Antologia poética (431)…

Telegramando…

Não me esperes do outro lado da sebe stop
Não me obrigues a saltar sobre o muro
que posso cair e partir a bússola stop
Vem ao meu encontro procura-me stop
Estarei onde tu quiseres stop
e trarei comigo um sinal de luz
nos olhos cansados mas ainda abertos stop
para que me distingas na noite stop
no cinzento baço da penumbra dos bosques
por entre os pirilampos stop

Ademar
publicado em “Descansando do Futuro – Reserva de Intimidade”, Edições Asa, 2003

Antologia poética (27)…

Improviso para desaprender o futuro…

Já nada peço ao espelho
distraí-me da eternidade
e o tempo corre agora para trás
entre imagens em que já não me revejo
desaprendo-me lentamente
de me espreitar no futuro.

Ademar
07.12.2004
publicado em abnoxio.blogs.sapo.pt

Antologia poética (13) …

Testamento apócrifo de Alexandre Magno, rei da Macedónia …

De Aristóteles aprendi
que a natureza de cada um
é a sua máxima autoridade
e por isso a minha ambição
não se deteve diante de nenhuma fronteira
a eternidade que escutei em cada batalha
foi a única medida da razão
que a mim próprio me impus
persegui apenas um sonho
e a esse sonho sacrifiquei tudo e todos
menos a vaidade da grandeza que me prometera
não poupei traições nem desconfianças
mas fui magnânimo
com todos os cronistas de aquém e de além-mar
e os vencidos que se ofereceram à vassalagem
em troca do perdão
não vacilei diante dos inimigos
nem temi confrontos desiguais
e aceitei o preço mais alto da solidão
porque esse é o destino impartilhável
dos inventores de futuro
o poder construí-o sobre o mito da invencibilidade
e nem na morte abdiquei dele
digo
de mim
herança intransmissível
para que ninguém o diminuísse
o meu sonho teria que morrer comigo.

Ademar
15.12.2004
recuperado de abnoxio.blogs.sapo.pt

Antologia poética (12)…

Improviso quase poético em forma de brinquedo…

Nem sempre o caminho
é voltar para trás
há esquinas em que apetece
enganar o destino
e seguir numa paralela
há poemas assim como crianças
escondidas debaixo da cama
para não serem vistas
eu tenho uma cama de pregos
por cima das palavras
em que me escondo.

Ademar
27.12.2004
recuperado de abnoxio.blogs.sapo.pt

Antologia poética (10)…

Improviso através das grades…

Memória cela
como fugir dela?…
como voltar?…
perdi a chave
para poder entrar em mim
e sair de mim
sempre que quiser.

Ademar
23.10.2004
publicado em abnoxio.blogs.sapo.pt

Antologia poética (9)…

My moleskine…

Parece que estamos sempre de partida
para sítio nenhum
viajamos incógnitos no silêncio
entre todos os passados
e todos os futuros
e um dia finalmente
abandonamo-nos a descansar
no cais do esquecimento
chorando um a um
como fazem os náufragos
todos os navios que nos adiaram.

Ademar
18.10.2004
publicado em abnoxio.blogs.sapo.pt

Antologia poética (8)…

Escrito sobre o “Agnus Dei”, de Frank Martin

Há palavras que se anunciam e me despertam
e outras que sem bater à porta entram por mim adentro
sorrateiramente
adoentando-me
Sou em estado de palavras
Não sei donde venho
ignoro todas as origens que me transportam
Por isso
peço apenas hospedagem ou internamento a mim próprio
e ofereço-me às palavras
para sobreviver com elas.

Ademar
10.Julho.2004
publicado em abnoxio.blogs.sapo.pt

Antologia poética (7)…

Escrito sobre “Christmas Music from Aquitanian Monasteries” (12th century)

Moro na cidade de baixo
esquecido do rumo de outras cidades
Nem campos nem desertos
É daqui que vejo tudo o que sobra para os meus olhos
a rigorosa incontinência dos gestos das pessoas comuns
que já não aspiram a altares na embriaguês dos desejos
e os caminhos circulares dos que ainda procuram as pontes
que nunca existiram
Nem florestas nem praias
Na cidade de baixo
já não há vestígios das sete portas
e a esfinge sou eu.

Ademar
11.Julho.2004
publicado em abnoxio.blogs.sapo.pt

Antologia poética (6)…

Iniciação…

Não cobiço nem disputo os teus olhos
não estou sequer à espera que me deixes ver através dos teus olhos
nem sei tão pouco se quero ver o que vêem e do modo como vêem os teus olhos
Nada do que possas ver me levará a ver e a pensar contigo
se eu não for capaz de aprender a ver pelos meus olhos e a pensar comigo
Não me digas como se caminha e por onde é o caminho
deixa-me simplesmente acompanhar-te quando eu quiser
Se o caminho dos teus passos estiver iluminado
pela mais cintilante das estrelas que espreitam as noites e os dias
mesmo que tu me percas e eu te perca
algures na caminhada certamente nos reencontraremos
Não me expliques como deverei ser
quando um dia as circunstâncias quiserem que eu me encontre
no espaço e no tempo de condições que tu entendes e dominas
Semeia-te como és e oferece-te simplesmente à colheita de todas as horas
Não me prendas as mãos
não faças delas instrumento dócil de inspirações que ainda não vivi
Deixa-me arriscar o barro talvez impróprio
na oficina onde ganham forma e paixão todos os sonhos que antecipam o futuro
E não me obrigues a ler os livros que eu ainda não adivinhei
nem queiras que eu saiba o que ainda não sou capaz de interrogar
Protege-me das incursões obrigatórias que sufocam o prazer da descoberta
e com o silêncio (intimamente sábio) das tuas palavras e dos teus gestos
ajuda-me serenamente a ler e a escrever a minha própria vida.

Ademar
Junho.2000
publicado em “Descansando do Futuro (Reserva de Intimidade)”, Asa, 2003