Antologia poética (25)…

Improviso sobre a arte da caça…

A pele
arranhada dos tigres ausentes
(ou seria a alma da mobília?)
a floresta tem tantos silêncios felinos
os segredos é que ainda não estão
ao alcance de todos.

Ademar
30.03.2005
publicado em abnoxio.blogs.sapo.pt

Antologia poética (24)…

Improviso em forma de uivo…

Há quem se canse de latir em segredo
outros ladram para calar o silêncio das noites
desenhas-te na alma
o mapa das solidões animais.

Ademar
31.03.2005
publicado em abnoxio.blogs.sapo.pt

Antologia poética (23)…

Improviso sobre um desenho de Almada (2)…

Talvez não fosses tu quando mordesses
talvez não fosses tu quando arranhasses
talvez não fosses tu quando gemesses ou gritasses
talvez não fosses tu quando lambesses
talvez não fosses tu quando cheirasses
talvez não fosses tu quando saltasses e fugisses
talvez não fosses tu quando aninhasses
talvez não fosse tu quando escorresses
talvez não fosses tu quando montasses
talvez esse animal que trazes pela coleira
dependurado do instinto.

Ademar
28.03.2005
publicado em abnoxio.blogs.sapo.pt

Antologia poética (22)…

Improviso sobre um desenho de Almada (1)…

Não tenho medidas para a perfeição dos corpos
aprendi na catequese da intimidade
que todos os corpos são imperfeitos
porque neles projectamos sempre alguma ausência
gestos ou formas que não casam exactamente com o desejo
ou talvez mesmo o imperceptível o movimento
que arranha por dentro o olhar e nos cega.

Ademar
28.03.2005
publicado em abnoxio.blogs.sapo.pt

Antologia poética (21)…

Improviso lesa-pátria…

Tenho Portugal atravessado algures em mim
entre o cansaço e a desilusão
pátria género indefinido
macho nas caravelas e fêmea
na vaga espera de todos os solstícios
este excesso de luz que nos cega
esta modorra de negreiros extintos
farsa quase milenar de mascarados
Portugal das cenas do ódio
e de todas as ceias de cardeais
Portugal dos pequeninos
e das mais belas aldeias moribundas
em concurso de sombras
e da padralhada de junqueiro
arena antiga de toureiros e fadistas
e barões ao balcão da mercearia
Portugal também ele exausto
quase tanto como nós.

Ademar
26.02.2005
publicado em abnoxio.blogs.sapo.pt

Antologia poética (20)…

Improviso sobre ninguém…

Às escondidas eternamente dos meus pais
venho há muitos anos do futuro
a dançar com alguém que desconheço
uma mulher (suspeito)
porque só as mulheres dançam assim
nos meus braços vazios
é em ti que eu me projecto em movimento
quando desejo ninguém.

Ademar
26.02.2005
publicado em abnoxio.blogs.sapo.pt

Antologia poética (19)…

Improviso para violoncelo e silêncio…

Há dias em que homossexualmente me basto
com as suites para violoncelo de
Johann Sebastian Bach
não preciso de mais
para antecipar a superior e feminina
musicalidade do silêncio que me espera
depois da última nota.

Ademar
27.02.2005
publicado em abnoxio.blogs.sapo.pt

Antologia poética (18)…

Improviso quase musical…

Não tenho batuta nem maestro que me dirija
quando as palavras descendo pelas mãos
me instrumentam
toco-me de ouvido
eu próprio sou a partitura das notas
que fixam os silêncios do meu corpo
que falam
viajo numa galáxia de vozes
entre mim e todos os outros.

Ademar
08.02.2005
publicado em abnoxio.blogs.sapo.pt

Antologia poética (17)…

Improviso sobre o regresso…

Com a alma de inverno
fui procurar-me na primavera e voltei
os olhos perfumados de camélias altivas
e as mãos nervosamente suspensas
sobre o tacto prometido
não sou predestinável a viagens impossíveis
tenho o treino e a teimosia dos navegadores solitários
que nunca recuam
perante os mais íntimos horizontes do medo.

Ademar
05.02.2005
publicado em abnoxio.blogs.sapo.pt

Antologia poética (16)…

Improviso sobre um abandono de camélias…

Tenho um quintal
plantado na saudade da infância
a que subia por uma estreita escada de granito
sofridamente talhada numa vertente de séculos
era lá que eu me esculpia solitário
entre nomes de coisas que pareciam sorrir
à lógica ainda refractária do meu entendimento
eu não sabia ainda de fronteiras marítimas
nem de caravelas galopantes
mas todos os meus sentidos costumavam dialogar em segredo
com o mistério das formas que me renasciam
interrogando a luz e o cheiro
daquelas corolas que a minha mãe
dizia exiladas do oriente
só muito mais tarde compreendi que as japoneiras
precisavam do silêncio dos meus olhos
para florir neste inverno.

Ademar
02.02.2005
publicado em abnoxio.blogs.sapo.pt