Improviso ferroviário (para uma exposição)…

aveleda09aaaaa22222.jpg
Muitos comboios chegaram e partiram
no cais da minha vida
nem todos me trouxeram ou levaram
mas viajei em todos eles
como se fizessem parte de mim
já não sei o que é uma catenária
mas ainda serei capaz
pelo menos na memória
de me equilibrar sobre os carris
e adivinhar nos pés descalços
o rumor da aproximação das locomotivas
o meu rio da infância
corre entre paralelas de ferro
e desagua numa ponte
que já não existe.

Ademar
15.04.2009

A dificuldade de explicar tudo isto ao meu filho de 11 anos que frequenta esta Escola…

paraffff09aaa2222.jpg
paraffff09aaa2222222.jpg
parafffff09aaaa3333.jpg
(…)
Correio da Manhã, 15.04.2009

Há muitos anos tive um “colega” (por sinal, também de “Português) que fazia exactamente isto que é aqui descrito: levava pornografia para as aulas, fazia comentários de teor erótico à aparência física dos alunos (diante deles) e tentava satisfazer-se sexualmente com os rapazinhos (fora da escola, naturalmente). Era muito católico, claro, e tinha o atrevimento de dizer que ninguém o atingiria. Teve, apenas, o azar de esbarrar com um Director de Turma e uma Presidente do Conselho Directivo que se estavam a marimbar para os galões que ostentava e que participaram dele à Inspecção. No inquérito, o instrutor só deu como provado que o crápula levava pornografia para as aulas e fazia comentários soezes diante dos alunos. Relativamente aos abusos sexuais, o instrutor não terá conseguido, no seu critério (muito discutível), reunir prova bastante, apesar dos depoimentos nesse sentido de vários alunos. Conclusão: o pedófilo pornógrafo foi suspenso por dois anos da actividade lectiva, mas continuou, depois disso, a exercer a profissão. O caso, que eu saiba, não chegou ao conhecimento do MP. Se chegou, não terá tido consequências, porque o pedófilo, que eu saiba, ainda hoje é professor (embora, prudentemente, tenha saído do país).

Não sei, obviamente, se a professora a que se reporta esta notícia praticou ou não os factos de que está acusada (nem sei se, porventura, a conhecerei). Mas, se se vier a provar a sua culpa, espero que não volte mais a desempenhar funções docentes. Quem, descontroladamente, padece de determinadas parafilias (ao ponto de pretender satisfazê-las com os alunos) não pode, obviamente, ser professor. Já basta o que basta…

Como não há professores de inglês, contentai-vos com “expressão dramática”…

souto09aa1.jpg
Diário do Minho, 24.01.2009
Esta foi a primeira escola que frequentei. Esta também foi a “escola primária” do meu filho Francisco. Fica no centro histórico de Braga, a poucos metros da Sé, e há muito que impende sobre ela a ameaça (nem sempre velada) de extinção. É, porém, no país, uma das poucas escolas do 1º ciclo do Ensino Básico (escola estatal, note-se) que tem… identidade. E qualidade. O problema é que a maior parte das câmaras municipais deste jardim à beira-mar plantado (como a de Braga) costuma dar mais atenção ao futebol e ao imobiliário do que à educação. E esta escola está a prejudicar o “investimento” numa das áreas mais sensíveis do centro da cidade. Daí que a Câmara “socialista” (desde 1977) lhe coloque permanentemente dificuldades. Já era assim no tempo em que integrei a direcção da Associação de Pais. Nada, pelos vistos, depois, se alterou. A sobrevivência desta escola é quase um milagre de resistência cívica…

Um país de… flautistas…

flaut08aa1.jpg
O Henrique, o meu filho mais novo (nascido em 98), está no 5º ano. A música é uma das suas paixões. De resto, tem formação musical, extra-escolar, há vários anos. Se as classificações escolares tendessem a reflectir os conhecimentos e as competências dos alunos, o meu filho, normalmente, teria 5 na disciplina de Educação Musical. Teve 3, a sua classificação mais baixa (nas demais disciplinas, teve 4 ou 5). Pedi-lhe que me explicasse o aparente “inêxito” numa disciplina em que deveria ser um… craque. Encolheu os ombros e respondeu: “ó pai, é uma seca!”. O que é uma… seca? quis saber. “É só flauta, flauta, flauta”…
Infelizmente, ele tem razão. A escola pública portuguesa, em matéria de formação musical, parece há muito hipotecada a um único desígnio: formar flautistas. Sabe-se com que sucesso…

Dou a mão à palmatória: o senhor secretário de estado tem razão!

Contestando os números de adesão à greve avançados pelos sindicatos, Jorge Pedreira garantiu, à hora de almoço, que 75% das escolas portuguesas, pelo menos, estavam abertas. Confirmo. Esta manhã visitei as escolas públicas frequentadas pelos meus dois filhos mais novos (uma escola EB 2,3 e uma escola secundária) e testemunhei que estavam abertas. Em nenhuma delas houve aulas (ou seja, todos os professores tinham aderido à greve), mas estavam abertas. Se, a partir da experiência, posso extrapolar da amostra, diria (corrigindo o senhor secretário de estado) que todas as escolas públicas portuguesas estiveram hoje abertas. E, porém, foi a maior greve de professores de sempre…

Saia mais um teste-diagnóstico para a carteira dos espertos!…

Diálogo surrealista entre um pai e dois filhos…
- Então, a primeira semana escolar?…
– Eu só fiz testes diagnósticos.
– Eu, também.
– E correram-vos bem os testes de diagnóstico?
– Correr bem?
– Correr bem?
– Fiz alguma pergunta idiota?
– Ó pai, os profs, o que querem, é que corram mal!
– Saíram matérias que eu nunca dei!
– Os profs. querem que os testes vos corram mal?
– Claro! Nem pareces prof!
– Uma prof. disse-nos que as notas não contam.
– Um prof. avisou-nos que o teste era difícil e que íamos ter notas muito baixas.
– Ai é?
– Ó pai, estás a gozar connosco!
– A prof. de (…) disse que é bom para os profs que os alunos, nos testes diagnósticos, tenham notas muito baixas.
– Ai é?
– Ó pai, estás a gozar connosco!
– Se as notas dos alunos, no fim do ano, forem muito melhores, os profs. ficam bem classificados!
– Ai é?
– Ela disse que é por causa da avaliação dos profs.
– Ahhhhhhhhhhhhhhhhhh!

Mais palavra, menos palavra, este foi o diálogo que esta noite, ao jantar, mantive com os meus filhos ainda estudantes. Fiquei absolutamente estarrecido. Eu já sabia que a chamada avaliação diagnóstica ia passar a ser uma farsa. O que eu não imaginava é que os alunos percebessem tão depressa…