A mão (de Sócrates) que embala o berço…

scolll.jpg
Público, 10.06.2008
Se isto é verdade, uma vez mais se confirma que Sócrates vê mais longe com dois olhos do que todos os outros… com três.
Espero, entretanto, que nenhum ministro, seguindo o pedagógico exemplo de Scolari, se lembre de ir ao focinho do primeiro-ministro…
Eu também me sentiria na obrigação de desculpá-lo…

Nascido também a 9 de Dezembro…

malk.jpg
Expresso-Única, 07.05.2008
Há poucos actores com quem eu gostaria de privar. John Malkovich é um deles. Por todas as personagens que já representou e pelos filmes que fez. E por ter também, como eu (e, já agora, como a Ana Saraiva, que habita poeticamente este blogue) nascido a 9 de Dezembro, ainda que um ano depois…

Francisco Lucas Pires…

lp24.jpg
lp22.jpg
lp20.jpg
lp21.jpg
Público, 23.05.2008
Comovedor… o texto que Jacinto Lucas Pires dedica hoje ao pai no Público, dez anos passados sobre a sua morte. Francisco Lucas Pires foi meu professor em Coimbra (e, já agora, professor também da Teresa, a mãe de Jacinto). Era um príncipe: um dos homens mais superiores que eu conheci em toda a minha vida. Politicamente, na altura, estaríamos nos antípodas um do outro, mas nunca as afinidades políticas ditaram ou determinaram os meus cultos ou as minhas amizades. Francisco Lucas Pires era um homem de direita que honrava a direita – e isso, para mim, naquele tempo, fazia toda a diferença, tão canalha era a direita que, em 48 anos, conduzira o país à desgraça.
Olho hoje para o país, reconheço a mediocridade patética dos políticos que julgam governar-nos e tenho saudades, muitas saudades, de homens como Francisco Lucas Pires…

O que a gente descobre quando arruma prateleiras…

Diverti-me hoje a folhear a Vértice. A Vértice era uma revista do caraças! Reparai quem, em Janeiro de 1975, subscrevia uma reprimenda pública a 8 escritores que, no Expresso, tinham ousado publicar “um apelo em defesa da liberdade de escrita“:
verticelista.jpg
A trinta e tal anos de distância, ainda estou a ver esta malta toda a tomar café no Tropical, trocando as últimas sobre a revolução à mesa do Joaquim Namorado. Alguns tinham sido meus professores na Faculdade de Direito: Aníbal Almeida, Joaquim Gomes (Canotilho), Jorge Leite, Orlando de Carvalho, Vital Moreira. A Maria Manuel (a mãe do SIMPLEX e, actualmente, Secretária de Estado) andava, na altura, a tentar renovar comigo e alguns mais o plano de estudos da Faculdade (lembras-te?). O Soveral Martins, que a morte levou depressa, sonhava com a Sierra Maestra, na versão de Guevara. O Severo de Melo antecipava a escola activa. O Catroga embirrava com Handke. O Rui Namorado, do alto da sua imponente figura, tentava libertar-se, poeticamente, das amarras do neo-realismo. O Barata encenava…
Eles eram, na altura, o coração e a cabeça da Vértice, modestamente assumida como “Revista do Racionalismo Moderno“, o que, em Coimbra, não era coisa pouca…
Sócrates, que em Janeiro de 1975 andaria ainda no Liceu, provavelmente, nunca leu a Vértice, nem saberá tão pouco da sua existência. Mas vai ficar surpreendido com este excerto, quase premonitório, do Sumário do número publicado em Julho de 1974. Alguém que lho mostre…

vertice1.jpg
Vértice, Volume XXXIV, Número 365-366, Julho-Julho, Coimbra, 1974

Um verdadeiro Mestre (com maiúscula)…

educ.jpg
Notícias Magazine, 30.12.2007
Há poucas pessoas, em Portugal, a pensarem bem os problemas da educação e do ensino. António Nóvoa* é uma delas. Tudo o que ele diz e escreve reflecte inteligência, estudo, sensibilidade e conhecimento. Distintamente dos gabirus que tanto gostam de arrotar postas de pescada sobre o que não entendem, Nóvoa convida sempre, serenamente, à reflexão e não ao panfletarismo de ocasião. E foi preciso que chegasse a reitor da Universidade de Lisboa para que, finalmente, o país “iletrado” começasse a lê-lo e a ouvi-lo. Espero que aproveite alguma coisa…
* Declaração de interesses: conheço o António Nóvoa desde a juventude e somos amigos. Penso que ainda não é crime…

Saudade…

Francisco Lucas Pires… *
expresso.jpeg
A arrumar papéis antigos, parei nesta fotografia, estampada na edição do Expresso de 9 de Outubro de 1982. A memória recua quase 23 anos. O tempo devora-nos… Ao centro, na fotografia, o Francisco Lucas Pires, então Ministro da Cultura. Dez anos antes, fora meu professor, em Coimbra, de Direito Ultramarino ou Colonial, já não consigo lembrar-me sequer do nome exacto da cadeira. Creio que nem ele levava aquilo muito a sério. Aliás, era uma das facetas mais apelativas da personalidade do Francisco Lucas Pires, o distanciamento irónico com que se via ao espelho. Ele era, sempre, o primeiro a rir de si próprio… Na manhã do 25 de Abril, quando tudo era ainda incerteza, o Francisco Lucas Pires, ao contrário de outros, fez questão de ir à Faculdade e “marcar o ponto”. Não deu “aula”, quis apenas saudar e despedir-se dos alunos. Ele já tinha percebido que a revolução ia virar o país e a universidade do avesso (pelo menos, na epiderme) e que o ano lectivo, para ele, acabava ali. Na grelha curricular do curso de Direito à moda de Coimbra, havia duas disciplinas que, inexoravelmente, estavam predestinadas a morrer com o fascismo: Direito Ultramarino (ou Colonial) e Direito Corporativo (que, sublime ironia, o Vital Moreira chegara a “reger”!). Nessa manhã, eu não fui à Faculdade e não pude ouvir as despedidas do Francisco. Quase dez anos depois, no Pabe, conversámos sobre isso e, sobretudo, rimos muito sobre isso…
O Francisco Lucas Pires era, à sua maneira (muito especial), um homem de direita. Não acreditava excessivamente na bondade da espécie humana e torcia o nariz, politicamente, a todos os messianismos redentores. O convívio intelectual com Beckett, com Camus, com Sartre (que, tão frequentemente, citava nas aulas) e com os pensadores do existencialismo desviara-o do caminho das utopias e das receitas pronto-a-vestir para a salvação da humanidade. O seu antidogmatismo aproximava-o, porém, de uma certa esquerda liberal e estou convencido de que ele teria feito, politicamente, um percurso muito semelhante ao de Freitas do Amaral, se o coração, estupidamente, não lhe tivesse falhado naquela fatídica viagem de automóvel, em 1988. Hoje, dia em que os cristãos celebram a ressurreição de um messias, apeteceu-me evocar aqui a memória de um dos portugueses mais ilustres e brilhantes que tive a honra de conhecer: Francisco Lucas Pires. Não conheço, pessoalmente, o seu filho Jacinto. Tenho acompanhado, à distância, o seu percurso literário. Mas de uma coisa tenho a certeza: em tudo aquilo que ele escreve, de uma forma ou doutra, o pai (desculpa, Teresa, escrevê-lo assim!) está presente… Por isso, posso dizer que o Francisco não morreu…
27 de Março de 2005, dia de Páscoa
* publicado em abnoxio.blogs.sapo.pt