Nojo…

vives na rua e todos os dias te lavas nela
cospes como um cão cuspiria
há muito tempo que não ris
falas com as latas
as brigadas de socorro
e um ou outro passante
não sei onde defecas
não sei onde sonhas
sei, às minhas custas
e a expensas biográficas
que rejeitaste a água aberta
por onde passaram os meus lábios
nojo de mim?
nojo de mim!
nojo do teu corpo indefeso
perante a minha clara mundanidade
insisti, menti, que a água era virgem
menti, no meio de restos de massa
de cobertores queimados, de pacotes
e plásticos e tecidos que foram roupa
que a água era virgem e a minha intenção impoluta
não te soube explicar que vinha de uma festa agradável
onde copos e bocas e olhares se tocam ritualmente
não te pude dizer que o nojo nos pertence todo a nós
que nos lavamos compulsivamente da porcaria que fazemos
recusaste e tinhas sede
nojo de mim!
Ana Saraiva

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