Improviso para pedir esmola…

A despir-me nas palavras
descurei o guarda-roupa
e a nudez visitou-me
entre rasgões e remendos
não
não me sirvas mais
à mesa do desejo
o vinho
nem a antologia
veste-me apenas
como um sem-abrigo
e diz-me depois
antes não
que me queres assim.

Ademar
30.04.2010

Improviso para chatear um filho da puta que passa muito nas televisões…

És uma pessoa importante
eu sei
todos os dias as televisões me dizem
que és uma pessoa importante
presumo obviamente sobre tu
perdão
sobre ti
coisas óbvias
por exemplo
que caminhas sobre três pernas
que comes com duas bocas
e lambes com todas as línguas
que vês por muitos olhos
e que nos enrabas
pela frente e por trás
desculpa a linguagem
tão pouco consentânea
com a importância que te atribuem.

Ademar
27.04.2010

Improviso para estereotipar…

Sim
os homens e as mulheres
as mulheres e os homens
digo
os machos e as fêmeas
as fêmeas e os machos
não importa por que ordem
(mas eu
denunciado no género
serei nesta desordem
certamente suspeito
reformulo então)
as mulheres e os homens
os homens e as mulheres
digo
as fêmeas e os machos
os machos e as fêmeas
não importa por que ordem
mas
(nenhum poema sobrevive
a um tamanho conflito de nebulosas).

Ademar
26.04.2010

Improviso para dizer a cumplicidade…

Se tu espreitares
no mais íntimo
dos meus olhos
ver-te-ás
e nenhum silêncio
será mais
a cerca do nosso refúgio
se eu espreitar
no mais íntimo
dos teus olhos
ver-me-ei
e nenhum silêncio
será mais
a cerca do nosso refúgio
à volta da mesa
que nos destinaram
uma única cadeira
chegará para os três
e ainda sobraremos.

Ademar
25.04.2010

Improviso para liricar…

O teu silêncio cheira bem
mais intensamente do que a primavera
destas noites
que já prometem todos os vagares
o teu silêncio tem
muitas reservas dentro
o pudor e o poder
das origens da sedução
e o treino da sabedoria
que não arde entre os ponteiros
de nenhum medidor do tempo
o teu silêncio
é uma voz de longe
e tão próxima
como o mar
que intimamente nos embarca.

Ademar
24.04.2010

Improviso para consagrar mais um milagre da natureza, à portuguesa…


Um escaravelho da família dos
rola-bosta ou
(à portuguesa)
vira-merda
chegou a
professor catedrático da
faculdade de direito da
universidade de lisboa
nem kafka antecipou
uma tão extraordinária e medonha
metamorfose
garantem as agências noticiosas
que nunca um escaravelho
oferecera à ciência jurídica
tantas pernas traseiras
e tanto excremento
para definitiva consagração da escola
dita superior
só falta mesmo que o rola-bosta
ou (à portuguesa) vira-merda
junte as apetências biológicas
à ratazana de turno.

Ademar
23.04.2010

Improviso para te dizer ainda Barcelona…

Tens razão
a poesia é a arte superior
da imobilidade
subo e desço as Ramblas
todas as noites
e raramente te encontro
senão nos gestos suspensos
da estátua que todos fotografam
e levam para casa
és tu
e nenhum outro silêncio
tem a eloquência do teu olhar
e uma tão perfeita inexistência.

Ademar
22.04.2010

Improviso para sonata…

Para te colar à memória
de mais uma noite
hesito
entre dois temas
de Johann Sebastian Bach
as mãos e os pés
ou
como se te dissesse
a lua e o sol
há um lugar entre nós
que não nos pertence
essa fronteira
tão apressada na invisibilidade
que só o mistério desenha
na distância e no desejo
das palavras.

Ademar
21.04.2010