Entre toda a luz e algumas sombras – memórias de uma viagem interior (21)…

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A vítima que se faz de vítima é duplamente abominável: por ser vítima e, como se isso já não fosse bastante para inspirar a comiseração, por fazer-se de vítima. Não há carrasco que suporte, tranquilamente, um tamanho fardo. A ética impõe que a vítima se conforme com a sua condição. Quem não quer ser vítima não lhe veste a pele, não se põe a jeito. Ninguém suporta uma vítima rebelde. A vítima quer-se conformada, expectante e, se possível, agradecida. A vítima que resiste e estrebucha renega, estupidamente, o conforto e a grandeza de o ser. É uma vítima sem vocação, uma falsa vítima, uma vítima enganadora. A verdadeira vítima aceita, sem um queixume, sem um protesto, a punição do carrasco. E o seu natural ascendente. A natureza dos papéis exige de carrascos e vítimas que se entendam na bissectriz do jogo da dominação e da submissão. A vítima que se faz de vítima subverte esse jogo e renuncia à verdade do seu papel. Não merece, de facto, piedade?

One Response to “Entre toda a luz e algumas sombras – memórias de uma viagem interior (21)…”

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  1. cândida says:

    a vítima é o povo, o país, o mundo e, por arrastamento, os vossos filhos. e o meu.

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