Cinco fotografias para a Laura, em dia de aniversário…

Esta é a forma mais simples de, publicamente, te dar hoje os parabéns… Presumo que não vias, há muito, estas fotografias. Podia ter escolhido outras: escolhi estas. Não saberia dizer porquê. Talvez tu saibas. Tens sempre uma explicação racional para tudo…

laume1.jpg

Esta fotografia, tirada na Póvoa de Varzim, está datada pelo punho do nosso pai: 23.07.1961. Muitas vezes foi assim nas nossas vidas: eu sorria, enquanto tu choravas. Os cancros que te visitaram (eu sei e tu sabes) são lágrimas que erraram a alma…

laume2.jpg

No segundo volume do Diário escreves sobre o Baixinho. Este, no teu colo de adolescente, é o Tzara, um cão surrealista. Ao fundo, uma ponte centenária que já não existe. Sobre ela, como atestam outras fotografias, tinham namorado os nossos pais. À distância, como na época se impunha. A mesma distância, aliás, a que sempre nos guardaram…

laume5.jpg

Eu tenho o hábito de não datar as fotografias que faço, como se, afinal, aspirasse a que o tempo não entrasse por elas. Este é um pormenor de uma fotografia tirada pouco antes do 25 de Abril, num estádio que ainda se chamava 28 de Maio. Um ano depois, derrubada a ditadura, passaria a… 1º de Maio. Lembras-te das palavras cínicas e sábias de Tomasi di Lampedusa? É preciso que alguma coisa mude para que tudo fique na mesma…

laume4.jpg

Diante desta mesma coluna, na Aveleda, posaram quase todos, os velhos e os novos (como na sequência final de um filme de espectros). Como diante do espigueiro, que aliás já não existe. A eternidade das coisas não está em nós, mas nelas próprias. Esta fotografia sobreviver-nos-á…

laume6.jpg

Este é o “menino” a que te diriges, comovedoramente, no segundo volume do Diário. A fotografia é de Agosto de 1993: tinha então o Francisco 7 meses. Passaram 15 anos. As partituras voam agora sobre o piano…

Saudade…

Francisco Lucas Pires… *
expresso.jpeg
A arrumar papéis antigos, parei nesta fotografia, estampada na edição do Expresso de 9 de Outubro de 1982. A memória recua quase 23 anos. O tempo devora-nos… Ao centro, na fotografia, o Francisco Lucas Pires, então Ministro da Cultura. Dez anos antes, fora meu professor, em Coimbra, de Direito Ultramarino ou Colonial, já não consigo lembrar-me sequer do nome exacto da cadeira. Creio que nem ele levava aquilo muito a sério. Aliás, era uma das facetas mais apelativas da personalidade do Francisco Lucas Pires, o distanciamento irónico com que se via ao espelho. Ele era, sempre, o primeiro a rir de si próprio… Na manhã do 25 de Abril, quando tudo era ainda incerteza, o Francisco Lucas Pires, ao contrário de outros, fez questão de ir à Faculdade e “marcar o ponto”. Não deu “aula”, quis apenas saudar e despedir-se dos alunos. Ele já tinha percebido que a revolução ia virar o país e a universidade do avesso (pelo menos, na epiderme) e que o ano lectivo, para ele, acabava ali. Na grelha curricular do curso de Direito à moda de Coimbra, havia duas disciplinas que, inexoravelmente, estavam predestinadas a morrer com o fascismo: Direito Ultramarino (ou Colonial) e Direito Corporativo (que, sublime ironia, o Vital Moreira chegara a “reger”!). Nessa manhã, eu não fui à Faculdade e não pude ouvir as despedidas do Francisco. Quase dez anos depois, no Pabe, conversámos sobre isso e, sobretudo, rimos muito sobre isso…
O Francisco Lucas Pires era, à sua maneira (muito especial), um homem de direita. Não acreditava excessivamente na bondade da espécie humana e torcia o nariz, politicamente, a todos os messianismos redentores. O convívio intelectual com Beckett, com Camus, com Sartre (que, tão frequentemente, citava nas aulas) e com os pensadores do existencialismo desviara-o do caminho das utopias e das receitas pronto-a-vestir para a salvação da humanidade. O seu antidogmatismo aproximava-o, porém, de uma certa esquerda liberal e estou convencido de que ele teria feito, politicamente, um percurso muito semelhante ao de Freitas do Amaral, se o coração, estupidamente, não lhe tivesse falhado naquela fatídica viagem de automóvel, em 1988. Hoje, dia em que os cristãos celebram a ressurreição de um messias, apeteceu-me evocar aqui a memória de um dos portugueses mais ilustres e brilhantes que tive a honra de conhecer: Francisco Lucas Pires. Não conheço, pessoalmente, o seu filho Jacinto. Tenho acompanhado, à distância, o seu percurso literário. Mas de uma coisa tenho a certeza: em tudo aquilo que ele escreve, de uma forma ou doutra, o pai (desculpa, Teresa, escrevê-lo assim!) está presente… Por isso, posso dizer que o Francisco não morreu…
27 de Março de 2005, dia de Páscoa
* publicado em abnoxio.blogs.sapo.pt