Deus (com dedicatória à própria)…

Mesmo para aqueles que acreditam num deus qualquer (não importa em que versão), deus é o grande ausente. Ele não está em lado algum, senão no íntimo mais íntimo de todos os crentes. É uma ideia, um conceito, uma emoção – que organiza e dá sentido à vida dos que acreditam, ao ponto, frequentemente, de os levar a matar e a morrer. Este deus do sangue, da vingança, do ajuste de contas é um deus celerado que projecta o pior da espécie humana. Mas há os deuses que inspiram a grande poesia, a grande música, a grande pintura, a arte que resistirá sempre à degradação dos tempos e dos costumes. Se eu acreditasse num deus qualquer, só seria capaz de acreditar num desses deuses. Quando ouço o Requiem, de Fauré, chego a ter pena de não acreditar. Deus também pode projector o melhor que há em nós. E algumas das melhores pessoas que eu conheço são crentes. É-o, por exemplo, a mulher que mais intensamente e mais desinteressadamente me ama. Sem que eu jamais tivesse podido corresponder-lhe. Ou tido, sequer, a oportunidade de lhe agradecer esse amor. Porque o amor agradece-se.

Comentar