Irá pronunciar-se, exactamente, sobre quê?…

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Expresso, 24.04.2010
Nos anos sessenta e setenta, o terror dos alunos da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra dava pelo nome de Rogério Guilherme Ehrhardt Soares. Nas provas de exame, muito especialmente, nas orais, ele deleitava-se em confrontar os pobres examinandos com questões absurdas, muitas das quais pouco ou nada tinham que ver com o direito. E, quem não fosse capaz de esboçar uma resposta minimamente estruturada e inteligente… era, sumariamente, “dispensado” da prova, digo, “chumbado”. Gerações de protojuristas provaram do fel e não gostaram. Naquela época, os professores universitários, sobretudo, os catedráticos, eram… inimputáveis.
Quatro décadas volvidas, não sei, francamente, se alguma coisa mudou nas universidades portuguesas, muito especialmente, nas escolas de direito mais tradicionalistas. Ao ler o enunciado da prova de Direito Constitucional II, que tanta celeuma está a provocar, senti-me regressado aos anos sessenta e setenta. E nem me reporto, apenas, ao conteúdo politicamente provocatório da primeira questão. Tecnicamente, o teste é, todo ele, um aborto. Como se corrige uma prova organizada e apresentada nestes termos? Os alunos conheceriam os respectivos critérios de correcção? Ou esses critérios nem sequer estariam explicitados? A ideia com que fico (espero estar enganado) é que estamos no terreno da pura arbitrariedade docente: o professor corrige a prova como quer e como lhe apetece e os alunos comem e calam. A única baliza objectiva parece ser a cotação máxima atribuível a cada uma das três respostas pedidas aos alunos: cinco, sete e oito valores, respectivamente. A partir daqui, o professor é soberano: valora o que entender, corrige como lhe der na realíssima gana. Se as provas fossem entregues, para correcção, a outro docente, as classificações seriam, muito provavelmente, distintas. Muito distintas. Era assim há quarenta anos (e há quatrocentos); receio, por este exemplo, que continue a ser.
Marcelo Rebelo de Sousa, como se sabe, adora dar notas. Dá notas a tudo, a olhómetro. Fico na expectativa da nota que ele irá dar ao teste do seu colega Otero. Marcelo Rebelo de Sousa é o presidente do… Conselho Pedagógico da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa…

One Response to “Irá pronunciar-se, exactamente, sobre quê?…”

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  1. Lena Berardo says:

    A Universidade de Coimbra continua igual no que diz respeito à avaliação. Há professores que se atrevem a dizer que não estão de acordo com as regras das percentagens de avaliação do sistema dito contínuo e pura e simplesmente não o aplicam. Estou a passar por isso. Antes de uma das minhas colegas ter escrito uma letra do trabalho que tinha que entregar no final do semestre a professora, no meio da sua insensatez, julgando talvez que somos todos surdos, disse que ia publicar esse trabalho. MAs as coisas não se limitaram a isto. São piores, mas como eu ainda tenho o mestrado para acabar vou optar por dizer que sou uma mentirosa e que tudo isto é fruto dos ET´s que se apoderam da minha pessoa e escrevem estas coisas. :)

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