Interpelação de um leitor (identificado) sobre a Escola da Ponte…

Meu caro,

Há tempos conversava com uma amiga (que tem responsabilidade no actual ME) e que me referia o facto de o projecto da EP não ter qualquer ligação ao mundo real, ou seja, se um aluno, por contingência dos pais, tiver de mudar de cidade, terá muitas dificuldades em ser absorvido pelo sistema educativo por falta de bases. Não sei se estou a formular bem a questão ou mesmo se ela se pode colocar, gostava era de perceber se a EP é um mundo totalmente à parte ou se, pelo contrário, ajuda a que os míúdos sejam cidadão preparados não apenas para viver na sua ilha.

Espero ser merecedor da sua atenção, enviando-lhe as minhas saudações.

Sou suspeito na resposta, porque estive cinco anos ligado à Escola da Ponte e aprendi a admirar o que, todos os dias, lá se faz pelos miúdos e com os miúdos. A questão colocada é, porém, uma questão recorrente, uma questão quase académica. Ouvi-a centenas de vezes e centenas de vezes tive de responder. Os miúdos da Ponte aprendem, desde muito cedo, a ser gente, a ser cidadãos. A desenvolver o olhar, a cumplicidade crítica com os outros, a inteligência da decisão, o risco da autonomia, a responsabilidade, a curiosidade do conhecimento. Adélia Prado tem dois versos que poderiam ser a epígrafe do projecto da Ponte (cito de memória): “Senhor, não me dês o queijo, nem a faca; dá-me simplesmente a fome”. Na Ponte, alimenta-se todos os dias a fome dos miúdos – e esse é o seu “segredo”. Tomara eu, que regressei à “escola tradicional”, ter alunos esfomeados…

3 Responses to “Interpelação de um leitor (identificado) sobre a Escola da Ponte…”

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  1. Anónimo says:

    o que é preciso saber (e isso V. não responde)e se saiem de lá a somar dois mais dois.

  2. Rui says:

    Caro Ademar Santos,
    Fico-lhe grato pelo esclarecimento.
    Cumprimentos

  3. Ademar Santos says:

    Saem, saem…
    O leitor (anónimo) é que, pelos vistos, saiu da escola com lacunas graves de conhecimento gramatical…

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