A propósito de uma gargalhada…

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Público, 17.06.2008
Entre Helena Matos e Valter Lemos, o diabo, se for masoquista, que escolha.
Num ponto, porém, concordo com a deprimente e ressabiada cronista do Público: há patologias (ela escreve “deficiências”) que não cabem na “escola inclusiva” ou que só se agravam nela, sem benefício para ninguém. Quem não percebe isto… não sei o que possa perceber…

Eu não acredito que este documento seja… verdadeiro!…

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Garantem-me que este documento não é apócrifo. Eu não acredito (e, por isso, é que o reproduzo sem cabeçalho, para que a sua origem não seja identificável). Se fosse verdadeiro, eu diria apenas, misericordiosamente, que o seu autor está a precisar de férias. Antes que enlouqueça (ou alguém no seu lugar)…
Em tempo: a sigla (AEC) utilizada na directiva significa, suponho, “Actividades de Enriquecimento Curricular“.

Sexo! (diz ela)…

Entrou-me pelo gabinete com passo decidido e a fogueira da delação no olhar: “Professor Ademar: estão uns meninos nos computadores a ver sexo!…” Como faço sempre nestas circunstâncias, fingi, para ganhar tempo, que não tinha percebido muito bem o sentido da observação e pedi-lhe que repetisse. Fê-lo exactamente nos mesmos termos: “Estão uns meninos nos computadores a ver sexo!”. E ficou à espera da minha reacção. Levantei-me da cadeira e pedi-lhe que me conduzisse ao local do crime. Atalhou imediatamente que não valia a pena, porque eles já tinham fugido. Para não a frustrar, pedi-lhe que me dissesse quem eram os meninos. Ela pôs um ar muito zangado e respondeu-me: “Acha que eu sou queixinhas? Só quis que soubesse que eles estavam a ver sexo. Mas não lhe vou dizer quem eram.” E saiu porta fora, tão resolutamente como entrara.
O sexo, na adolescência, é um excelente pretexto para o jogo do gato e do rato…
Novembro.2005
recuperado de abnoxio2.blogs.sapo.pt

Uma escola, um aluno…

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Há vinte anos atrás (não foi ontem) conheci em Terras de Bouro (talvez o mais belo concelho de Portugal continental) uma escola que tinha apenas um aluno. Não importa em que freguesia ou em que lugar. Havia um casebre que servia de escola primária, havia uma professora (que raramente lá punha os pés) e havia um rapazinho, que fazia de aluno. Quando visitei a ?escola?, a professora já estava a faltar havia várias semanas (e não havia ninguém que estivesse disponível para a substituir). O miúdo, com quem conversei, vivia a poucos metros da escola e era, pareceu-me, muito vivo e inteligente. Não sei o que lhe aconteceu, escolarmente falando; terá completado o primeiro ciclo? Naquelas circunstâncias, não acredito. Hoje, provavelmente, será pastor ou terá emigrado, como a maioria dos terrabourenses. Se tivesse tido a sorte (ou o azar) de nascer e crescer no litoral, é muito possível que hoje fosse licenciado e estivesse no desemprego, como a maioria dos licenciados portugueses. Seria mais feliz? Poupo-vos à metafísica do salazarismo?
Naquela aldeia, não havia mais crianças. E os pais da criança que eu conheci já tinham ?fechado a loja? da procriação. Coloquei o problema ao Presidente da Câmara, um dos autarcas mais extraordinários que eu conheci: não fazia sentido fechar aquela escola? Ele torceu-se todo, como se diz num certa gíria. Se aquela escola fechasse, o miúdo nunca mais frequentaria o sistema de ensino; os pais não o deixariam frequentar outra escola. Mal por mal, antes assim. Talvez aprendesse a ler e a escrever, talvez conseguisse terminar o 1º ciclo, talvez?
Digo isto para que se perceba o meu ponto de vista: a decisão de fechar uma escola ?primária? (por falta de alunos ou de ?condições?) será, sempre, neste país, uma decisão extremamente delicada e problemática. Uma decisão cuja bondade só caso a caso poderá ser aferida (e, mesmo assim, com muitos pontos de interrogação). Por isso é que me dói ver a Ministra da Educação falar do encerramento de mil e tal escolas ?primárias? com uma ligeireza que chega a pisar as fronteiras da inconsciência. A senhora não conhece o país ?real?, não conhece as populações e não conhece os autarcas. Em muitas localidades, fechar a ?escola primária? significa atirar para fora do sistema de ensino muitas e muitas crianças. Eu sei que a Ministra, cuja recta intenção não ponho em causa, está convencida de que isto não sucederá. Chego a ter pena dela: ainda não percebeu que o país rural não é um teatro de fantoches, manipulável por despacho?