Droga…

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É uma droga autorizada. Mais: recomendada. “Moffou” (2002), de Salif Keita. Já escrevi no abnoxio sobre Yamore, a faixa que abre o cd. Um dueto em “brandura e calmaria” de Salif Keita com Cesaria Evora. Mas o álbum todo é uma embriaguez. Nunca sei se chore, se dance, se voe. E as vozes destas mulheres que dialogam com Keita parecem penetrar-me pelos ouvidos, pelos olhos, pelas mãos, por todos os sentidos da alma. Raio de bruxedo…
Para isto, não há tratamento. A dependência é completa e fatal.

Diário em forma de silêncio (37)…

Confiamos a alma a alguém – e a alma é-nos devolvida, diferente. Foi sempre assim, será sempre assim. Nunca chegamos como partimos. O meio é a paixão que nos atiça à mudança. Mesmo quando nos distraímos dela. Mesmo quando nos distraímos de nós.
C.A.

Da doutrina à latrina…

Nasci e cresci no seio de uma família católica tradicionalíssima. Não tenho saudades do “embalo”, nem desejo a tortura a ninguém.
Costumo dizer que, apesar de não ter frequentado jamais um seminário e não ter sido abusado sexualmente por nenhum bispo ou padre pedófilo, conheci as entranhas do catolicismo (da doutrina à latrina) e não gostei nada do que vi, do que li e do que ouvi.
Confesso que, mais de cinco décadas passadas sobre a ofensa do baptismo, ainda não recuperei completamente do pesadelo…
recuperado de abnoxio.blogs.sapo.pt

O pecado…

De vez em quando tenho vontade de pecar. O pecado atrai-me. Não sei se é a senilidade humana do papa que me impele ao pecado… Desconfio que sim, que o papa é hoje, no universo católico, o grande impelidor…
Sobra-me, claro, uma dúvida: não sei se o pecado a que aspiro é mortal, venial ou tão só…original.
Apetece-me pecar e é tudo…
Mas pergunto-me: haverá, neste mundo, ainda alguém disponível para a liturgia do pecado?…
recuperado de abnoxio.blogs.sapo.pt

Quousque tandem?…

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Hoje, na Pública, Filomena Mónica considera “O Sentimento de um Ocidental”, de Cesário Verde, “o mais genial poema escrito durante o Século XIX”. Linhas antes confessara que “jamais apreciara poesia” (supõe-se que até descobrir Cesário). Estes “intelectuais” e “académicos” portugueses que peroram, majestaticamente, sobre tudo e sobre nada são uma anedota. Filomena, então, bate todas as escalas da pusilanimidade. E o país mediático (não confundir com o país letrado) continua a prestar-lhe vassalagem e a achar-lhe muita graça.
“Ó gélida mulher bizarramente estranha”!… *
* Verso de Cesário Verde, retirado do poema “Frígida” (1875).

Explicação…

Alguns leitores (antigos e mais recentes) têm comentado o “novo” abnoxio, mas os seus comentários não estão ainda disponíveis para consulta geral. O problema é que, tendo eu o privilégio de “autorizar” a publicação dos comentários (e de mandar para o lixo o que é…lixo), ainda não aprendi a fazê-lo nesta plataforma. De modo que eu leio os comentários, mas, por ora, ninguém mais os lê, porque eu não sei “publicá-los”. Já pedi ajuda para resolver o problema e espero, muito brevemente, reparar esta falha, que até pode parecer (não o sendo) indelicadeza.
É com muito gosto, naturalmente, que leio os vossos comentários.

Para não se dizer que nunca falei da Albânia…

Alguém disse (terei sido eu?) que a grande riqueza da Albânia é a sua atávica pobreza. A gente chega aos portos de Itália e espreita para o outro lado do Adriático, à procura da mítica Albânia, essa Albânia que um paranóico (Enver Hoxha) converteu, por muitos anos, num autêntico sarcófago político, cultural e social, em nome do… comunismo.

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O sujeito da fotografia dá pelo nome artístico de Edi Rama. Digo “artístico” e digo bem, porque o homem já foi “rapper” (em Paris) e é pintor (relativamente estimável). Filho do escultor “oficial” do regime comunista, Edi Rama é, há alguns anos, o presidente da câmara de Tirana, a capital da Albânia. Num país estrangulado pelas máfias, não sei se Edi Rama se recomenda aos melhores princípios da ética republicana. Mas a revolução cromática que ele “impôs” em Tirana é quase um poema épico. Ouvi-o hoje (e vi as transformações que ele operou na cidade) e fiquei apaixonado. Nunca imaginei que, através da cor, fosse possível inverter o destino trágico de uma comunidade.

Pela primeira vez, fiquei com vontade de atravessar o Adriático…

Memória de tempos castos… *

Em Setembro de 1923, o general sedicioso Miguel Primo de Rivera (pai de José António, o futuro fundador da Falange, de tão infausta memória) usurpa o poder em Espanha e converte-se numa espécie de Mussolini ibérico (“nickname”, aliás, com que o rei Afonso XIII, em privado, o mimosearia). Como é sabido, o exemplo de Primo de Rivera transpirou a fronteira e chegou, rapidamente, a Portugal, inspirando os golpistas do 28 de Maio à moda de Braga.
Em Setembro de 1923 (ele há coincidências…), as professoras primárias de Cuenca (Castilla La Mancha) assumiam, contratualmente, o seguinte compromisso “profissional”…
Contrato de maestras – 1923
Este es un acuerdo entre la señorita ……………….., maestra, y el Consejo de Educación de la Escuela ……………….. por la cual la señorita ……………….. acuerda impartir clases por un periodo de ocho meses a partir del ……………….. de septiembre de 1923. El Consejo de Educación acuerda pagar a la señorita ……………….. la cantidad de (*75) mensuales.
La señorita ……………….. acuerda:
1.- No casarse. Este contrato queda automáticamente anulado y sin efecto si la maestra se casa.
2.- No andar en compañía de hombres.
3.- Estar en su casa entre las 8:00 de la tarde y las 6:00 de la mañana, a menos que sea atender en función escolar.
4.- No pasearse por heladerías del centro de la ciudad.
5.- No abandonar la ciudad bajo ningún concepto sin permiso del presidente del Consejo de Delegados.
6.- No fumar cigarrillos. Este contrato quedará automáticamente anulado y sin efecto si se encontrara a la maestra fumando.
7.- No beber cerveza, vino ni whisky. Este contrato quedará automáticamente anulado y sin efecto si se encuentra a la maestra bebiendo cerveza, vino o whisky.
8.- No viajar en coche o automóvil con ningún hombre excepto su hermano o su padre.
9.- No vestir ropas de colores brillantes.
10.- No teñirse el pelo.
11-. Usar al menos dos enaguas.
12.- No usar vestidos que quedes a más de cinco centímetros por encima de los tobillos.
13.- Mantener limpia el aula.
a) Barrer el suelo al menos una vez al día.
b) Fregar el suelo del aula al menos una vez a la semana con agua caliente.
c) Limpiar la pizarra al menos una vez al día.
d) Encender el fuego a las 7:00, de modo que la habitación esté caliente a las 8:00, cuando lleguen los niños.
14.- No usar polvos faciales, no maquillarse ni pintarse los labios.
* Agradeço ao A.R. a sugestão deste “post”. A propósito, convirá lembrar que, durante o salazarismo, as professoras primárias portuguesas assumiam um compromisso “profissional” muito semelhante ao exposto.