Registos de avaliação no 1º Ciclo do Ensino Básico: a estupidez como culto…

O que me deprime nas escolas portuguesas não é o “eduquês”, mas a estupidez. O “eduquês” é uma espécie de poalha dialectal, que só os tolos são capazes de promover a inimigo do que quer que seja. A estupidez, não: é uma espécie de “tique cultual”, disseminado por todo o “sistema” (do superior ao inferior) e que (lamento desiludir Nuno Crato) é muito anterior ao… “eduquês” (seja lá isso o que for)…

A estupidez está um pouco por todo o lado: nos currículos, nos programas, nos manuais, na formação inicial e contínua dos professores, nas práticas de ensino e de avaliação, na organização das escolas…

Nos últimos anos, tenho-me entretido a coleccionar disparates. Por exemplo: fichas de registo de avaliação no 1º ciclo do ensino básico. Quase não há escola que, período a período, não ofereça aos “encarregados de educação” uma folhinha idiota com cruzinhas de um lado e de outro.

No momento em que escrevo estas linhas, tenho uma folha dessas à minha frente. Destaco alguns parâmetros de avaliação e as respectivas notações.

Língua Portuguesa (note-se que a ficha em causa reporta-se a um aluno do…1º ano)

  • Compreende e aplica o vocabulário activo (notação: satisfaz);
  • Compreende os aspectos fundamentais da estrutura e do funcionamento da Língua (notação: satisfaz bastante);
  • Compreende e aplica as regras elementares da comunicação oral (notação: satisfaz bastante).

Estudo do Meio

  • Compreende os princípio elementares do Meio Social (notação: satisfaz bastante);
  • Conhece a sua identificação (notação: satisfaz bastante);
  • Conhece o património histórico – local e regional (sem notação).

Expressão Plástica

  • Compreende as formas, cor, técnicas (notação: satisfaz);
  • É capaz de organizar superfícies (notação: satisfaz bastante).

Expressão e Educação Físico-Motora (sic)

  • Revela espírito desportivo (notação: satisfaz);
  • Revela adaptação ao contexto e espírito desportivo (notação: satisfaz).

Matemática (repito que a ficha que estou a citar respeita à avaliação de um aluno do 1º ano)

  • Domina as técnicas de cálculo (notação: satisfaz bastante);
  • Adquiriu as noções básicas de geometria (notação: satisfaz bastante);
  • É capaz de criar situações problemáticas (notação: satisfaz).

Atitudes (sic)

  • Realiza as diversas tarefas do dia a dia com gosto (notação: satisfaz);
  • Revela características de liderança (notação: satisfaz bastante);
  • Demonstra confiança nos adultos com quem se relaciona (notação: satisfaz bastante).

Estudo Acompanhado

  • Demonstra atenção e interesse pelas diversas actividades escolares (notação: satisfaz);
  • Utiliza os métodos de trabalho e estudo eficazes (notação: satisfaz).

Formação Cívica

  • É capaz de utilizar o sentido crítico para melhorar situações (notação: satisfaz);
  • Respeita o meio envolvente (notação: satisfaz);
  • Usa técnicas simples de troca de ideias/opinião (notação: satisfaz bastante);
  • Reconhece o direito da diferença – ideais, raça, religião… (notação: satisfaz bastante).

Área de Projecto

  • Participa nas várias fazes de realização de um projecto (notação: satisfaz bastante);
  • Colabora na pesquisa, recolha e tratamento de informação (notação: satisfaz bastante);
  • É capaz de organizar as ideias para apresentar um trabalho (notação: satisfaz bastante).

Nada disto, obviamente, é para ser levado a sério. Não se trata, repito, de um problema de excesso de “eduquês”, mas de estupidez. Os professores do 1º ciclo do ensino básico que avaliam, nestes termos, um aluno do 1º ano – limitam-se a cumprir um ritual cujo sentido nem eles próprios entendem. Faz-se assim, apenas, porque alguém determinou que devia fazer-se. E a estupidez vai, impunemente, circulando de escola para escola, de turma para turma, de professor para professor.

Hei-de partilhar convosco outras fichas de registo de avaliação, que venho, divertidamente, coleccionando. Pobre país…

recuperado de abnoxio3.blogs.sapo.pt

9 Responses to “Registos de avaliação no 1º Ciclo do Ensino Básico: a estupidez como culto…”

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  1. carla says:

    Lamento concordar com o que acima foi dito. Mais, refiro que é descabido avaliar sobre os mesmos parâmetros indivíduos distintos. Sou professora do 1º ciclo e também convoco os pais à escola para lher dar esses registos de avaliação. O ministério a isso obriga.
    Bom era que pais e professores trabalhassem com rumo ao mesmo porto diariamente. Assim, evitar-se-ia que trimestralmente fossem chamados à escola para cumprir formalidades.
    Trabalhemos todos para uma educação de verdade.

  2. Graça says:

    Sou professora do 1º ciclo e não só concordo como também acrescento, nunca deveriam ter alterado o “estatuto de professores primários” para “professores 1º Ciclo”. Nós continuamos primários e assim o continuaremos por muito tempo…Infelizmente não se vê uma evolução positiva à vista, só papelada desnecessária e ridícula.

  3. vx says:

    Lamento discordar de tudo o que foi dito. Sou professora e coordenadora de 1º ciclo e, além destes registos de avaliação que são entregues trimestralmente, o professor também deve ter lugar para escrever por palavras suas a avaliação do aluno, e não apenas colocar cruzes no lugar mais indicado. Se não escrevem é porque são comodistas. Afinal quantos professores temos que não reprovam alunos ou não fazem avaliações diferenciados só porque têm de escrever muito. Pena que não o admitam. Lamento que os professores considerem isto uma mera formalidade e não se lembre que se não for por estas meras formalidades, muitos dos pais RARAMENTE se dirigem à escola do seu filho ou falam com a professora. E lamento ainda mais que se considerem primários, talvez seja por isto que o país não sai da precaridade.

  4. José Manuel Couto says:

    Concordo com tudo o que foi dito. Estou, neste momento, a apreciar/analisar os registos de avalição trimestral de 20 alunos de uma escola do 1º ciclo, referentes a dois anos lectivos (2005/2006 e 2006/2007). Sinto-me perdido. As informações são todas muito vagas, subjectivas, standardizadas.
    Mas a culpa não é dos professores, que têm que recorrer a um discurso esteriotipado, repetitivo. Não é fácil.
    Este tipo de fichas fica a dever-se, na minha perspectiva, à falta de atenção dos investigadores relativamente a este nível de ensino. É preciso que se investigue o tipo de avalição existente e propor novas formas de o fazer, que garantam credibilidade e rigor.

  5. José Manuel Couto says:

    Concordo com tudo o que foi dito. Estou, neste momento, a apreciar/analisar os registos de avalição trimestral de 20 alunos de uma escola do 1º ciclo, referentes a dois anos lectivos (2005/2006 e 2006/2007). Sinto-me perdido. As informações são todas muito vagas, subjectivas, standardizadas.
    Mas a culpa não é dos professores, que têm que recorrer a um discurso esteriotipado, repetitivo. Não é fácil.
    Este tipo de fichas fica a dever-se, na minha perspectiva, à falta de atenção dos investigadores relativamente a este nível de ensino. É preciso que se investigue o tipo de avalição existente e propor novas formas de o fazer, que garantam credibilidade e rigor.

  6. David says:

    Sou professor e coordenador e apenas digo que as fichas que os meus professores preenchem não de cruzes, são caixas de texto onde o professor completa a informação de forma personalizada e individualizada. Claro que dá mais trabalho, mas assim as avaliações são mais coerentes e retratam a realidade.

  7. Eloquenza says:

    É verdade… as fichas são estúpidas!! Mais estúpido será se pensarmos que estas fichas são iguais para os 4 anos do 1º ciclo. Ainda mais estúpido se torna quando reflectimos que anda meio mundo aflito em querer abanar o mundo dos professores com uma avaliação que (supostamente) é um caminho para o sucesso dos alunos, quando mesmo a avaliação que se faz dos alunos é, no mínimo, anedótica. Porém, caro senhor Ademar… não queira mandar esta estupidez para as costas largas dos professores. Eu faço avaliação descritiva dos meus alunos num documento independente desta avaliação (e, certamente, não serei o único) e, mesmo neste registo de avaliação, há mais campos a preencher para além das cruzinhas.

  8. Anónimo says:

    dddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrdrdrddrdrdrddrdrrrrrdddddddddddddddddddddddddddddddddyrddddddddddddddddddddddhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh

  9. maria teixeira says:

    Sou professora do 1ºciclo estou a preencher os regsto de avaliação para entregar aos EE, tb sou EE,e tenho pena que as minhas fichas não sejam de cruzinhas porque os parametros a valiar são os mesmos para todos. Não se pode avaliar umas competências a uns e a outros não, principalmente se forem da mesma turma, do mesmo ano e o curriculo for comum. E já agora, quando se tem opiniões com a Carla mais vale pensar duas vezes, então para que é que existe o curriculo alternativo, PEI e os Planos de Recuperação, entre outros, senão para os “individuos distintos”?
    Não compliquem coisas que já são complicadas e trabalhosas. Estamos cá para trabalhar e não para sermos palhaços de uma sociedade que só sabe falar mal dos outros por prazer e principalmente porque desconhecem as regras de trabalho. Concentrem-se no trabalho e em criar alternativas capazes de melhorar o nosso sistema educativo e consequentemente o desempenho dos alunos. A culpa não é dos alunos muito menos dos professores mas sim de quem fala sem saber do que está a falar.
    Um abraço a todos os colegas que diariamente fazem tudo pelo seus alunos e pelo seu estatuto.

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