Retomando um poema escrito sobre Walk on by…

Improviso geracional, escrito sobre “Walk on by”, de Isaac Hayes (1969)…

Li Marcuse
mas cheguei atrasado a Berkeley e a Nanterre
comecei por acreditar em Dubcek
mas Kafka reteve-me no aeroporto de todas as dúvidas
e já não apanhei a tempo
o avião para Praga
tentei ainda Woodstock (depois de ir à Lua)
mas a lotação estava esgotada
e quando finalmente
desci em Coimbra B
até o Alberto já tinha sido mobilizado
para a guerra colonial
e não fui além do Easy Rider
entre baladas de protesto
tenho andado sempre um passo atrás
da história que me destinaram
mas continuo a recusar a amnésia
com Walk on by.

Ademar
01.05.2005
publicado em abnoxio.blogs.sapo.pt

Antologia poética (107)…

Improviso para uma leitora que esbarra na “abstracção” da minha poesia…

Quando começo a viagem do poema
desconstruo-me sempre
nunca sei que sentidos me esperam
na esquina das palavras
vou por aí
desvendando-me
talvez encontre algures um leitor
que me convide para um copo
no bar além da tal esquina
que nunca antes atravessara
ou talvez regresse sozinho ao espelho
como se nem tivesse chegado a partir
a viagem do poema
é sempre a incógnita
dos olhares que me acompanham
há dias em que saio de casa
e nem os cegos dão por mim.

Ademar
10.08.2005
publicado em abnoxio2.blogs.sapo.pt

Antologia poética (34)…

Improviso erótico…

De vez em quando apetece-me a reciclagem
deposito-me num contentor
e fico à espera que me levem
para a incineradora mais próxima
sinto que adoeço do lixo acumulado
depuro-me no fogo.

Ademar
20.03.2005
publicado em abnoxio.blogs.sapo.pt

Antologia poética (33)…

Improviso (em prosa?) sobre um acordeão esquecido…

Há um instrumento musical em que sempre tropeço,
quando me levam pela mão a ouvi-lo: o acordeão.
Sento-me na soleira da porta da casa dos meus pais
fecho os olhos para fingir de cego
(ou fixo-os num ponto qualquer ausente em mim)
e toco.
Toco aquele velho e trôpego acordeão,
enquanto as beatas de mantilha negra
a caminho do ofício do terço (ou seria da verbena?)
deixam a moeda distraída no chapéu virado do avesso,
como agora a minha memória.
Os homens não levam a mão ao bolso.
A caridade é feminina.
E eu continuo a tocar para ninguém
o acordeão que me escorre dos dedos
(ou será da alma?).
Hei-de procurar-me lá:
na soleira da casa onde nasci.
Talvez me encontre
(ou a partitura)…

Ademar
15.03.2005
publicado em abnoxio.blogs.sapo.pt

Antologia poética (32)…

Improviso sobre um estudo de Malhoa (3)…

Há sempre em mim
uma criança que te espreita e procura
regresso no fim ao princípio de tudo
para que me acolhas e rejeites.

Ademar
18.03.2005
publicado em abnoxio.blogs.sapo.pt

Antologia poética (31)…

Improviso sobre um estudo de Malhoa (2)…

A metade da mulher que eu não reconheço
pertence à imaginação
é a parte que brinca
com a liquidez marítima dos meus olhos.

Ademar
18.03.2005
publicado em abnoxio.blogs.sapo.pt

Antologia poética (30)…

Improviso sobre um estudo de Malhoa (1)…

Não sei se saio do teu corpo
ou das vestes que o prolongam
escondo-me sempre atrás do desejo
para parecer ausente.

Ademar
18.03.2005
publicado em abnoxio.blogs.sapo.pt

Antologia poética (29)…

Improviso sobre a eutanásia…

Não quero que me mates
se fores capaz de entender a diferença
pedir-te-ei simplesmente
que me ajudes a morrer.

Ademar
25.03.2005
publicado em abnoxio.blogs.sapo.pt

Antologia poética (26)…

Improviso sobre a gaguez do silêncio…

Perguntas-me pelo libreto
como se as árias que arrisco nesta descontínua partitura
já não fossem suficientes
para me cantar
digo-te
não tenho a paciência interior
dos maratonistas da alma
continuo fechado no quarto da infância
entre dicionários cromos e legos
a minha mãe ainda bate à porta
e zanga-se com a chave por dentro
continuo a improvisar os medos da infância
já escrevi e reescrevo aqui
hei-de morrer de inibições
ainda que te desiludas
negar-me-ei sempre o libreto
talvez eu sofra
de uma patologia estranha e quase arcaica
este silêncio sôfrego
e tantas vezes gaguejante.

Ademar
24.02.2005
publicado em abnoxio.blogs.sapo.pt