Diário em forma de silêncio (35)…

A fronteira da neurose, em mim, como sabes, é muito ténue. Que procurei nos homens a que me confiei? A confirmação (a pergunta, de ressonâncias psicanalíticas, quase me repugna) do lado destrutivo do impulso erótico? Percebi, por eles, que era diferente das outras. Era-me estranho o pudor, esse pudor que as mulheres, pelos vistos, cultivam, como ingrediente talvez de sedução. Eu nunca soube de culpas ou estratégias defensivas de género. Há uma mulher em mim que, provavelmente, nunca o foi. Talvez o isolamento (ou algum abuso precoce, que continuo a recalcar) me tenha, de facto, conduzido à desaprendizagem do pudor. Acompanhei-te em tudo. Acompanhei-vos em tudo. E, se não fui mais longe… foi, apenas, porque as sombras projectadas no interior de nós (há um terriório comum em que habitamos) delineavam uma fronteira invisível que não estaríamos e, provavelmente, jamais estaremos em condição de ultrapassar. Talvez Freud, afinal, tivesse razão…
C.A.

Antologia poética (2)…

Poema ao estilo de Serge Gainsbourg…

Nunca disse je-teme
(assim mesmo, à portuguesa)
Preferi sempre a linguagem gestual
que não consente tradutor
(antes de me especializar em braille).

Ademar
11.08.2004
publicado em abnoxio.blogs.sapo.pt

Antologia poética (1)…

Escrito sobre o Adagietto da 5ª Sinfonia de Malher
(interpretado por The Uri Caine Ensemble)

Estou delicadamente construído sobre uma rede de canais
De todas as margens que hesito
saem pontes que me projectam para os outros lados de mim
Distraio-me
para perder sempre
a última carreira do vaporetto.

Ademar
22.06.2004
(publicado em abnoxio.blogs.sapo.pt)

Um filme que recomendo…

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No título original, “Prendimi l’Anima”. Em português, “A Complexidade da Alma”. Um filme de Roberto Faenza, sobre um argumento de Gianni Arduini. Para amantes e curiosos da psicanálise. Sabina Spielrein foi paciente, depois amante e, mais tarde, discípula de Jung. Judia russa, morreu (com a filha Renata) às mãos dos nazis, em 1942. Nos primórdios da revolução, fundara em Moscovo uma escola libertária, a Escola Branca, que chegou a ser frequentada, discretamente, por um dos filhos de Estaline. Escola que, mais tarde, o próprio Estaline mandaria encerrarr. O filme de Faenza não é, propriamente, uma obra prima, mas vale pela história que retira da penumbra do esquecimento. Sabina, como Salomé, foi uma mulher extraordinária, uma das primeiras baluartes da psicanálise. Inclino-me, comovido, perante a memória do seu exemplo de coragem e de ousadia.

Dicionário das palavras que eu amo (36)…

PRELIMINAR – Tenho uma relação erótica com as palavras (com o resto, naturalmente, também). Uma das muitas palavras que me excitam não tem género. Refiro-me ao adjectivo PRELIMINAR. Limen, liminis: a soleira da porta. Algum conhecimento do latim ajuda a estas divagações. PRELIMINAR é, digamos, tudo o que antecede o passo de franquer a soleira da porta, para entrar. Não basta, pois, a intenção: o PRELIMINAR supõe a acção intencional, dirigida claramente ao objectivo. Quer-se chegar à porta e franqueá-la, mas o caminho para lá chegar é tão ou mais importante que o acto da própria chegada. Muitas vezes, o caminho não é uma recta linear, mas quase um labirinto.
Quem ignora a matriz identitária das palavras e dos conceitos que as palavras invocam – ignora, porventura, o essencial. Os PRELIMINARes, digo eu, são o supra-sumo da própria vida. No sexo e em tudo o mais que vale a pena.
(Recuperado de abnoxio.blogs.sapo.pt)