Improviso para dizer talvez saudade…*

Nunca te esqueças
a vida é um carrocel
estamos sempre a voltar
ao princípio de nós
ao princípio ou ao fim de tudo
mesmo quando julgamos
que partimos
ou apenas sonhamos.

Ademar
10.01.2008
* Para a Conceição, que parte para a Alemanha. O teu lugar na turma nunca mais será ocupado.

Improviso para descuidar amanhã…

O mesmo trilho outonal
um cavalo que pede e tem a mão
o homem ainda não
notícias que vêm
notícias que vão
segredos suspensos na tarde
algures uma clareira sem fogo dentro
ou o fogo todo
e as testemunhas ausentes
o contrato mais uma vez adiado
nos soluços da rebeldia
e um cavalo que pede e tem a mão
o homem ainda não
notícias que vêm
notícias que vão
ecos de vozes que sussurram
passos que deixam sempre pegadas no chão
uma incerteza quase tão antiga
como os dias que a memória consente
mas há mais claridade
na distância dos gestos
talvez menos imprecisão
e um cavalo que pede e tem a mão
o homem ainda não.

Ademar
09.01.2008

Improviso para aperfeiçoar o sol…

Deixo sempre no horizonte uma luz acesa
para que a noite não sofra de insónias
e fecho os olhos para não ver
talvez me leias algures no Japão
ou ainda mais longe ou mais perto
ou sejas tu própria as palavras
que não chego a escrever.

Ademar
08.01.2008

Improviso em tons de arco-íris…

A cegueira
não se recomenda às evidências
tenho ângulos
que os olhos distraem
ou o que sobra deles
não há segunda pessoa
para dizer a poesia
e o singular ignora-me
morro devagar nas palavras
que me estrangulam
há viagens em que tropeço
metáforas pantanosas
e perco sempre o pé da alma
no que escrevo.

Ademar
07.01.2008

Improviso para contrariar a rotina…

Outros olhos
sobre as palavras
ou sobre os corpos que se oferecem
há mais alguém no quarto
do pensamento
mãos à espera de aventurar
territórios desconhecidos
desiludimos a culpa
abrindo a porta a desertos sempre inexplicáveis
há tanta gente só
que aparece apenas acompanhada do universo.

Ademar
06.01.2008

Improviso sobre uma imagem para dizer como se morre…

tib.jpg
Morrerei assim num caminho de outonos
desencontrado talvez do olhar e das mãos
que tantas vezes dispensaste
numa íntima surdez de vibrações e folhas silenciadas
há fúrias e lágrimas a que nenhum coração resiste sempre
e a um certo jeito cansado de encolher os ombros
e as palavras na impaciência de todas as culpas
como se a tortura fosse a última higiene da alma
e só o trabalho redimisse as destemperanças do corpo
tomara que soubesses como se morre assim devagar ou depressa
algemado ao silêncio
na outra margem do sofrimento
não há contexto para dizer ambiguamente a claridade dos dias que vencemos
e em nenhuma data deixámos de ser o que éramos
e o que somos.

Ademar
05.01.2008

Improviso quase bíblico…

Procuro na toalha um segredo
com o nome e a forma exacta do teu corpo
e recolho o cheiro dos lençóis
para que não se perca vestígio algum
há toalhas e lençóis que têm o dom da história
emprestam eternidade a qualquer narrativa.

Ademar
02.01.2008

Improviso para acertar a bússola…

Nos olhos ainda o rasto do teu preto mais íntimo
e o vento no lugar das mãos
e viajo agora contigo
para que a noite encaminhe os teus passos
e uma luz nos proteja
e assim te devolvo ao silêncio
mais antigo de todos
o da nossa infinita perplexidade.

Ademar
01.01.2008