Loucura…

pensa na loucura que é morrer sem ver a alegria da avó que levaram à praia
pensa na loucura que é não ver o mar
nem poder levá-lo
mais tarde
Ana Saraiva

Aguarela…

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à mercê dos olhos
estava um homem
e o seu mar
sentei-me e olhei
ele nada disse
descalcei-me
esperei uma onda
um azul antigo
e a onda veio
transparente
o azul,
terás de o ir buscar
ao fundo do mar
sorrimos
e entrámos na tela.
Ana Saraiva*

* Com a colaboração (pontualíssima) do autor do blogue.

Teias…

meço-te as palavras
e com elas peso o teu ser
num gesto
abre-se uma nova espécie de flor
ainda sem cheiro
nem cor
trarei os lápis
e um pedaço da manhã
e com a chuva ou a saliva
veremos da botânica
a dor
Ana Saraiva

Voilà, la vie est une comédie!…

Pour Monsieur Molière
qui a pris soin de quatre pèlerins
on traverse, alors, le pont
vers Moïse et les anciens
regardez en bas
et écoutez
non, pas la vérité
elle noircit le coeur
mais la rumeur
qui rend le prophet humain
sur ce trottoir, c’est la Seine qui coule librement
vers mon propre océan
vous regardez peut-être la pierre et vous vous dites
que la Seine est ailleurs
que l’eau est en bas
encore plus en bas que moi?
écoutez la rumeur
qui nous rend humains
je vous laisse passer
Ana Saraiva

Aniversário…

quando te conheci
eras equilibrista
pousavas cerejas
em bolos festivos
e nas horas vagas
fazias conservas
compotas e pickles
com as convenções
naquele dia,
deste-me um frasco de
tranches d’âge e
uma colher furada
com que sorvo os dias
Ana Saraiva

Nojo…

vives na rua e todos os dias te lavas nela
cospes como um cão cuspiria
há muito tempo que não ris
falas com as latas
as brigadas de socorro
e um ou outro passante
não sei onde defecas
não sei onde sonhas
sei, às minhas custas
e a expensas biográficas
que rejeitaste a água aberta
por onde passaram os meus lábios
nojo de mim?
nojo de mim!
nojo do teu corpo indefeso
perante a minha clara mundanidade
insisti, menti, que a água era virgem
menti, no meio de restos de massa
de cobertores queimados, de pacotes
e plásticos e tecidos que foram roupa
que a água era virgem e a minha intenção impoluta
não te soube explicar que vinha de uma festa agradável
onde copos e bocas e olhares se tocam ritualmente
não te pude dizer que o nojo nos pertence todo a nós
que nos lavamos compulsivamente da porcaria que fazemos
recusaste e tinhas sede
nojo de mim!
Ana Saraiva