Três poemas em forma de mim…

1
Perguntas-me:
e se fosse livro
onde me esconderia?
Respondo:
no medo apenas
de morrer semente
depois de todas as primaveras.
2
Tento filosofar
com as pedras.
Desperto no grito
dos meus silêncios.
3
Escrevo quase verdades.
O sangue que corre
por fora das veias.
O corpo que soluça
tantas almas.
E a Terra em forma de esfera
onde cabe o centro todo
do meu universo.
Maria José Meireles

Berços…

Nascer do ventre da mãe
esse lugar
onde exactamente nunca seremos.
De dentro de nós
seria talvez mais certo
se a vida não fosse o medo
de morrer na semente
antes de todas as primaveras.
Quem me ensinasse a coragem
da luz.

Maria José Meireles

Fogo de Pandora…

Dou-me de graça
mas não me vendo por preço nenhum.
Já me confiei ao silêncio
e sobrevivi.
Se me tratares bem
poderás destruir-me,
mas se me tratares mal
saberei bem defender-me.
Sou mulher, sabes,
tenho séculos de maus tratos nas veias
e ainda não morri.
Dei-te a minha alma
mas não o meu corpo.
Ainda é cedo para cortar a noite às fatias.
Agora somos muitos na família
mas ainda poucos para tanta noite.
Eu sei esperar.
Quem tem tampa é a caixa
e não Pandora
(e Pandora não é uma caixa).
Maria José Meireles