Antologia poética (453)…

Improviso para aliviar ausências…

Nunca aprendi a dizer
adeus
destituí-me para renúncias
herdei talvez
de minha mãe
esta incapacidade
a morte
que se sentava sempre à mesa
e entretinha as ausências
e eu que comia depressa
para não ouvir
a única janela era interior
e abria para a cozinha
donde vinham todos os cheiros
e todas as vozes
que transgrediam o silêncio
a infância
naquele tempo
em que ninguém se despedia
e todos voltavam
a memória das pessoas
parecia fazer parte delas
não havia palavras
para ensinar o esquecimento.

Ademar
10.08.2006
publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (452)…

Improviso sobre Diabaté…

Vivemos em corpos trocados
agora fechamos os olhos para não vermos
há uma fronteira de invisualidade
que ao mesmo tempo nos separa e aproxima
cegámos o desejo
e agora tacteamo-nos.

Ademar
13.08.2006
publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (451)…

Improviso para violino, guitarra e medo…

Seria talvez
o último encore
ou o primeiro de todos
mas tu não quiseste arriscá-lo
trocaste o violino pelo medo
e falhaste uma vez mais a partitura.

Ademar
14.08.2006
publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (450)…

Improviso para dizer o cais…

Empresto-te a mão
apenas uma delas
a mão de que não preciso
para escrever que não há rostos perfeitos
destinos escritos a fogo
na intensidade dos olhares
uma voz uma pronúncia
e o sangue que corre
por fora de nós
entrando nessa corrente universal
que aproxima e afasta os corpos
que se aguardam no cais
agora já posso desembarcar nos teus silêncios
tocar a imagem
segredar-te ao ouvido os versos
que tu seguramente completarás
como se sempre tivesses adivinhado
as saudades que esperavam
os lábios entreabertos
o sorriso suspenso
e o mais que não vejo
talvez essa íntima fracção
de uma vontade de regresso
que esvoaça imperceptivelmente dos olhos.

Ademar
15.08.2006
publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (449)…

Improviso para explicar tudo ao contrário…

A porta abre-se para o mar
e é do mar que tu vens
como se os teus braços fossem ondas
e tudo afinal fizesse sentido
nessa ausência ilíquida de formas
um corpo suspenso sobre um horizonte
de renúncias
a âncora subindo de ti
em direcção às nuvens que te esperam
e a bússola talvez nos teus olhos
parada exactamente nesse ponto
em que tudo começa.

Ademar
15.08.2006
publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (447)

Improviso sobre Yamore…

Vagueias o amor em pedaços
repartes-te assim
ouves quando não vês
se perdesses os olhos
verias com as mãos
se as mãos não vissem
talvez cheirassem
e
ainda que mutilada de todos os sentidos
continuarias a pensar-me
o amor tem silêncios
que só tu ouvirás.

Ademar
16.08.2006
publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt