Improviso para distrair o olhar do silêncio…

Tomo o teu mundo de empréstimo
mas não me perco nos espelhos
falsamente servidos à interrogação
dos olhares enfeitiçados
nenhuma imagem diz
a incerteza das palavras
com que cativas a mudança
e nela sempre tropeças
confio-te apenas à claridade
das sombras que nos conduzem.

Ademar
20.04.2010

Improviso para despertar…

Os meus santuários
desde a infância
abriram sempre para fora
e todos os cálices que ergui
tinham apenas a forma
de um útero de mãos vazias
com todas as palavras dentro
nos arredores da ausência
falas-me agora de colares
e de aguaceiros azúis
como se a gramática de tantas noites
ainda consentisse entre nós
corrigenda.

Ademar
19.04.2010

Improviso para parêntesis andaluz…

Tenho menos mãos
do que as necessárias
para cruzar as cordas
no andante nocturno
do quarteto nº2 de Borodin
e ainda que te procurasse
em todas as praças e esplanadas
de Sevilha
não te encontraria
que a noite mediterrânica
tão longe dos braços do Guadalquivir
perde-se sempre ou ganha-se
na impaciência das palavras
com que me (a)guardas.

Ademar
18.04.2010

Improviso para escala num cais qualquer…

Suspende uma palavra
uma palavra apenas
de todos e de cada um
dos fios do teu cabelo
e sai à vida assim
para que todos te leiam
no sentido das nuvens
ou do céu enfim azul
e que nenhuma rosa
da cor da casa tão longínqua
diga mais sobre o tempo
que te habita
do que o poema
que um dia escreverás
para quem não sabias.

Ademar
16.04.2010

Improviso tardio para Mumuki…

Se não morrermos esta noite
digo-te
morreremos amanhã
ou talvez depois
sobre a eternidade em Veneza
a Veneza de todos os regressos adiados
não sei de nenhuma certeza
tão exigente como esta
e tão sábia.

Ademar
14.04.2010

Improviso para Sheherazade…

Concordância e saudades
dizes
e vias de extinção
não peças a nenhum deus
o livro de reclamações
nem o mapa íntimo
de todas as distâncias
escreve antes virtudes e rumores
no lugar da ausência
canções de amor talvez
cânticos celestiais
outros sonharão o vento
certamente
mas será ainda na perfeição
que nos guardaremos
como segredo.

Ademar
13.04.2010

Improviso sobre um tema de Louis Armstrong…

Se vivesses
um pouco mais perto
do mundo
dirias talvez
que a felicidade não tem dias
mas átomos apenas
e que não há
na vertigem dos sonhos
costas mais largas
do que as costas
da eternidade
se vivesses
um pouco mais perto
do mundo
talvez soubesses
que o mundo começa e acaba
no olhar com que o abraças.

Ademar
11.04.2010