“Ombra mai fu”…

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Frondi tenere e belle
del mio platano amato,
per voi risplenda il fato.
Tuoni, lampi, e procelle
non v’oltraggino mai la cara pace,
né giunga a profanarvi
austro rapace.
Ombra mai fu
di vegetabile
cara ed amabile
soave piú.
Quando, há já muitos anos, me comovi pela primeira vez (como ainda hoje continuo a comover-me) com “Ombra mai fu”, a celebérrima ária de Xerxes, de Haendel, o meu fraco conhecimento do italiano levou-me a pensar que estaria a ouvir uma pungente declaração de amor a alguém distante ou perdido. Só mais tarde vim a perceber que se tratava de um hino a um plátano e que, todavia, a minha primeira impressão não estava errada… A solidez, a resistência, a altivez e a delicada beleza dos plátanos são, metaforicamente, convites ao entendimento do amor e à expressão da saudade…
Toda a minha vida, desde a infância, está, quase umbilicalmente, ligada a um plátano. Quando os meus olhos se cruzam com ele, quando, ainda hoje, procuro a protecção da sua sombra, sinto que pelo seu tronco, pelos seus braços, pelas suas folhas, cresce em direcção à luz a memória mais antiga que me aproxima da eternidade. Ele vigiou e protegeu todos aqueles que deram e dão ainda um sentido à minha existência: os meus avós maternos, os meus pais, os meus filhos, a minha irmã, os meus tios, os meus primos, as mulheres que mais preservaram na ilusão de me resgatar da solidão primitiva.
É um plátano único, que há-de sobreviver fisicamente a todos aqueles que acolheu e que ainda hoje, tantas vezes, distraidamente, o namoram com o olhar ou até com as lágrimas.
Se eu pudesse escolher, livremente, o lugar da minha sepultura, era debaixo dele, na Aveleda, que eu gostaria que me enterrassem. Ombra mai fu…
Fevereiro.2005
recuperado de abnoxio.blogs.sapo.pt

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