Quem terá escrito, em 1965, este panegírico a Salazar?…

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Em 1965, recém-licenciado em Direito, morria de amores por Salazar. Em 1969, quatro anos depois, Marcello Caetano chamou-o para o governo. O 25 de Abril apeou-o da manjedoura. Fez o luto que o decoro impunha, mas rapidamente se converteu à democracia. E, pouco tempo depois, regressava discretamente à manjedoura. Em dez anos, passou do salazarismo para o marcelismo e do marcelismo para a democracia-cristã. São estes os portugueses que, sentados quase sempre à mesa do orçamento e acumulando reformas, nos conduzem alegremente na senda do défice e que, de vez em quando, nos impõem, pela pátria, sacrifícios. Reconheceis o autor deste panegírico a Salazar? Claro que não reconheceis…

Quem terá escrito, em 1965, este panegírico a Salazar?…

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Era, na altura, um jovem, recém-licenciado em Direito, em Coimbra. Marcello Caetano, em 1969, chamá-lo-ia para o governo. O 25 de Abril apeou-o da manjedoura. Fez o luto que o decoro impunha, mas converteu-se, rapidamente, à democracia. E regressou, discretamente, à manjedoura. Estarei a falar de quem?…

A minha memória mais intensa do dia 25 de Abril de 1974…

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Se for vivo, suponho que sim, terá oitenta anos (nasceu em Novembro de 1929). Dá pelo nome de António Castanheira Neves e fez carreira como professor da Faculdade de Direito de Coimbra, onde, como aluno, o conheci, no dealbar dos anos setenta do século passado. Foi o professor mais incompetente que tive na Faculdade: não conseguia comunicar, nem se fazia entender. Os alunos saíam das aulas a perguntar uns para os outros: o que é que ele disse? E riam. O homem era completamente destituído de competências comunicacionais, mas fez toda uma brilhante carreira universitária a escrever e a publicar para os mortos, que os vivos não faziam parte do seu mundo. Castanheira Neves era um produto refinadíssimo do conúbio entre um certo salazarismo envergonhado (fora, de resto, procurador à Câmara Corporativa) e a igreja católica, que representou em diversas instâncias. Não lhe quero mal: tenho pena dele, acho que era, como professor e como ser humano, um tipo profundamente infeliz, que só disseminava à sua volta a infelicidade. Nada aprendi com ele, a não ser a distrair o tédio…

No dia 25 de Abril de 1974, quando chegou à Faculdade para dar aulas (como se nada tivesse, entretanto, acontecido no país), Castanheira Neves só não foi agredido (e, porventura, barbaramente agredido) porque um grupo de ex-alunos, entre os quais eu me encontrava, o defendeu e o escoltou. Todos ali o odiávamos ou detestávamos, mas… o bom senso triunfou. Ele era tão medíocre e tão grotesco que não merecia que o transformássemos em mártir da revolução. E nada de grave ou irreparável lhe aconteceu. Ouviu uns insultos, mas ninguém lhe tocou. E jamais me esqueci ou esquecerei do pânico que vi nos seus olhos quando os alunos o rodearam e começaram a invectivá-lo. O pobre homem deve ter pensado que dali já não saía vivo. Mas saiu… e sem um arranhão. Pelo menos, na pele. Só não sei se algum dia recuperou do susto do 25 de Abril…

A igreja católica já fez tanto mal à humanidade (já tentou crucificá-la de tantas e variadas maneiras) que não há perdão que lhe valha…

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DN, 03.04.2010

Nenhuma organização, em dois mil anos de história, fez tanto mal e matou tanto e tão impunemente como a igreja católica. Se o deus de que se reclama não fosse uma ficção… ele próprio, por amor à humanidade, já se teria encarregado de a extinguir…