Improviso para futurar…

Nasci hoje outra vez
e já não caibo no berço
apenas sei gritar ainda
para que todos me ouçam
quando as luzes se apagam
e já nem a lua me aconchega
no altar da eternidade
nenhum espelho
conta as viagens que ainda farei
nenhuma memória
hoje dou-me lírios apenas
e rosas também
apenas para que saibas
que já não caibo no berço
onde me adormeces.

Ademar
09.12.2009

Improviso policial…

Quis cometer um crime perfeito
mas tu não deixaste
protegeste-te com uma partitura
e aparaste o golpe
muitas palavras depois
invocaste a inteligência
que nunca desarma
e ousaste a nudez
de um ego fortalecido
sim
eu não chegara a feri-lo
acariciara-o apenas.

Ademar
08.12.2009

Improviso para desautorizar todos os estudos de género…

Poderás comer do fruto
de todas as árvores do jardim
disse o Senhor
mas ai que comas da árvore
da ciência do bem e do mal
porque
no dia em que comeres
morrerás
era o sétimo dia da criação
e
depois de produzido o macho
à sua imagem e semelhança
o Senhor contemplou extasiado a sua obra
faltava apenas um retoque
uma nota quase de rodapé
e da costela do macho adormecido
para que eternamente o servisse
o Senhor fez a fêmea
em estado já de embriaguez
garantem as escrituras.

Ademar
07.12.2009

Improviso quase arquitectónico…

Tenho um lugar no pensamento
onde só recebo quem eu procuro
um lugar a que ninguém mais acede
senão exactamente quem eu procuro
não tem portas nem janelas
nem reconhece os dialectos do tempo
ou da circunstância
um lugar de espelhos
onde primeiro os olhares se encontram
antes de toda a descoberta
segue pelo corredor deste poema
lá me encontrarás à tua espera.

Ademar
06.12.2009

Improviso na forma de crónica parlamentar…

Não me faça perguntas
a que eu não queira ou não possa
responder
e se fizer
não espere que eu responda
disse o primeiro-ministro ao deputado
que apenas lhe fazia uma pergunta
há deputados que fingem não perceber à primeira
nem à segunda nem à terceira
que há perguntas a que um primeiro-ministro
não quer ou não pode responder
tem a palavra
para uma interpelação à mesa
o povo.

Ademar
04.12.2009

Improviso para dizer que voltarei amanhã…

Hoje não saí de casa
não passei pelo bar
de todas as noites
onde nos costumamos encontrar
brindei simplesmente à tua ausência
tropeçando na memória
de um olhar que parece sempre chamar-me
quis escrever com todas as letras o teu nome
e não fui capaz
hei-de tirar as impressões digitais
da mesa a que te sentas
quando esperas por mim
e eu passo ao largo do desejo
sem te ver.

Ademar
03.12.2009

Improviso para tecer a ausência…

Entres pela porta
ou por alguma janela
haverá sempre um lugar
para ti
a esta mesa
um prato
ou um livro
ou uma folha de papel
em branco
para que nela possas escrever
tudo o que nunca te disseste
e ninguém ouviu
e saias pela porta
ou por alguma janela
regressarás sempre a ti
no fio que te tece.

Ademar
02.12.2009

Improviso para desrealizar…

A realidade não é
excessivamente importante
e de resto adormece também
como a humanidade
no berço da fadiga
de todas as noites
a realidade que tem
todos os pensamentos dentro
e porém
nenhum mais verdadeiro
do que o berço em que adormece.

Ademar
01.12.2009