Um “spot” mentecapto (e escrevo isto sabendo que quase todas as mulheres que costumam ler-me concordarão comigo)…


Quase todas as mulheres (casadas ou “amancebadas”) que eu conheço, prefeririam certamente que os seus “homens” sofressem de disfunção eréctil. Talvez então eles percebessem o… óbvio…

Abençoada diplomacia portuguesa! Afinal, ainda há quem aplauda, em nome do “bom senso” (com hífen e sem ele), a investida “censória” da PSP, em Braga!…

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Os diplomatas, em geral, têm vidas excêntricas, vidas, aliás, que poucos gostariam de ter. Não se deve, por isso, estranhar que tenham também pensamentos excêntricos, tantas vezes enredados em discursos desconexos ou, até mesmo, patetas. Francisco Seixas da Costa, embaixador em Paris, não se distingue da tribo. Repare-se na acutilância e, ao mesmo tempo, na subtileza desta prosa:
Bom senso
Detecto muito de hipocrisia e de oportunismo em algumas das indignações, de cariz quase libertário, que por aí emergiram em face da decisão de mandar recolher, da venda indiscriminada ao público, exemplares de uma obra que, ao que li na imprensa, se apresentava na capa com uma famosa, bela e impúdica pintura de Courbet (coloquem a palavra “Courbet” no Google Images e logo a verão).
A esses espíritos tão sensíveis à preservação, sem limites, do direito de expor em todas as dimensões públicas e privadas, independentemente da idade dos que a elas têm acesso, todo o tipo de obras de arte, eu gostaria de perguntar se acaso têm sobre a mesa da sua sala, à vista das crianças da casa, os albuns desse fotógrafo de eleição que é Mapplehorpe. Ou se considerariam natural se certos poemas conhecidos de Bocage ou de António Botto fizessem parte das leituras postas à disposição dos seus jovens filhos.
Por princípio, não é muito saudável ver os poderes públicos arvorarem-se em juízes do que alguém pode ou não ver. Em regra, tudo deve estar acessível a todos e também começa a ser óbvio que o conceito daquilo que possa ser uma imagem chocante tem vindo a variar ao longo dos anos – com impacto nos critérios do seu acesso a determinadas faixas etárias.
Mas sejamos honestos: neste caso do quadro de Courbet, a questão não é do domínio da censura, mas apenas de mero bom-senso.

O “mero bom senso” (libertado do hífen) recomenda, se bem atinjo o ponto do senhor embaixador, que as autoridades estejam atentas (e vigilantes) ao que por aí se exibe. Nem tudo se pode expor (designadamente, na capa de um livro) e há impudicícias que o tal “bom senso” desaconselha que possam estar ao alcance da infância, da adolescência e, até, da juventude. Daí que se justifique – a dedução impõe-se – a intervenção das autoridades policiais, sempre que os limites do “bom senso” sejam, flagrantemente, ultrapassados. O “bom senso”, presume-se, deve ser a medida da acção policial profiláctica. Salazar, verdadeiramente, não dizia coisa distinta, embora não chamasse “bom senso” aos “valores perenes da pátria”, que, de resto, malandro, só ele sabia quais eram.
O argumentário do senhor embaixador conduz-me, porém, a uma angústia que não sei como resolver, no quadro, claro está, do “bom senso”: como poderá a polícia controlar o que se exibe na internet, sabendo-se, por exemplo, que o governo da República, através do Magalhães, se prepara para colocar a internet à disposição de todas as criancinhas, onde quer que elas se encontrem? Como impedir que as criancinhas, imitando, de resto, o senhor embaixador, “coloquem a palavra “Courbet” no Google” e acedam, num ápice, às imagens dos quadros impúdicos do pintor? Francamente, não sei como responder a esta questão, que não é, obviamente, do domínio da “censura”, mas, como se sabe, do “bom senso” (sem hífen).
Depois, sobra ainda a questão da substância do próprio “bom senso” (sem hífen). Sabendo-se que Portugal é um estado de direito e que não são as autoridades policiais que fazem a lei… como compatibilizar a norma, necessariamente, geral e abstracta, com o “bom senso” oponível a cada situação concreta?
Não tenho resposta para estas angústias. Talvez, por isso mesmo, é que eu não seja embaixador de Portugal em Paris. Com muita pena, aliás, da minha amiga Ana Saraiva, que todos os dias bebe do fino, digo, das luzes…