Pornografia intemporal à moda de Braga…

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Esta estátua de Diana, a deusa da caça, foi durante um quarto de século (grosso modo, entre 1951 e 1974) um dos ex-líbris de Braga. Indígenas e forasteiros acorriam ao Nosso Café, na então Avenida Marechal Gomes da Costa (hoje, como antes, da Liberdade), para confirmar se a estátua estava ou não descoberta. Conforme os humores de quem mandava na parvónia, em nome de Salazar e Cerejeira, Diana vestia-se ou despia-se. Era o Portugal dos Pequeninos à moda de Braga.
O Nosso Café que eu conheci já não existe e, francamente, não sei que destino foi dado a Diana. A pornografia, hoje, é outra. Tem a forma da ponta de um báculo arquiepiscopal…

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O que a gente descobre quando arruma prateleiras…

Diverti-me hoje a folhear a Vértice. A Vértice era uma revista do caraças! Reparai quem, em Janeiro de 1975, subscrevia uma reprimenda pública a 8 escritores que, no Expresso, tinham ousado publicar “um apelo em defesa da liberdade de escrita“:
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A trinta e tal anos de distância, ainda estou a ver esta malta toda a tomar café no Tropical, trocando as últimas sobre a revolução à mesa do Joaquim Namorado. Alguns tinham sido meus professores na Faculdade de Direito: Aníbal Almeida, Joaquim Gomes (Canotilho), Jorge Leite, Orlando de Carvalho, Vital Moreira. A Maria Manuel (a mãe do SIMPLEX e, actualmente, Secretária de Estado) andava, na altura, a tentar renovar comigo e alguns mais o plano de estudos da Faculdade (lembras-te?). O Soveral Martins, que a morte levou depressa, sonhava com a Sierra Maestra, na versão de Guevara. O Severo de Melo antecipava a escola activa. O Catroga embirrava com Handke. O Rui Namorado, do alto da sua imponente figura, tentava libertar-se, poeticamente, das amarras do neo-realismo. O Barata encenava…
Eles eram, na altura, o coração e a cabeça da Vértice, modestamente assumida como “Revista do Racionalismo Moderno“, o que, em Coimbra, não era coisa pouca…
Sócrates, que em Janeiro de 1975 andaria ainda no Liceu, provavelmente, nunca leu a Vértice, nem saberá tão pouco da sua existência. Mas vai ficar surpreendido com este excerto, quase premonitório, do Sumário do número publicado em Julho de 1974. Alguém que lho mostre…

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Vértice, Volume XXXIV, Número 365-366, Julho-Julho, Coimbra, 1974