Improviso sobre todas as mulheres e nenhuma…

Uma mulher é
uma mulher
uma mulher
uma mulher
as mulheres choram
as mulheres gemem
as mulheres sangram
as mulheres não dormem
as mulheres desconhecem o plural
dos substantivos masculinos
e femininos
quando é o caso
as mulheres têm muito mais
do que duas pernas
e dois braços
quando sorriem
sorriem por todos os lábios
e os seus olhos perscrutam sempre
o invisível
mulheres-bruxas
mulheres-feiticeiras
mulheres-absolutas
como diria Herberto Helder
nesse poema contínuo
que nem a morte interromperá
mulheres que nunca jogam em serviço
mulheres que sonham
destinos sempre improváveis
que serpenteiam ausências
através do desejo dos homens
e das outras mulheres
quando é o caso
que silenciam e gritam
que seduzem e fogem
que abrigam e desabrigam
e nunca deixam de amar
mulheres servidas eternamente à poesia
porque só a poesia as serve
nessa fronteira intangível
das palavras que sabem tudo
dizendo nada.

Ademar
11.09.2006

Improviso para contar cadáveres…

Entre a morte e a ausência
que já mal distingo
vagueio neste labirinto de sombras
rastos vestígios sinais
pijamas que ainda cheiram
chinelos que ficaram órfãos de pés
toalhas de banho distraídas de corpos
que não voltarão aqui a humedecer
dizes
talvez o mel e as tostas integrais
a lingerie esquecida na gaveta dos acessórios
a máquina de filmar
com o desejo todo lá dentro
e as laranjas para o sumo que já ninguém bebe
e o haxixe que já ninguém fuma
e os lençóis e as almofadas que dormem finalmente
a indiferença
amanhã regressarei ao cemitério
para contar de novo os cadáveres
falta um.

Ademar
10.09.2006

Improviso heterónimo…

Não me falta uma cama para adormecer
falta-me apenas uma almofada
com a forma talvez do teu corpo
e uma voz que secretamente me recorde
que deixei enfim de morrer.

Ademar
08.09.2006

Improviso da cor do tijolo…

São códigos
quase metáforas
muito mais do que um problema de cor
ou de formato
talvez uma intriga de olhares
uma reserva de mãos
memórias de outras telas
quando quase tudo
ainda esperava por mim
lê-me bem nesse tijolo
e faz-me renascer.

Ademar
04.09.2006

Improviso de escárnio e bem-dizer…

Esbarro sempre
senhora
na metafísica
uma prima da noite aliás
diagnosticou-me há muito a deficiência
défice congénito de glamour
parece que eu devia usar jeans
(escreve-se assim?)
e camisas largonas
diz ela
estampadas à maneira
percebi
com este magro q.i.
que sou completamente destituído
de maneiras
a Caras não vai decerto
com a minha
de resto senhora
acumulo deficiências
nasci no norte
vivo no norte
e não vou a festas
(festas é em casa
dizia a minha mãe)
para tacanho e provinciano
(está a ver?)
não me falta nada
tenho menos serventia
do que um preservativo furado
as melhores pilas da nação
já se sabe
estão em Lisboa
ou em trânsito para o Algarve
e eu perdi-me da minha
agora
já só uso os dedos das mãos
(quando não me atrapalham)
para blogar poesia.

Ademar
03.09.2006