Improviso para saudar numa ca(u)sa um grande Amigo…

Para o Henrique Barreto Nunes

Deixa que nesta noite polar
a memória ocupe o pensamento todo
e não sobre lugar na mesa
para mais ninguém
foi aqui (lembras-te?)
que interrrogámos o destino
e o ganhámos
talvez tudo o mais tenha sido em vão
menos aqui
nesta antiquíssima liberdade
que nenhuma ruína calou
nenhum esquecimento.

Ademar
08.01.2010

Improviso para dizer da imitação do mundo…

Excertos de cidades e de lugares
que junto à toa
para fazer um filme sem sentido
com todos os sentidos
de uma ausência em que coubéssemos
um coreto algures
onde não chegámos a tocar
uma gruta um bar um museu
que só abririam no dia seguinte
casas suspensas
sobre os ombros de um Atlas
que não fui eu
uma nebulosa de fogo
sobre um tecto de Verdi
e o mar sempre distante
entre passadiços de nuvens
e azúis incandescentes
o futuro num tear
com toda a memória dentro.

Ademar
03.01.2010

Improviso para ir além de Florença…

Nunca jogues sobre a rede
a rede quer-se
ao alcance da metáfora
não do olhar ou das mãos
não sigas pois o movimento físico
das palavras
nem te exijas a certeza da resposta
pronta
fulminante
definitiva
essa tela que salpicas de lágrimas incolores
nunca terá a luz toda
lembra-te de que os carris
conduzem a Veneza
por Mestre
e que nenhuma ponte abraça
as margens do Adriático
quando morres ou adormeces
na linha do horizonte.

Ademar
02.01.2010