Improviso em resposta a um questionário íntimo…

1. Desmarquei todas as consultas
para não saber a data precisa da minha morte
2. e para não ter de renovar
o guarda-roupa
3. a cor das paredes ficou fantástica
não fora a cegueira das mãos
4. os manuais escolares os jornais e
as revistas velhas não couberam no papelão
5. as estantes da sala não celebraram ainda
o milagre da ressurreição
6. os brinquedos do quarto do espelho
continuam à espera de pilhas novas
7. as velas deixaram de contar
o fogo que as silenciou
8. e as flores que entretanto murcharam
também.

Ademar
20.05.2010

Improviso (mais um) para pedra tumular…

Se renascesse
repetiria tudo outra vez
e acompanhar-me-ia ao piano
sem partitura
que já me saberia de ouvido
ou de cor
voltaria por exemplo a escrever sonetos
quase perfeitos
para a Deolinda
que virginava entre as capelas da Sé
e para a Sameiro
de quem guardo ainda uma fotografia
naturalista
a preto e branco
e para a Conceição
que me acompanhava sempre em silêncio
ou em latim
se calhar já morreram
ou continuam ainda a ler-me em segredo
já sexagenárias
se renascesse
repetiria tudo outra vez
e acompanhar-me-ia ao piano
sem partitura
que já me saberia de ouvido
ou de cor
e regressaria sempre
à lenta memória das teclas
e dos dedos
que tocaram todas as palavras.

Ademar
19.05.2010

Improviso para epopeia e contrafacção…

Hoje morreram em Portugal
até às vinte e três horas
contei-as uma a uma
duzentas e oitenta pessoas
e nasceram
duzentas e setenta e duas
tenho uma hora
uma hora apenas
para inverter o contador da demografia
e suster o défice
pela pátria
como o primeiro-ministro
faço tudo.

Ademar
18.05.2010

Improviso para perguntar afinal o teu nome…

Tanto ou tão breve destino
entre as minhas palavras
e o teu olhar tão fiel
é aqui
todas as noites
neste bar de desterrados
que nos cruzamos
e por nenhuma porta
entramos ou saímos
entre comungarmos
o arbítrio das sombras
numa tela com a forma
de uma cama
ou de uma mesa
sobre a qual sempre adormecêssemos
antes mesmo de nos cuidarmos
a poesia tem as fronteiras exactas
deste silêncio compartilhado
encontramo-nos aqui
como em tempo algum
e seremos sempre felizes
assim.

Ademar
15.05.2010

Improviso gastronómico e muito popular…

Maria de Todas as Alheiras
Bruna Real
no esplendor da nudez mais pedagógica
de Portugal
José Gama
da geração mais antiga dos Gamas
e também a mais sacerdotal
Isaltino Morais
o imortal de Oeiras
(a aguardar presidio)
Jesualdo Ferreira
Luciano Cordeiro
de tão pedestre memória
e
mais célere e celebrado de que todos os demais
o Professor Doutor
por extenso
Ambrósio Asdrúbal Piruças de Aragão e Castela
todos
cidadãos ilustres de Mirandela.

Ademar
14.05.2010

Improviso para desesteriotipar…

Dizias de tudo o que te fazia vibrar
fossem cordas de uma harpa
ou de uma guitarra
ou de um violoncelo
que era romântico
e eu replicava sempre
nenhum adjectivo pertence às coisas
mas a cada um de nós
e tu ficavas confusa
porque não entendias
julgavas talvez
que as flores nascessem românticas
por força de uma lei qualquer
da natureza
um dia saberás que os adjectivos
são a única e exacta medida
da subjectividade
tudo o mais
repartimos com o universo.

Ademar
13.05.2010