Improviso sobre Ausencias, de Astor Piazzolla…

Por que me escreves
se não sei quem és?
por que me falas
se não sei quem és?
por que me olhas
se não sei quem és?
por que me procuras
se não sei quem és?
por que me desejas
se não sei quem és?
por que me tocas
se não sei quem és?
e por que me odeias
se não sabes quem sou?
por que me invejas
se não sabes quem sou?
por que me desprezas
se não sabes quem sou?
por que me persegues
se não sabes quem sou?
por que me agrides
se não sabes quem sou?
etc
aproveitemos melhor o tempo
que o tempo nos consinta
há-de haver no próprio deserto
uma esquina
onde nem na ausência
nos cruzaremos.

Ademar
29.12.2009

Improviso exegético…

Sempre achei que Salomão
na abertura do Cântico dos Cânticos
era um depravado
digo
um geómetra do erotismo
recordo
ah
beija-me com os lábios da tua boca
que o teu amor seja mais delicioso
do que o vinho
que os cheiros do teu corpo me embriaguem
e que o teu nome seja para mim
o mais afrodisíaco dos perfumes
todas as donzelas te desejam
quando te procuro
blablablá
se isto não é um apelo à farra
que eu fique
cego surdo e mudo
e tetraplégico.

Ademar
28.12.2009

Improviso para dizer a última certeza dos amantes…

Serenissimamente
todos os gestos
que não interrogam
nem afrontam
a sabedoria toma sempre o lugar
do silêncio
ou das palavras tranquilas
já não estamos em guerra
nem à procura de uma casa
em que ainda coubéssemos
ou um livro
a verdade aliás
é que deixámos a literatura para trás
como um deserto
e já não tropeçamos nas personagens
que nos serviam de espelho
agora
temos sempre tudo
exactamente
porque nunca esperamos
mais do que nada.

Ademar
27.12.2009

Improviso para dizer que continuarei a ler-te…

Hoje decidi
arrrumar-te na prateleira
das edições raras
incunábulos
almanaques antigos
tiragens numeradas
e coisas assim
nunca imaginei
que coubesses na estante
e que fosses tão fácil
de acomodar
sem um protesto
sem uma lamúria
sem um suspiro
devíamos ser todos assim
uns para os outros
edições raras
impartilháveis.

Ademar
24.12.2009

Improviso para terminar ou iniciar uma tela…

Ainda hoje não sei
se o anel conjugal que deixaste
na casa de banho era teu
e se eras mesmo loira
de nascença
como gostavas de dizer altivamente
lembro-me apenas
da sequência final do último filme
que vimos
podia de facto ter sido o princípio
de uma grande amizade
Rua Mendes dos Remédios
Santa Clara
Coimbra
1975.

Ademar
23.12.2009

Improviso para ficar em casa…

Mais rua
menos rua
que o teu corpo
não seja um bairro estreito
que todos percorram
numa noite de lua cheia
e ainda sobrem muitas horas
para deambular a madrugada
pobre de ti
se não tivesses
como Veneza
canais subterrâneos
pontes que nenhum mapa assinalasse
a eternidade morreria depressa
nas mãos de todos os viajantes.

Ademar
22.12.2009