.01.2008

janeiro 03, 2008

Improviso para adiar uma conversa...

Conta-me um segredo
e só o recontarei a mim próprio
tenho fome de uma sabedoria
que me entenda e amplie
nos teus braços.

Ademar
03.01.2008

janeiro 02, 2008

Improviso quase bíblico...

Procuro na toalha um segredo
com o nome e a forma exacta do teu corpo
e recolho o cheiro dos lençóis
para que não se perca vestígio algum
há toalhas e lençóis que têm o dom da história
emprestam eternidade a qualquer narrativa.

Ademar
02.01.2008

janeiro 01, 2008

Improviso para acertar a bússola...

Nos olhos ainda o rasto do teu preto mais íntimo
e o vento no lugar das mãos
e viajo agora contigo
para que a noite encaminhe os teus passos
e uma luz nos proteja
e assim te devolvo ao silêncio
mais antigo de todos
o da nossa infinita perplexidade.

Ademar
01.01.2008