Improviso para dizer a sabedoria…

Antes das palavras o silêncio
e depois também
nunca esperei menos
nunca espero mais
há uma sabedoria que não se aprende nos livros
e nenhuma escola ensina
sabedoria
que tu converteste numa espécie de arte
a arte do recolhimento.

Ademar
28.12.2007

Improviso para beber-te…

Ninguém reclama tanto das palavras
e nenhuma posição faz justiça à intensidade do teu corpo
e à leveza
há uma perfeição antiga no silêncio em que te escondes
um recato que acolhe uma profusão de mistérios
o mais original e impartilhável dos teus segredos
que continuo à espera que derrames nos meus lábios.

Ademar
27.12.2007

Improviso para parecer de bússola…

Sobram sempre apenas cenários
casas incompletas
silêncios de portas e janelas que já não abrem nem fecham
há nomes de pedras sobre o lodo
que não decifro
e vestigios de rituais que dizes satânicos
talvez nenhum tronco renasça das águas
como o primeiro
na memória dos caminhos que agora se perdem na indiferença de quase tudo o que já foi
há perguntas a que nunca respondes
mistérios que sobram sempre para nós.

Ademar
26.12.2007

Improviso sobre a água…

Talvez um dia as palavras se esgotem
de tanto serem usadas em vão
ou talvez um dia deixes de respirar ao contrário
como se apenas vivesses para dentro
nenhuma sombra pode mais
do que a luz que a projecta.

Ademar
25.12.2007

Improviso para dizer como bebes…

O liquido acaricia apenas os lábios
as mãos suspendem o gesto
no copo que a lingua trava
não é assim distinto no mais
nenhuma ausência com código que não domines
nenhum verbo que não conjuges no condicional e no singular
a vida em ti sofre de espasmos
há um intervalo entre o que pensas e o que desejas
um intervalo em que não cabe ninguém
senão um deserto de sombras
tenho tantas palavras de vantagem sobre ti
tantos anos tantas certezas
e tão pouco destino
o pensamento fechado numa cela
e as chaves fora.

Ademar
24.12.2007

Improviso para pedir o natal…

Se me deixasses repousar a cabeça na tua fúria
talvez adormecesses
não te peço uma gravidez de melancias
nem o sangue perfeito de um olhar iluminado
contento-me com o trivial
tudo o que já foste capaz de me dar.

Ademar
21.12.2007

Improviso sobre a arte do demónio…

Uma ideia apenas
mas que faça parte de ti
com palavras dentro
as palavras necessárias
(não são precisas todas)
mas o corpo inteiro
indivisível
uma ideia que te congregue
que não deixe de fora nenhuma ilusão
nenhuma fantasia
nenhum sentimento
e que sopre tão cortante e definitiva como o vento
na montanha que não contas
uma ideia apenas
mas que seja tua
e revolva todos os ecos
dos precipícios que conjuraste.

Ademar
20.12.2007

Improviso sobre um auto-retrato…

Já fui todas as palavras
que não ousaste dizer
as mãos algemadas
numa culpa antiga de gestos
uma quase impotência
finjo que não vejo
o fogo da distância tão próxima
o fogo e o vento gelado
e subo a todas as montanhas
para uivar com os lobos
não lamento nada
escrevo apenas
para que te ouças.

Ademar
19.12.2007


Que dizem as imagens do que fomos? Que diz esta imagem do que fui? Não importa quando. A memória que retemos das pessoas começa sempre por fixar imagens. Depois, talvez, palavras. Por fim, as vozes. E, porém, são as vozes que prolongam por mais tempo a nossa identidade. Não há duas vozes iguais. Talvez, por isso, a música resista melhor do que a poesia à erosão do próprio tempo. A eternidade dos sons pode sempre muito mais do que a eternidade das palavras. As imagens, essas, estão sempre a mudar. Nós é que, frequentemente, não reparamos. Continuo a falar para ser ouvido. E, se possível, vivido…

Improviso quântico…

Sim claro as palavras
as palavras excedem-te
as palavras confundem-te
andas às voltas com as palavras
e desentendes-te sempre
não há silêncios em que caibam
todas as palavras que sangram
tropeças sempre nas palavras
e repetes mecanicamente os mesmos substantivos
como se nenhuma gramática
pudesse ser revista e actualizada
tempo e espaço
espaço e tempo
e a morte que devora tudo
nas entrelinhas ilegíveis de Einstein.

Ademar
18.12.2007