Adela González-Campa…

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Os melómanos habituam-se, ao longo dos anos, a ver os nomes nas capas e nas bulas dos discos, perdão, dos cd’s (ofereço a orelha ao correctivo dos puristas). Adela González-Campa é um nome que, até ontem, habitava o inconsciente da minha memória de melómano. Já tinha passado por ele, mas não o tinha fixado. Ontem, no concerto de Jordi Savall na Póvoa de Varzim, reconheci finalmente a figura. Afinal, há mesmo uma mulher, tocadora de castanholas, que dá pelo nome de Adela González-Campa e que integra uma das formações do Hespèrion XXI…
Há muitas formas de “ouver” um concerto de Música dita Antiga (os “antigos”, mesmo na versão dos “modernos”, estavam muito mais próximos dos deuses do que nós). Eu inclino-me aos pormenores. Ontem, fixei os sentidos na tocadora de castanholas, distantemente postada numa espécie de altar, erguido atrás de todos os instrumentistas e de todos os cantores. Mas era ela, discretamente, que marcava (reproduzo aqui o que li algures) a pulsação vital das peças que punham os ouvintes, mentalmente, a dançar.
Foi, para mim, um espanto. Como as castanholas, que me habituei a associar ao fandango, podem alinhavar o ritmo das violas da gamba, da harpa, da guitarra, do cravo, das vozes, das demais percussões, concorrendo na feérica tapeçaria dos sons…
O volume não faz a história. Frequentemente, é o mínimo que encaminha o destino. Devo a lição a Adela González-Campa. Onde quer que esteja, alguém que lhe diga que fiquei servo das suas castanholas…

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“Ombra mai fu”…

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Frondi tenere e belle
del mio platano amato,
per voi risplenda il fato.
Tuoni, lampi, e procelle
non v’oltraggino mai la cara pace,
né giunga a profanarvi
austro rapace.
Ombra mai fu
di vegetabile
cara ed amabile
soave piú.
Quando, há já muitos anos, me comovi pela primeira vez (como ainda hoje continuo a comover-me) com “Ombra mai fu”, a celebérrima ária de Xerxes, de Haendel, o meu fraco conhecimento do italiano levou-me a pensar que estaria a ouvir uma pungente declaração de amor a alguém distante ou perdido. Só mais tarde vim a perceber que se tratava de um hino a um plátano e que, todavia, a minha primeira impressão não estava errada… A solidez, a resistência, a altivez e a delicada beleza dos plátanos são, metaforicamente, convites ao entendimento do amor e à expressão da saudade…
Toda a minha vida, desde a infância, está, quase umbilicalmente, ligada a um plátano. Quando os meus olhos se cruzam com ele, quando, ainda hoje, procuro a protecção da sua sombra, sinto que pelo seu tronco, pelos seus braços, pelas suas folhas, cresce em direcção à luz a memória mais antiga que me aproxima da eternidade. Ele vigiou e protegeu todos aqueles que deram e dão ainda um sentido à minha existência: os meus avós maternos, os meus pais, os meus filhos, a minha irmã, os meus tios, os meus primos, as mulheres que mais preservaram na ilusão de me resgatar da solidão primitiva.
É um plátano único, que há-de sobreviver fisicamente a todos aqueles que acolheu e que ainda hoje, tantas vezes, distraidamente, o namoram com o olhar ou até com as lágrimas.
Se eu pudesse escolher, livremente, o lugar da minha sepultura, era debaixo dele, na Aveleda, que eu gostaria que me enterrassem. Ombra mai fu…
Fevereiro.2005
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