Improviso confidencial…

Confidencias-me diariamente
o medo e o orgulho do sofrimento
lentamente
desapossas-te do corpo que te serviu
e agora serve apenas
espantosa viagem essa
do alto-mar para o cais dos espinhos
o universo em ti todo a nado
metáfora de uma paixão talvez sem falhas.

Ademar
29.12.2006

Improviso sobre uma imagem…

Donde sai de ti
o pensamento que finge não ver?
onde começam e acabam os teus braços
e as tuas pernas
e onde se cruzam?
há um sinal no horizonte do corpo
que quase te desvenda
um enigma em forma de vela
uma insinuação de género
uma sombra de antiquíssimo pudor.

Ademar
27.12.2006

Improviso com partitura…

A tua voz vem de muito mais longe
para trás ficam
os limites que te imponho
quando ainda cantavas livremente
e não obedecias a partituras
entras-me agora por todos os ouvidos
e serpenteias-me os braços
em direcção ao peito
o único alvo que não erras.

Ademar
27.12.2006

Improviso para voar sobre o atlântico…

Não há mãos que triunfem sobre as palavras
nem as mãos que te acordassem dessa tela
onde quase repousas
não há mãos nem chicotes nem algemas
o teu corpo pede agora viagens imateriais
exige o cárcere sem grades
suplica evidências que neguem a superfície do espelho
já quase obedeces apenas a ti própria
um pouco mais de submissão e
poderás conceder-te finalmente a liberdade
de voares nas minhas asas.

Ademar
26.12.2006

Antologia poética (446)…

Improviso para contar que regressei do Mali…

No deserto
o mar deve dizer-se
como tu o dizes
e eu que nada entendo
do que dizes
embora perceba tudo
até o mar
esse mar eternamente imutável
na voz das mulheres
que desertam contigo.

Ademar
16.08.2006
publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (445)…

Improviso em forma de haiku para me viajar subúrbio…

Já me circum-naveguei tantas vezes
que perdi a noção do centro histórico de mim
agora viajo-me subúrbio.

Ademar
18.08.2006
publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt