Improviso para estranhar o cais de que partes…

Entre tantas vozes
talvez reconheças a minha
e se não a voz
pelo menos o silêncio
entre as palavras
a respiração
a verdade irreparável de todos os medos
diante do espectro da fome que te devora
nunca sei a que mesa te sentarás
nunca sei se a montanha terá regresso
e eu estarei à espera
tens o hábito de partir
sempre que eu chego mais perto.

Ademar
28.11.2007

Improviso para antecipar a planície…

Já fui muitas vezes ao centro da terra
e não voltei

tenho as paredes grudadas à superfície das mãos
e tacteio apenas
erro as janelas e as portas
para sair
e fico sempre aqui
a escorrer pensamentos de clausura
há quem fuja para as montanhas
e não olhe para trás
talvez eu já não caiba em nenhuma tenda
talvez a noite lá fora
esteja ainda mais fria do que as palavras
que enregelam ao vento
talvez eu tropeçasse os caminhos
talvez errasse também os mapas
há passos em que o coração fraqueja
vivo agora mais próximo dos pés
que não troco
sei que nenhuma montanha é eterna.

Ademar
27.11.2007

Improviso para alvorar…

O medo não tem palavras
sofre de todos os gestos em que tropeças
esse abraço que não ousas
o olhar que recusas
as mãos que o pudor algema
e todos os silêncios que gritam
anoiteces sempre devagar
adiando a morte na alvorada.

Ademar
26.11.2007

Improviso para lembrar talvez a minha mãe…

Há palavras que convidam à infância
escrevo agora a palavra
puré
e regresso à mesa da Cruz de Pedra
ninguém fazia puré como a D.Laura
talvez fosse das batatas
ou do leite
ou da manteiga
ou do apuro no limite de todos os gestos
não há receita para a perfeição
também ninguém fazia como ela
o arroz de cabidela
dito
pica no chão
(nunca percebi porquê)
talvez um excesso de sangue ou de zelo
esse feitiço
de associar a memória a tudo o que enternece
“só vou porque quero que faças puré”
não fiz e vieste.

Ademar
25.11.2007

Improviso para memória talvez futura…

Poderia agradecer-te os violinos
em vez do piano
o colo talvez ao contrário
de tantas teclas
ou tantas cordas
a serpente enrolada assim
na amnésia da infância
e a fome da montanha que sorri
a outras fomes
poderia agradecer-te a conivência
da mantra
se o Tibete não estivesse tão próximo
ou tão longe.

Ademar
25.11.2007