Antologia poética (470)…

Improviso para imaginar a Europa a partir do Picoto…

Talvez da lixeira do Picoto
ainda se veja a cidade
antes de todas as guerras
a ponte que um dia terá sido romana
sobre o Guadalquivir
ou Rialto de todas as setas
alombando sobre o grande canal
os olhos que mergulham para dentro
cruzam todas as memórias
o flamenco e as máscaras
a certeza da porta fechada
que se abre para a noite
quando tu chegas e já não queres deitar-te
e lá em baixo outro canal
com as suas pontes de cimento
que ninguém atravessa
e Paris que corre entre nós
como se lá tivéssemos vivido
esta ausência de bússulas
que nos viaja
este mapa impossível
de tantas saudades
sem data e sem lugar
já estivemos lá
e perdemo-nos sempre.

Ademar
01.08.2006
publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (469)…

Improviso para Bach (ou para ti)…

Se entrasses agora
por aquela porta
ouvirias Bach
serias Bach
e eu continuaria a desfolhar em vão
a partitura
atento apenas às tuas mãos
vazias sempre de teclas.

Ademar
02.08.2006
publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (468)…

Improviso sobre a mentira…

A mentira
é uma aprendizagem
aprendi a mentir
no confessionário
diante de uma sombra
que me interrogava
em nome de um deus fardado
eu confessava espontaneamente
todos os pecados
que ele esperava
os pecados do corpo
e até os pecados da alma
tudo a preto-e-branco
e sem genérico ou legendas
cinema mudo para cegos
foi assim
entre perfis de altares vazios
que eu aprendi a mentir
a mim próprio
pecado
de todos o mais capital.

Ademar
03.08.2006
publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (467)…

Improviso para Brecht… *

Brecht
meu cúmplice de tantos dramas
a guerra por aqui
está pela hora do nosso inimigo de sempre
degrada-se o armamento
com o excesso de uso
e os projécteis
já não matam como outrora
inquieta-me todo este desperdício
hoje dispara-se à toa
falta treino de poupança
aos generais
o crédito sopra a indústria da morte
e a morte coitada
faz horas extraordinárias
para abastecer o mercado
mas a guerra não pára
a guerra não pára
e os orçamentos não chegam
para pagar tanta guerra
acabaremos todos nos braços da banca
essa puta inefável.

Ademar
02.08.2006
* A imagem que ilustra o “improviso” reproduz uma litografia de Mabel Dwight.
publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (466)…

Improviso para dizer por que fico…

Há viagens
que o meu corpo já não suporta
viagens à volta de mim
comigo ausente
viagens
por onde nunca serei
o meu corpo
exige-me agora raízes
para voar.

Ademar
03.08.2006
publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (464)…

Improviso em forma de arquipélago…

Esperaste comigo
tempo de mais
ou o tempo indispensável
eu era apenas um aeroporto periférico
donde talvez deixassem um dia de partir
(acreditaste)
os aviões para os Açores
um daqueles aeroportos em que só pousamos
por razões de escala
as molduras servem para todos os retratos
mas há retratos que não cabem
na única moldura que somos
sempre te disse (lembras-te?)
que há viagens que eternamente adolescemos
eu era apenas um berço tardio
a mais longínqua e inabitável de todas as ilhas.

Ademar
05.08.2006
publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (463)…

Improviso para dois cravos e todas as cordas…

Ouve
hoje descobri no fundo de mim
uma lágrima
aproveitei para chorar
inadvertidamente
sobre os vinis em terceira ou quarta mão
que um dia me trouxeste das Canárias
a agulha tropeça como eu nas espiras
como se o andante do concerto de Bach tardasse
em dó menor para dois cravos
BWV 1062
ainda há gemidos que eu ouço
no sofá ao fundo da sala
quando tiravas os óculos
para não veres que era eu
nunca me explicaste
por que eram precisos tantos dedos
para tocar um instrumento tão delicado
Gustav Leonhardt.

Ademar
06.08.2006
publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (462)…

Improviso para distrair o abandono…

Não há segredos
para explicar o regresso
a vertigem do eterno retorno
a nostalgia
transporta-nos sempre aos embalos iniciais
como se apenas no passado
de todos os abandonos
pudéssemos ainda encontrar algum conforto
para o próprio abandono.

Ademar
06.08.2006
publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (461)…

Improviso para violino imaginário…

Se ainda te lembras
foi em Salò
o berço de Gaspare
junto à Piazza Duomo
que comprei
Il Trillo del Diavolo
que agora ouço
tentaste explicar-me a minudência técnica
mas eu não percebi
faltava nas tuas mãos
talvez para a dança da vida breve de Falla
(a aula prática)
um violino
sobrava-nos antes a imaginação de Pier Paolo Pasolini
para todo o horror dos 120 dias de Sodoma
que nos levara àquelas margens tardias do Garda
ainda voltámos a Salò
mas já não a tempo de reescrever a história
a nossa.

Ademar
07.08.2006
publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt