Improviso antes de dizer que não sei nadar…

Não tenho
carta de marinheiro
até três milhas do porto de abrigo
mais próximo
navego sempre nas águas interiores
do esquecimento
e nunca me reconheço na memória dos dias
nem na sua opulência
de embarcações e potências instaladas
nada sei
e o mar é apenas o sufixo
em que viajo
antes de todos os naufrágios.

Ademar
10.05.2010

Improviso para amanhecer contigo…

Se visse menos
ver-te-ia melhor
a luz ambiciosa
transpira-me do olhar
e cega-me para a tua verdade
que a tens tão próxima do chão
ou das nuvens
ou do sol
se visse menos
ver-te-ia maior
muito maior do que o silêncio
com que te dizes
nesse dialecto tão antigo.

Ademar
09.05.2010

Improviso para distrair o lirismo…

Abro e fecho agora janelas
para que o pensamento respire
e transpire
todas as casas são universos contidos
e em nenhuma sombra doméstica
perscruto a confidência de uma luz
que nos conjugue na distância
o equilíbrio de todas as memórias é tão precário
que até as palavras tropeçam na tela
quando apenas o silêncio as conduz
se amanhã não chover
subirei os estores
e voarei por aí.

Ademar
08.05.2010

Improviso para explicar a luz…

Imaginai a largueza dos olhos
quando os olhos adormeciam apenas
nas palavras
e todos os horizontes tinham
a narrativa dentro
e todas as imagens
eram tão falsas ou verdadeiras
como as rugas das mãos domesticadoras
imaginai a largueza dos olhos
quando tudo o que se podia saber
cabia na perfeição do pensamento
e nenhum futuro era mais urgente
do que a memória.

Ademar
07.05.2010

Improviso antes do ponto (final)…

Não acrescento véus
ao teu rosto
nem luzes
em que ardesses devagar
no abismo dos meus olhos
todas as imagens são falsas
nada te pertence
nem mesmo as palavras
com que te vestes
sobre a nudez do silêncio
digo
esse tão antigo pudor do Génesis
quando todas as mulheres morriam
no pecado original da imperfeição das serpentes.

Ademar
05.05.2010

Improviso para harpa e umbigo…

Não conheço gajas boas
boas boas boas
só conheço mesmo
as mulheres
que eu conheço
não sei ainda
se é das barbas
ou das mãos
ou da voz
mas todas as mulheres
que eu conheço
se bem que viajassem primeiro
com George Clooney
(opção hormonal)
à falta de melhor
depois
viajariam comigo.

Ademar
04.05.2010

Improviso para não sentenciar o vento…

Por vezes pedem-me uma opinião
uma crítica
eu respondo sempre
que não comento poesia
não sou professor de literatura
nem aspirante a porteiro da fama
basto-me como as crianças
com gostar ou não gostar
da substância e do cheiro das palavras
e mais não digo
a poesia
respeita-se simplesmente assim
como as mãos sempre únicas
de quem a esculpe
e os seus gemidos.

Ademar
02.05.2010

Improviso para cheirar-te…

Alinho olfactos
em nenhuma parte do teu corpo
a tamanha distância impercorrível
e espero simplesmente que se calem
todos os perfumes
todas as fragrâncias
todos os aromas
dos dias lentamente sobrepostos
na aragem do tempo
para
no fim da vadiagem
escutar apenas a essência
da tua mais íntima e líquida e carismática
metamorfose.

Ademar
01.05.2010