Acreditai no que quiserdes, mas tende um pouco mais de respeito por vós próprios…

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Público, 18.03.20089
Quando leio estas coisas, já só tenho pena. Sobre a mentira de deus (a mais genial das invenções do homem), constroem-se todas as obediências rastejantes. Onde estão os proxenetas de deus… está sempre a crueldade. Não falo dos poetas de deus, que também os há: falo dos proprietários de deus, dos sumos pontífices, não importa em que versão eclesial. Sim, eu sei: a liberdade individual, o prazer, a felicidade têm que ser reprimidos… para que os deuses sobrevivam e o negócio prospere. Ratzinger não passa de um nazi recauchutado. Imaginai a vida que nos imporia se tivesse ainda algum poder temporal! Que pessoas inteligentes e civilizadas ainda lhe prestem algum tipo de vassalagem é algo que me dói profundamente. Como é possível que tanta maldade ainda seja acolhida com tamanha complacência?!…

Fernanda Câncio e o miserável falseamento das regras do jogo comunicacional…

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António Vitorino? Toda a gente sabe que é do PS e um dos principais conselheiros de Sócrates. Quando ele aparece na RTP1 a comentar a vida política, todos os telespectadores sabem quem estão a ouvir. Não se trata de gato por lebre. As regras do jogo comunicacional são claras.
Augusto Santos Silva? Toda a gente sabe que é ministro do governo de Sócrates. Quando ele aparece nas televisões a discursar, a responder aos jornalistas ou a comentar a vida política, todos os telespectadores sabem quem estão a ouvir. Não se trata de gato por lebre. As regras do jogo comunicacional são claras.
Fernanda Câncio? Quem é Fernanda Câncio? Em geral, as pessoas sabem apenas que é jornalista do DN. Quando ela aparece na TVI 24 a comentar a vida política, os telespectadores esperam dela honestidade intelectual, distanciamento crítico, independência de espírito. De outra forma, servindo-se de gata por lebre, ela estaria a falsear as regras do jogo comunicacional.
Até aqui, penso que nenhum leitor estará em desacordo comigo. Nem o próprio primeiro-ministro.
Acontece, porém, que ontem, na estreia do programa da TVI 24 “A Torto e a Direito”, Fernanda Câncio não teve uma única intervenção que não fosse ditada, descaradamente, pelo propósito de defender ou sustentar as posições de José Sócrates, não se coibindo mesmo, nesse afã, de invocar uma espécie de privilégio informativo. Ela é que sabia como as coisas tinham acontecido. Ela é que sabia o que deveria pensar-se sobre. Eu estava a ouvi-la e a imaginar Sócrates, num auricular, a ditar-lhe os comentários, as interpelações, as próprias indignações. Não estava ali uma jornalista: estava ali, apenas, uma mensageira, um alter ego. Isto, meus senhores e minhas senhoras, é profundamente desonesto, eticamente falando, e viola todas as regras do jogo comunicacional. Nestas circunstâncias, os telespectadores, sobretudo, os mais desprevenidos, comem gata por lebre e estão a ser ludibriados…
Que a TVI, que até tem largas contas a saldar com Sócrates, use a putativa namorada do primeiro-ministro para apimentar um programa do novo canal, entende-se. Que ela se preste a este papel, é humilhante e degradante. É com muita pena que escrevo isto, porque são situações como esta que fazem da política e do jornalismo um pântano abjecto.
Já que ela, pelos vistos, não entende, alguém deveria explicar o óbvio a Fernanda Câncio…

Abençoada diplomacia portuguesa! Afinal, ainda há quem aplauda, em nome do “bom senso” (com hífen e sem ele), a investida “censória” da PSP, em Braga!…

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Os diplomatas, em geral, têm vidas excêntricas, vidas, aliás, que poucos gostariam de ter. Não se deve, por isso, estranhar que tenham também pensamentos excêntricos, tantas vezes enredados em discursos desconexos ou, até mesmo, patetas. Francisco Seixas da Costa, embaixador em Paris, não se distingue da tribo. Repare-se na acutilância e, ao mesmo tempo, na subtileza desta prosa:
Bom senso
Detecto muito de hipocrisia e de oportunismo em algumas das indignações, de cariz quase libertário, que por aí emergiram em face da decisão de mandar recolher, da venda indiscriminada ao público, exemplares de uma obra que, ao que li na imprensa, se apresentava na capa com uma famosa, bela e impúdica pintura de Courbet (coloquem a palavra “Courbet” no Google Images e logo a verão).
A esses espíritos tão sensíveis à preservação, sem limites, do direito de expor em todas as dimensões públicas e privadas, independentemente da idade dos que a elas têm acesso, todo o tipo de obras de arte, eu gostaria de perguntar se acaso têm sobre a mesa da sua sala, à vista das crianças da casa, os albuns desse fotógrafo de eleição que é Mapplehorpe. Ou se considerariam natural se certos poemas conhecidos de Bocage ou de António Botto fizessem parte das leituras postas à disposição dos seus jovens filhos.
Por princípio, não é muito saudável ver os poderes públicos arvorarem-se em juízes do que alguém pode ou não ver. Em regra, tudo deve estar acessível a todos e também começa a ser óbvio que o conceito daquilo que possa ser uma imagem chocante tem vindo a variar ao longo dos anos – com impacto nos critérios do seu acesso a determinadas faixas etárias.
Mas sejamos honestos: neste caso do quadro de Courbet, a questão não é do domínio da censura, mas apenas de mero bom-senso.

O “mero bom senso” (libertado do hífen) recomenda, se bem atinjo o ponto do senhor embaixador, que as autoridades estejam atentas (e vigilantes) ao que por aí se exibe. Nem tudo se pode expor (designadamente, na capa de um livro) e há impudicícias que o tal “bom senso” desaconselha que possam estar ao alcance da infância, da adolescência e, até, da juventude. Daí que se justifique – a dedução impõe-se – a intervenção das autoridades policiais, sempre que os limites do “bom senso” sejam, flagrantemente, ultrapassados. O “bom senso”, presume-se, deve ser a medida da acção policial profiláctica. Salazar, verdadeiramente, não dizia coisa distinta, embora não chamasse “bom senso” aos “valores perenes da pátria”, que, de resto, malandro, só ele sabia quais eram.
O argumentário do senhor embaixador conduz-me, porém, a uma angústia que não sei como resolver, no quadro, claro está, do “bom senso”: como poderá a polícia controlar o que se exibe na internet, sabendo-se, por exemplo, que o governo da República, através do Magalhães, se prepara para colocar a internet à disposição de todas as criancinhas, onde quer que elas se encontrem? Como impedir que as criancinhas, imitando, de resto, o senhor embaixador, “coloquem a palavra “Courbet” no Google” e acedam, num ápice, às imagens dos quadros impúdicos do pintor? Francamente, não sei como responder a esta questão, que não é, obviamente, do domínio da “censura”, mas, como se sabe, do “bom senso” (sem hífen).
Depois, sobra ainda a questão da substância do próprio “bom senso” (sem hífen). Sabendo-se que Portugal é um estado de direito e que não são as autoridades policiais que fazem a lei… como compatibilizar a norma, necessariamente, geral e abstracta, com o “bom senso” oponível a cada situação concreta?
Não tenho resposta para estas angústias. Talvez, por isso mesmo, é que eu não seja embaixador de Portugal em Paris. Com muita pena, aliás, da minha amiga Ana Saraiva, que todos os dias bebe do fino, digo, das luzes…

Portugueses em que gosto de malhar (rubrica dedicada a Augusto S.S.)… 2

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Visão, 05.02.2009
Quando o conheci, ele era um furioso marxista-leninista: usava bigode à Estaline, vestia como Estaline, pensava como Estaline, falava como Estaline. Confesso que nunca, até então, conhecera um “revolucionário” tão quadrado. Mais de trinta anos passados, João Carlos Espada é, agora, um sereníssimo e garbosíssimo académico e um fervoroso católico-liberal, seja lá isso o que for. E aconselha, politicamente, o Presidente da República. Tenho assistido a extraordinárias metamorfoses, mas esta bate todas aos pontos. Cada vez me convenço mais de que Espada não escapará à beatificação e, muito provavelmente, ainda virá a ocupar, no Almanaque de Gotha, um lugar ao lado dos três pastorinhos…

Portugueses em que gosto de malhar (rubrica dedicada a Augusto S.S.)… 1

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Público, 06.02.2009
Manifestamente, anda embebedado de poder. Ele adora fazer-se ouvir. Adora o cheiro da comunicação social. Fica em transe quando palpita um jornalista, um repórter televisivo, um radialista de microfone em punho, Já o vi actuar em directo e percebi. Presentemente, anda tão embebedado que já sente que pode dizer tudo de todos, sem medir as palavras. Os cisnes, antes de morrerem, costumam cantar assim…