Circo de pescado…

jacinta levou o óscar da melhor performance
jacinta tirou o carapau da boca da foca
pôs-se a jeito e levou
ai, que estrondo!
palmas, palmas!
é ela!
o carapau, porém, não se conformou
e esperneando com as suas perninhas desafiadoras
que o método socrático destina-se a levar a água ao criador pela boca do bebedor
saltou e nadou velozmente
a foca estava ainda boquiaberta
pensando talvez que sorte teria levado o seu tratador
quando
glup
e pelo ar troou
um belo arroto animal
Ana Saraiva

Surf…

preparo-me para definir
e logo as excepções
me fazem cócegas
recomponho-me
pego nuns
caracteriza-se por!
e os risos dobram-me
implacáveis, tão jovens
vêm ainda no autocarro nº5
ao fim da tarde a propósito de nada
ríamos de não poder rir do absurdo tão nítido
regresso
proponho uma coça aos ismos
e tirarmos os sapatos
protestam que o chão está frio
e que não se pode perder tempo
alguém explica que o chão é agora areia branca
e logo alguém se espreguiça numa longa comparação
explicito
comendo as solas
Ana Saraiva

No lugar do tango…

ao fim da tarde
havia unanimidade sobre a soirée poética
reunirá banalidades ou excentricidades
à volta de uma mesa que não abane
e torne evidente o desconforto
de quem anseia apenas
nudez iluminada
escrevamos
que no verbo correm seivas
possíveis de conter
daquela pessoa que acaba de chegar
nada se sabe do gosto do seu suor
sentados
lambemos nomes com adjectivos
e nada confessamos
Ana Saraiva

Fogo replicante…

com as palmas das mãos bem abertas
esperou que um fogo por elas se ateasse
ao longe, um lume crepitava esquecido
quase adormecido no frio nocturno
lá fora, mãos ardiam como fósforos
ali perto, alguém se consumia
subitamente, por nada
veio o dia
com as palmas das mãos bem abertas
seguiu as linhas da vida e do viver
veio a noite e com ela rumores quentes
de vinho doce e chama
Ana Saraiva

Luz…

não me interessam as tuas aventuras
cheiram a ranço e a exotismo triste
interessa-me o verde no fundo
dos teus olhos castanhos
é um fenómeno de luz
numa manhã que soube estar de sol
andámos em redondo
e rimos
que eu sou uma péssima guia
e o Buttes-Chaumont que nem é grande
mas que a terra é redonda
como o verde dos teus olhos castanhos
Ana Saraiva

Para Aisha Ibrahim Dhuhulow…

Aisha, Aisha
écoute-moi
Aisha, Aisha
n’y vas pas
Aisha, Aisha
ne parle pas
fuis la Loi
reste avec moi
Aisha
Aisha
Aisha, on en parlera
pour toi
on enlèvera la poésie
on dira
Aisha, tu nous excuseras
si on rime, si on rêve
sous les pierres
Ana Saraiva

Yes…

yes, you are the one
but just how black are you
the first black
bleck-bleck- bleck
do I have a dream
president
be my first hope
my last certainty
that hands, not hearts
will seize that justice
will build that bridge
you are only one
as are all of us
are we together
make it affirmative
we will discuss the rainbow
and any other color
some other day
brother
Ana Saraiva