Improviso em forma de calendário…

É tão perigoso circular
entre as palavras
numa noite assim
ainda que me desses a mão
e todos os bares abrissem as portas
à evidência do teu olhar
é tão perigoso circular
entre as palavras
numa noite assim
quando todos os verbos
parecem inconjugáveis
e até os pés tropeçam no vento
ou numa fúria ainda mais íntima
o inverno deve ser isto
o último cansaço de nascer.

Ademar
21.12.2009

Improviso mediterrânico…

Falha-me aqui
a disciplina das palavras
sim eu sei
é proibido fumar
e as escadas convidam
a uma lentidão tropical
o mar mais antigo acaba
nesse refúgio em forma de casa
ou poesia
exactamente onde começa
a rota das especiarias
o caminho para Damasco.

Ademar
19.12.2009

Improviso para lembrar Gedeão…

Não me digas em patuá
que nunca me esperaste
além da Taprobana ou das Molucas
fala-me em tâmil
ou numa língua que de todo
eu não entenda
e na mais antiga rota das especiarias
usa-me ainda inteiro ou fracção
pimenta noz-moscarda
canela cravo-da-índia
anis estrelado gengibre
mostarda açafrão
cozinhemo-nos à mesa da aventura
e que o excesso de história
jamais nos naufrague
ao largo de Macau
este bar de todas as noites
que só o futuro encerrou.

Ademar
18.12.2009

Improviso sobre uma canção perfeita…


Tantos destinos
que nunca couberam no índice
dos mapas das nossas vidas
páginas soltas
partituras em branco
mãos trémulas e ausentes
estavas lá
e eu não sabia
era o tempo de não acreditar
em milagres
nem que as vozes chorassem
estavas lá
e nem tu própria sabias
cantavas apenas
para sorrir nas palavras
e ninguém te ouvia
senão
o universo todo.

Ademar
17.12.2009

Improviso para parar, escutar e olhar…

Hoje viajei para trás no tempo
num comboio dos antigos
até à infância do que fomos
inconscientemente feliz
nem pontilhões nem apeadeiros
nem travessas sob os carris
nem locomotivas a carvão
nem aprendizes de caldeireiros
apenas cães envelhecidos
e gestores que nunca picaram
o destino à condição.

Ademar
16.12.2009