Improviso para heresia democrática…

Servem a vaidade
que os engrandece
e pouco mais
o poder é um jogo de sombras e aparências
disputado num ringue universal
em forma de tela
e as paixões têm rédea curta
nos palcos onde tudo se imita
até a certeza de uma causa
antes da farsa como é sabido
ensaiam a máscara ao espelho
dialogam com o teleponto
treinam frases e gestos
e refinam duas ou três poses de culto
para o retrato de caderneta
e o cartaz da propaganda
nos arraiais deste circo
todas as lágrimas e todos os gritos
são de plástico
até os orgasmos das putas
e tudo se paga
tudo se pega.

Ademar
13.12.2008

Improviso para nota de rodapé…

Evito as palavras que não me obedecem
exijo-me ainda o poder de atracção do centro da terra
mas todos os adjectivos já foram usados e abusados
e a originalidade está pela hora da antologia
a poesia é agora um bordel de magníficas insignificâncias
um bordel barato
ao preço do ego de ocasião
escrevo apenas para repintar o silêncio.

Ademar
12.12.2008

Improviso a pensar na europa…

Tens uma batida velha
swing de passos
que parecem tropeçar sempre na luz
um cheiro a pólvora de liberdade
embrulhada em medos originais
que nunca colonizaste
doem tão pouco as palavras
quando simplesmente nos curamos nelas.

Ademar
11.12.2008

Improviso caleidoscópico…

Nenhum espelho é mais nítido
do que essa água em que te consentes submergir
nenhuma sombra recortará o perfil
do teu corpo fragmentado
perdeste o tempo da perfeição
numa lavoura antiga de incertezas
e a infância que nunca chegaste a brincar
apodreceu-te nas mãos
a luz proporciona-se sempre
à área disponível da alma.

Ademar
09.12.2008

Improviso para adagietto…

Reescrevo sobre Mahler a memória de Visconti
Cannaregio
Santa Croce
San Polo
Dorsoduro
San Marco
Castello
subimos na Piazza ao mais alto do Campanile
a água sabe connosco
e cumprimos sem bagagens a última viagem no vaporetto
nunca um romance tão breve
morreu assim
como se quisesse apenas adormecer entre murmúrios
estamos agora a um olhar do Adriático
sobre o terraço do Hotel dês Bains
há vozes ainda de adolescentes
risos enlaçantes de adolescentes
que parecem suspender a vida num plano-sequência
e o silêncio vagabundo das mulheres
que nunca despem o dever
mesmo quando a harpa sobressai
sobre todas as cordas que hesitam.

Ademar
08.12.2009

Improviso à moda de Aleixo…

Há homens grandes cuja altura
só a morte realça
e homens minúsculos que todos os dias
se põem em bicos de pés
para parecer ainda mais pequenos
do que são
a irrelevância é um estertor de vaidades
os anões não governam mais do que as sombras.

Ademar
07.12.2008

Improviso em dó maior…

Os heróis e os mártires
já só contam para efeitos estatísticos
a exibição do sofrimento
deixou de ser uma virtude teologal
a democracia dispensa agora a grandeza do sacrifício
todas as máscaras e todas as poses são efémeras
e até os deuses insistem em jogar aos dados
a salvação que já a ninguém aproveita
o crime finalmente compensa.

Ademar
06.12.2008

Improviso para resguardar a partitura…

Já não sei escrever cantigas de amigo
nem de amante
tenho as palavras desafinadas
e as cordas suspensas das mãos
no lugar exacto da perplexidade
o amor é uma exigência de iluminação
alimenta-se das mais antigas penumbras
da memória.

Ademar
05.12.2008

Improviso talvez democrático…

Castanholas enfim num passo de dança
sem termo
os dedos voando das trémulas mãos
essa fina cintura que as ancas reprimem
?lantejoulas rápidas?
um fado quase a tiracolo
suspenso de Os Lusíadas
uma guitarra sem cordas
um vibrador sem pilhas
e o Magalhães
qualquer idiota de plástico nos serve
para a patriótica encenação da farsa
bola preta ou bola branca
há-de sair a todos o euromilhões.

Ademar
04.12.2008