Improviso sobre uma tela…

Todos os silêncios que embrulhas e me ofereces
têm a vida dentro a vida toda
essa respiração distraída
nos olhos que se cansam tão depressa de ver
tenho fome de palavras
que não me pertençam
atrapalho as noites
nas duas mãos que te sobram.

Ademar
17.12.2007

Improviso ainda gramatical…

Nunca entenderei nunca
repito o advérbio de tempo
para que o verbo
ainda que no futuro
não se sinta tão só
o entendimento
nunca conjuga na primeira pessoa do singular
nunca
mas se me concederes o teu pronome
entenderemos os dois
talvez no presente do indicativo.

Ademar
16.12.2007

Improviso para voltar ao princípio…

Ponte suspensa sobre um leito de cogumelos
e nenhuma margem antes ou depois
não tenho mãos nem olhos para a colheita
apenas um precipício para saltar
se não temesse errar o salto e morrer contigo
cresces não sei de que chão
há fungos de formas que me confundem
silêncios que não ouço dentro de mim.

Ademar
16.12.2007

Improviso para completar a ausência…

Morro talvez mais depressa
do que a própria morte contava
errei a janela do tempo
e troquei sem regresso a direcção das asas
quando os pés já tropeçavam
agora nem a voz me pertence
apenas as mãos que ainda escrevem
a distância na noite imprevista
as grades impostas à saudade
a trela tão lassa
dir-te-ei fugitiva que me sinto credor
de uma morte que não suba nem desça montanhas
em silêncio.

Ademar
15.12.2007

Improviso para adormecer o silêncio…

Corri quilómetros de palavras
para chegar aqui
à margem menos distante do lago
de todas as sombras
desacorrentei memórias
de outros silêncios
para não ir ao fundo
talvez seja inútil dizer-te
que não há noite
em que a lua adormeça.

Ademar
14.12.2007

Improviso para negar a superstição…

Todas as noites servem
para Sherazade
não importa a fase da lua
nem a face
todas as noites
o mesmo eco que respira
o mesmo silêncio
a mesma teimosia
e o mesmo implícito convite à voz do dia seguinte
na distância de todas as noites
talvez morramos amanhã
sem conhecer o fim da história
talvez amanhã seja
a milésima segunda noite
que não chegou a ser escrita
amanhã sexta-feira
mas já não dia treze.

Ademar
13.12.2007

Improviso outonal…

Tenho imagens de cogumelos nos olhos
e de azevinho e musgo
como nos presépios da infância
e ainda sinto o frio nos pés da manta morta
adormecida no chão do outono
não sei se todos os cogumelos crescem assim
numa quase indiferença por quem passa e os colhe
ou não
recordo a espontaneidade e o silêncio das sombras
reflectidas na água
diante desse altar em que apetece sempre sacrificar a renúncia
volto a fechar os olhos
e dirijo a mão ao teu peito
que uma vez mais desperta
dois cogumelos selvagens
mais do que perfeitos.

Ademar
12.12.2007

Improviso para dizer da técnica de educar os cães…

Tantas palavras desencontradas
tantas pessoas dentro de uma só
tantas esquinas tantas encruzilhadas
a arte ou a sabedoria
de esperar sempre o inesperado
e a paciência e a teimosia
o silêncio de quase todas as horas
e raras vezes a euforia
tantos gestos que naufragam o entendimento
não há rio de caudal mais incerto
não há cais tão cheio e tão vazio de outra gente
podes vir com a multidão
ou ainda mais ausente
mostra-me as mãos
mostra-me os dentes
e fala-me outra vez da educação dos cães
que não ladram nem ganem
como se falasses apenas de uma condição
que ninguém melhor do que tu poderia conhecer
tu
que nasceste ou renasceste entre os lobos
nas vésperas do inverno.

Ademar
11.12.2007

Improviso no condicional…

Se a vida fosse tão perfeita como as palavras
se as palavras capturassem a vida
e lhe impusessem algemas
se tudo fosse tão simples
como a noite que não cansa
nem sofre de insónias
se o sol não adormecesse sobre si próprio
se nenhuma manhã parecesse distinta
da anterior e da próxima
e se o metro nunca parasse
diante da janela dos teus olhos
se o medo não tivesse a forma de uma cela
talvez a vida pudesse ser mesmo
uma tapeçaria de palavras inúteis
um supremo desleixo de sentidos.

Ademar
10.12.2007

Improviso para dizer obrigado…

Gestos que nunca se completam
palavras que ficam sempre por dizer
a porta que se abre
e um escudo que recolhe as mãos
ou seria um elmo?
há livros que nunca chegam tarde
poemas que viajam clandestinamente
colos que não cansam
por agora (dizes) fica tudo oferecido
agradecerei depois.

Ademar
09.12.2007