Antologia poética (460)…

Improviso sobre o fogo em que ardemos…

Como Marley
poderia também dizer-te
No Woman No Cry
as lágrimas não abrem as janelas
que deixámos fechar
e há manhãs de sumo de laranja
que não voltaremos a beber
as saudades tropeçam no destino
e nós tropeçamos nas saudades
sobra ainda esta fuligem de fogo
que nos sufoca por dentro
como se continuássemos a arder.

Ademar
07.08.2006
publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia póetica (459)…

Improviso sobre “Caro mio ben”, de Giordani…

Cecilia
no Teatro Olímpico
de Vicenza
cantando apenas para nós
(ficaste com as fotografias)
Caro mio ben
de Giuseppe Giordani
credimi almen
senza di te
languisce il cor
a voz no palco de todas as máscaras
as estátuas espreitando-nos
a antiguidade ali tão perto de nós
e tu subindo e descendo os degraus
à procura do ângulo que falha sempre
il tuo fedel
sospira ognor
cessa crudel
tanto rigor
caro mio ben
Cecilia Bartoli
Agosto de 2003
(digo: Junho de 1998).

Ademar
07.08.2006
publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Improviso para vigiar o teu sono…

Nesse sonho viajas por mim
e vais ainda mais longe
do que já te imaginaste
a realidade do teu desejo
tem agora dimensões que desconhecias
e nao há célula do teu corpo
que me vire as costas
como na fotografia
o teu dicionário íntimo soletra palavras
princesa puta escrava
e acrescenta-lhes todos os adjectivos
com que te fantasias
nao há terminologia agora que te termine
renasces sempre em todos os sonhos.

Ademar
06.01.2006

Antologia poética (458)…

Improviso para segredar ao ouvido…

Há segredos
que eu não dispo para ninguém
senão para ti
que vives dentro deles
como numa espécie de concha da alma
seria inútil negar-te o que sabes
porque sempre o soubeste
mesmo antes de mim.

Ademar
08.08.2006
publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (457)…

Improviso sobre uma ária de J.S.Bach…

Que os meus olhos sempre despertos
só adormecessem por dentro dos teus
que as nossas mãos
não errassem as cordas da guitarra nem a partitura
que não houvesse mais corpo entre nós
para além do pensamento
e que até as palavras perdessem
a noção do tempo
que tudo
fosse simples delicado e perfeito
como nesta ária de Bach
uma nudez de saudades
um silêncio de lágrimas
a eternidade cantada assim
num sorriso sem data.

Ademar
08.08.2006
publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (456)…

Improviso para explicar que a poesia deve ser outra coisa…

Depois da morte
a vida deve ter mais
do que intervalos
entre as ausências
perguntas-me se aguento
e eu respondo
que tentarei
não saberia sequer dizer-te
o que espero
ou mesmo se espero
este intervalo
já faz parte de mim
sou uma saudade do que fui
talvez a mesma saudade
que te leva a perguntar-me
se aguento
pudesse eu saber
o quê.

Ademar
08.08.2006
publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (455)…

Improviso para adormecer pássaros…

Com a simplicidade dos crentes
contaram-me hoje
que alguém
por amor
fingiu deixar de amar quem amava
só para que a gaiola se abrisse
e o pássaro aprisionado
finalmente pudesse voar
em direcção à gaiola que
por direito da paixão
julgava pertencer-lhe
estórias
que a literatura inventa.

Ademar
08.08.2006
publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (454)…

Improviso para antecipar o caminho inverso…

Ei-lo
o homem
exactamente à medida da tua paixão
medida de todas as paixões
o primeiro
que riu contigo
que disse talvez que eras única
que te serviu a vida
numa girândola de ilusões
ei-lo
uma vez mais
adolescendo contigo
inventando madrugadas
que jogam a tua ausência
um dia regressarás a ti
pelo caminho inverso.

Ademar
09.08.2006
publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Improviso sobre Touch Me…

Há pepinos que cheiram ainda às minhas mãos
quando ouves comigo Touch Me
The Doors
lembras-te?
aquela batida que quase se confundia com o coração
e que só parava na espira seguinte do vinil
digo na vida seguinte
e as estrelas que não calavam a chuva
naquela letra que nunca foi de poema
come on come on come on
now touch me baby
e a promessa de todos os céus por azular
e mesmo o sopro que não faltava
não digo o instrumento
porque nunca percebi de metais.

Ademar
03.01.2006