Estou na Lua…

Quando o Alexandre, aí com doze ou treze anos, me deu a ouvir pela primeira vez Estou na Lua… sorri e disse as palavras de circunstância que um pai costuma dizer sempre a um filho, quando o filho partilha com ele as suas invenções. Estava então muito longe de imaginar que, passados uns anos, Portugal inteiro cantaria esta musiquinha. Recordo-a aqui, neste vídeo, só para chatear o meu filho!…

Ainda a Matemática…

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Público, 21.06.2008
Começo por uma espécie de declaração de interesses: tenho um filho no 9º ano (o Francisco), que fez ontem esta prova. E também ele a considerou… fácil, opinião, de resto, corroborada pela mãe (psicóloga), que reviu e corrigiu com ele a prova. Convém, porém, dizer que o Francisco, não “estudando” muito e considerando a escola e as aulas “uma seca”, sempre foi um “bom aluno” a Matemática (principalmente, porque sempre foi muito estimulado pelos pais a desenvolver o cálculo mental a partir da resolução de problemas) . Nos dois testes de simulação do exame, feitos no terceiro período, obteve, respectivamente, 100% e 88%. Pelo que fez ontem, penso que terá no exame uma classificação que não andará muito longe desses valores. E só não terá 100% porque… continua a controlar mal a ansiedade (um dos problemas, aliás, dos… exames).
Numa perspectiva meramente egoísta, e pensando apenas no Francisco, eu preferiria que a prova tivesse sido mais difícil. Mas eu sou professor e sei muito bem do que a casa gasta. A formação lógico-matemática dos nossos alunos do básico, em geral, é absolutamente catastrófica. E há muitos anos que recebo no secundário rapazes e raparigas que, para além de não saberem a tabuada, não são sequer capazes de enunciar e resolver, por exemplo, uma regra de três simples. Já escrevi muito sobre isto e sobre as suas causas. E é por isso que reajo sempre tão mal à demagogia e à verdade sobranceira dos… “sábios” (putativos ou encartados)…
Nuno Crato, por exemplo, convertido nos últimos anos em guru do ensino da Matemática, considera que a culpa é da… pedagogia romântica e do eduquês. Ou seja, a culpa não estaria tanto nos currículos, nos programas e na organização dos processos de aprendizagem, mas nos métodos de ensino, métodos esses que seriam impostos ou sugeridos pelos burocratas do Ministério da Educação, malevolamente influenciados pelo construtivismo.
Devo dizer, ao contrário do que, por vezes, possa parecer, que em alguns aspectos reconheço que Nuno Crato tem razão. Eu também concordo, por exemplo, que “não é limitando a aprendizagem de rotinas que se desenvolve o raciocínio independente“. E também considero que “a formação de base“, a aquisição e assimilação de “padrões de raciocínio,” é essencial e determinante da aprendizagem. O problema passa por aqui, mas não se esgota aqui.
O raciocínio lógico-matemático desenvolve-se em espiral, a partir do entendimento do mundo e da vida que o aluno é estimulado a estruturar. Parte do reconhecimento da realidade para uma crescente abstracção. E esse é o papel dos professores: orientar e amparar os alunos nessa viagem interior. O conhecimento que não seja permanentemente integrado e assimilado gerará apenas uma ilusão de conhecimento, que a higiene da memória condenará rapidamente ao… esquecimento. Mas isso implicará não apenas a individualização do ensino, adequado às capacidades e aos ritmos de aprendizagem de cada aluno, mas também uma flexibilização de programas e conteúdos. A ideia de que todos os alunos, independentemente da sua maturidade e dos conhecimentos que já assimilaram, são capazes de aprender tudo ao mesmo tempo, só porque o professor ensina bem, é uma ideia quase criminosa. O currículo tem de ser sempre ajustado individualmente e de uma forma… construtiva. E isso só se consegue com diversificação de métodos e de rotinas, permanente atenção ao percurso de aprendizagem de cada aluno e… inteligência pedagógica, muita inteligência pedagógica. Exactamente o contrário do que sucede há muitos anos na escola portuguesa. Mais chumbo, menos chumbo, mais exame, menos exame, a escola portuguesa, em matéria de ensino e de resultados de aprendizagem, não difere em quase nada da escola que eu comecei a frequentar como aluno há 50 anos atrás. Nuno Crato, apesar dos galões que tanto gosta de ostentar, ainda não percebeu isto…

Duas imagens com endereço…

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Janeiro de 1995. Aveleda. O Francisco e o Baixinho. O Francisco tem hoje 15 anos. O Baixinho teria um pouco mais, se ainda existisse. Não sei se a Laura conhece esta fotografia. Se o Segundo Volume do Diário fosse ilustrado, esta imagem teria de lá estar. Em vários momentos. Há Diários que têm mais vida dentro do que a maior parte dos romances…
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Julho de 1995. Aveleda. Ainda o Francisco. À direita, estava a Laura, que não aparece na fotografia. A memória extravasa sempre o olhar…

Improviso sobre um azulejo…

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Uma criança perguntou-me hoje
se a felicidade podia ser estampada
num azulejo
estampada não
respondi
tecida apenas
a fonte da felicidade
está no tear
(expliquei-lhe o que era um tear)
e na inteligência das mãos
que distinguem e entrelaçam os fios
disse-me que entendera.

Ademar
29.04.2008

Cinco fotografias para a Laura, em dia de aniversário…

Esta é a forma mais simples de, publicamente, te dar hoje os parabéns… Presumo que não vias, há muito, estas fotografias. Podia ter escolhido outras: escolhi estas. Não saberia dizer porquê. Talvez tu saibas. Tens sempre uma explicação racional para tudo…

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Esta fotografia, tirada na Póvoa de Varzim, está datada pelo punho do nosso pai: 23.07.1961. Muitas vezes foi assim nas nossas vidas: eu sorria, enquanto tu choravas. Os cancros que te visitaram (eu sei e tu sabes) são lágrimas que erraram a alma…

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No segundo volume do Diário escreves sobre o Baixinho. Este, no teu colo de adolescente, é o Tzara, um cão surrealista. Ao fundo, uma ponte centenária que já não existe. Sobre ela, como atestam outras fotografias, tinham namorado os nossos pais. À distância, como na época se impunha. A mesma distância, aliás, a que sempre nos guardaram…

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Eu tenho o hábito de não datar as fotografias que faço, como se, afinal, aspirasse a que o tempo não entrasse por elas. Este é um pormenor de uma fotografia tirada pouco antes do 25 de Abril, num estádio que ainda se chamava 28 de Maio. Um ano depois, derrubada a ditadura, passaria a… 1º de Maio. Lembras-te das palavras cínicas e sábias de Tomasi di Lampedusa? É preciso que alguma coisa mude para que tudo fique na mesma…

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Diante desta mesma coluna, na Aveleda, posaram quase todos, os velhos e os novos (como na sequência final de um filme de espectros). Como diante do espigueiro, que aliás já não existe. A eternidade das coisas não está em nós, mas nelas próprias. Esta fotografia sobreviver-nos-á…

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Este é o “menino” a que te diriges, comovedoramente, no segundo volume do Diário. A fotografia é de Agosto de 1993: tinha então o Francisco 7 meses. Passaram 15 anos. As partituras voam agora sobre o piano…

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Este post é só para “chatear” os meus filhos mais velhos: o Alexandre (em cima) e o Francisco (em baixo). O Alexandre já é um trintão e o Francisco, hoje com 15 anos, já é mais alto (e continua a ser muito mais bonito) do que o pai.
Deixo o Henrique, o benjamim, de fora, porque ainda tem apenas 10 anos e a internet, nestas coisas, não se recomenda a imprudências…

“Life is a video game”…

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É cada vez mais difícil ser pai e educador…
Tenho a sorte de ter um filho adolescente que adora jogar futebol e que é capaz de trocar quase tudo pelo prazer de pontapear uma bola. Quando vejo os colegas dele fechados em casa a simular assaltos e a “matar polícias” em jogos de video, mais ainda me apetece alimentar a paixão do Francisco pelo futebol.
De vez em quando (a pressão dos pares, na adolescência, é terrível), o Francisco “namora” certos jogos de video. O último chamava-se “GTA San Andreas”. Percebi que era o jogo da moda entre os colegas. Vi a “bula” e fiquei assustado. É um jogo que simula assaltos e assassinatos de polícias, numa cadeia verdadeiramente infernal de violência gratuita. A empresa que comercializa o jogo, farisaicamente, desaconselha a sua venda a menores de 18 anos. Não sei, francamente, se é uma estratégia de promoção do produto…
Hoje, no excelente “60 Minutos” da CBS, vi uma reportagem sobre um miúdo negro norte-americano, Devin Moore, que, inspirado num jogo de video chamado “Grand Thetf Auto” (que consumia obsessivamente), matou 3 polícias no espaço de um minuto. O miúdo limitou-se a transpor para a realidade um exercício que, diariamente, simulava na sua consola. Quando lhe perguntaram por que tinha feito aquilo, terá respondido tranquilamente: “life is a video game!”.
Perguntei ao Francisco se conhecia o jogo. Ele não hesitou: “claro, é o jogo que tu não me deste no dia dos meus anos!”. A ligação não me ocorrera: GTA=Grand Theft Auto…
Tenho a certeza de que, a esta hora, milhares de adolescentes em Portugal estão a jogar em suas casas (ou nas casas dos amiguinhos) o Grand Theft Auto, contando polícias mortos. A vida, para eles, de facto, não passa de um sinistro “video game”…
Março.2005
recuperado de abnoxio.blogs.sapo.pt