Improviso oriental…

Conduz-me discretamente
pelos canais da cidade proibida
que nenhuma vagina seja perfeita
entre tantos rumores de mulheres eclipsadas
nenhuma luz
às sombras
subtraia o teu corpo
entre os muros mais altos e impenetráveis
da cidade proibida
tudo hoje tem o sentido das trevas
os guardas à distância
observam-nos apenas
todas as vozes que caminham por nós
parecem ausentes
este é o país das bandeiras trocadas
aquele em que nos perderemos sempre
depois do pôr do sol.

Ademar
31.12.2008

Improviso quase prosaico…

Hoje fui ao banco e descobri
que o meu gestor de conta
ainda é primo de Ali Babá
pelo lado dos quarenta ladrões
pedi o livro de reclamações
chamaram a polícia
fiquei de preventiva.

Ademar
30.12.2008

Improviso para descaprichar…

Escrevo apenas
para que saibas que estou vivo
ainda estou vivo nas palavras que escorro
pelo menos nestas
estar vivo é uma graça da natureza
frequentemente uma piada
faz-se tudo o que se pode para morrer
e a morte joga connosco à cabra-cega
fingindo que não percebe
essa puta vadia e calaceira.

Ademar
29.12.2008

Improviso para roteiro…

Faremos um filme sem figurantes
nem duplos
e os cenários não serão de papel
mas de barro que domine
os segredos íntimos do fogo
sem palavras
sem efeitos
a nudez apenas das serpentes
envenenando o tempo.

Ademar
28.12.2008

Improviso gramatical…

Perguntas-me se te guardo
não sei se gralhaste o verbo
e antes quisesses perguntar
se te aguardo
as palavras e a vida são assim
por uma vogal se ganha
por uma vogal se perde.

Ademar
28.12.2008

Improviso quase metereológico…

À minha volta
todas as estradas foram ficando intransitáveis
dizem as notícias
que as pontes são agora
muros de neve
que nenhuma luz atravessa
aqueço as mãos numa sombra
que a noite enregela
e deixo-me acender nas palavras
à distância.

Ademar
27.12.2008

Improviso para amortizar algo muito parecido com o amor…

Bebo ainda à tua saúde
amiga
como se agora só agora
a eternidade nos consentisse
um brinde fora de tempo
sempre estivemos do mesmo lado do balcão ou do cais
pagando a meias um destino impartilhável
e ouvindo aos marinheiros tantas epopeias sem gente dentro
como nos filmes de Fassbinder
não há saúde agora a que possamos mais beber
senão à nossa
foi por ela que perdemos e ganhámos tudo
e foi por nós que sempre fingimos
que não era nada connosco.

Ademar
26.12.2008

Improviso ainda para vaguear…

Um violoncelo e um acordeão
um binómio mais do que improvável
entre tantas mãos que tropeçam
na partitura desta noite
sempre tão enjoada de palavras
sento os gestos à mesa
e sirvo-me sobre a toalha de linho
a memória de todas as ausências
que dormem comigo.

Ademar
24.12.2008