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António Lopes Ferreira: até sempre, Tio!...

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A morte, mesmo quando há muito esperada, tem quase sempre, pelo menos, o efeito de fazer explodir a memória. Hoje, morreu o homem que mais terá marcado a minha formação: o meu Tio António. Raramente lhe ouvi uma reprimenda e muitas vezes lhe pedi ajuda ou ele ma deu, sem eu pedir. Provavelmente, ele ver-me-ia mais como filho (filhos que nunca quis ter) do que como sobrinho. Criança, adolescente e jovem, era com ele que eu me abria e era a ele que eu fazia as perguntas que não seria capaz de colocar a mais ninguém. E era comigo, também, que ele se abria, contando-me coisas que, provavelmente, a mais ninguém contaria. E eu ficava sempre, fascinado, a ouvi-lo. Foram milhares de almoços (que, muitas vezes, entravam pela tarde dentro), foram milhares de horas de conversa...
Acho que aprendi a conhecer o mundo e as pessoas através do olhar (frequentemente cínico) do meu Tio António. Empresário de fachada (como gostava de se dizer), ele era sobretudo um jogador (profissional) e, como jogador, uma personagem verdadeiramente deslumbrante, que me parecia sempre acabada de sair de uma narrativa de Dostoievski (autor, aliás, que ele conhecia bem). Durante décadas, o meu Tio António foi, talvez, um dos melhores jogadores de poker sintético do país e um dos mais conhecidos e respeitados, pela elegância, pela inteligência e pela argúcia com que jogava. Acompanhei a sua carreira, quase diariamente, durante muitos anos. Ele contava-me quase tudo, sabendo que, aquilo que me contava, ficaria sempre entre nós. Eu sabia com quem ele jogava: grandes empresários, "aristocratas" de meia tigela, filhos-família, "doutorzecos" (como ele, em geral, os qualificava), até padres e cónegos. Recordo-me bem de algumas "mesas" em que ele participou, mesas em que, numa noite, se perdiam e ganhavam pequenas fortunas. E ele partilhava comigo, regularmente, a sua contabilidade de ganhos e perdas. E, apesar de ser um ganhador (um grande ganhador), sempre me chamava a atenção para os riscos do jogo profissional, recomendando-me que jamais experimentasse ou me deixasse seduzir. E eu fiz-lhe a vontade...
Aliás, era curioso que ele raramente apostava nos casinos que, por razões sobretudo sociais, frequentava. E dizia sempre que, nos casinos, toda a gente está, estatisticamente, condenada a perder. Por isso, ele só jogava profissionalmente o poker e o rummy (ou rami), jogos de aposta em que sabia, claramente, ter vantagem sobre a concorrência. E no dia em que sentiu que, irreversivelmente, começava a perder faculdades (o Alzheimer declarava-se), decidiu, pura e simplesmente, "encostar": "a partir de agora, vou jogar baratinho, só para entreter"...
Devo ao meu Tio António muitas outras descobertas. Humphrey Bogart, a quem ele roubara o chapéu e uma parte da figura e da pose. Clark Gable. Fred Astaire, que ele, adolescente, imitava (como lembrava, frequentemente, a minha mãe). Frank Sinatra. Bing Crosby. Marlene Dietrich...
Aprendi com ele a detestar o salazarismo e a igreja católica. E a desconfiar das multidões e dos rebanhos. Era um liberal e um individualista. E um céptico, muitas vezes, um cínico.
Não conheci ninguém mais perfeito do que ele. E mais imperfeito...
Obrigado, Tio, por ter existido!...

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Comments

Eu poderia e deveria escrever aqui algo. Mas algo me diz que o Doutor não é pessoa que aprecie palavras de circunstância.

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