Improviso para Confianzas…


Nada que o tango não liberte
o suor ou o pudor
ele há tantas viagens
que não saem do corpo
o cigarro que tu me acendes nos lábios
e o cigarro que eu te acendo na alma
morremos ambos
ou salvamo-nos assim
com este poema não dançaremos
nem nas margens da cama
nem na pista dos olhos
ainda não somos suficientemente estranhos
para entrelaçarmos as coxas
no desejo de um tango interdito a maiores.

Ademar
23.12.2008

Improviso em forma quase de reportagem…

Ruínas que falam
como se a humanidade ainda as tocasse
antes do apodrecimento
as máscaras também derretem
quando ateadas pela raiva
a agenda do fogo pede apenas uma câmara
e a barbárie voa agora com as pedras
de um lado e do outro de nenhuma barricada
pandora percorre a europa descalça
e todos os ventos parecem segui-la.

Ademar
21.12.2008

Improviso para pompa e circunstância…

Colocar a primeira pedra neste poema
digo
a palavra inicial
inaugurar-me solenemente
para mais uma noite
desconhecendo a medida da sofreguidão
desse olhar que me acolhe
ou a indiferença
a poesia é uma embriaguez de palavras
com a alma dentro
nunca sei quem paga a conta do bar
ou o violoncelista
as musas são sempre oferta da casa
como os deuses.

Ademar
20.12.2008

Improviso para antologia…

Ninguém sabe
entre deus e o diabo
de que segredos
me alimento
nem a mim próprio os desvendo
nem a terapeutas confesso
não pertenço a nenhuma tribo
nos meus segredos
nem a nenhuma condição
sou ainda mais livre
do que na morte.

Ademar
19.12.2008

Improviso para antítese…

As mentiras portáteis
pesam muito mais do que as poéticas
deus por exemplo
é um tupperware de mentiras
e a democracia não bebe de outro leite
nem o amor
escrevo ao contrário
por saber donde venho
adormeci há muito a contar ruínas
em vez de carneiros.

Ademar
18.12.2008

Improviso para cântico…

Já escrevi tantas palavras
que sequei o dicionário em que me lia
agora refaço-me do cansaço das mãos
fingindo regressar às origens de mim
por caminhos cujas margens me estranham
esta peregrinação ao contrário
houvesse um deus que me esperasse
ou uma mulher ainda mais absoluta
no princípio de tudo.

Ademar
17.12.2008

Improviso para Desdémona…

As imagens dançam-se
no palco do pensamento
não aspiro a dançar contigo
fora de nós
num lugar que não fosse de absoluto recolhimento
não precisamos de vozes
para nos ouvirmos
nem de braços
para nos enlaçarmos
ele há tantos bazares
em que nunca compraremos o destino
das palavras abençoadas
a perfeição entretece-nos
nesse impossível de nos sabermos.

Ademar
16.12.2008

Improviso para teclar…

Nas palmas das mãos
nunca tentes acariciar o fogo
nenhuma superfície é tão combustível
fecha antes os olhos e sorri
estarás sempre a um passo de nascer
enquanto faltares ao destino.

Ademar
15.12.2008

Improviso quase perfeito…

Não te agradeço o silêncio
nem o mais que de ti sobra
antes e depois das palavras
sempre tão breves e tão irregulares
não te agradeço o pudor nem o medo
sobre os telhados da insónia
em que dormes sem braços
não te agradeço a compreensão
de como tudo tão lentamente floresce
numa primavera que não chegou a visitar-nos
não te agradeço a teimosia das nuvens
nem a ilusão do esquecimento
na incerteza de todas as distâncias inúteis
e menos ainda te agradeço o amor
esse amor sempre arranhado numa corda solta
que de tão pouco assim nos serve
quando troca a partitura.

Ademar
14.12.2008