Entre toda a luz e algumas sombras – memórias de uma viagem interior (47)…

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Sempre estranhei a posição do corpo, suspenso sobre o abismo, digo, sobre o chão. Como se, em repouso, não soubesses dialogar intimamente com a proximidade de outros corpos. Uma noite, mesmo, desertaste, fugiste. Lembras-te? Depois dessa noite, nunca mais quiseste arriscar. Não estou nada certo de que fosse da insónia. Reencontrei-te ao fundo da sala numa espécie de transe sonâmbulo, algo muito próximo de um surto hipnótico. Era já madrugada e as muitas e altas vozes subiam e desciam as escadas de um prédio atónito. Já não me recordo se dormias. Recordo-me, sim, de que o teu corpo parecia um livro desarrumado na estante, com as folhas dobradas ou encarquilhadas. Uma mão esquecida sobre um comando alternava distraidamente canais, mas os teus olhos pareciam ausentes, longe, muito longe do que sobrava de ti. Acho que foi nessa madrugada que, definitivamente, percebi que não podia virar-te as costas, que não podia abandonar-te. Há conflitos interiores, tão antigos quanto a nossa própria existência, que jamais seremos capazes de resolver sozinhos. Na manhã seguinte, gritaste a uma mulher que passava (nem deves ter reparado que era uma mulher) essa espantosa incompreensão do afecto e da teimosia e, regressando a uma espécie de infância ou adolescência castrada, tocaste depois campainhas, como que provocando e desafiando o universo ali tão próximo e tão distante. Regressei ali a Granada, abracei-te, e disse-te ao ouvido ou dei-te a entender que ninguém tinha percebido. O teu corpo pareceu, finalmente, serenar. A alma, essa, é que continuou desarrumada na estante. Até hoje. Até quando?…

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