Só há uma forma de prevenir ou atenuar o impacto do bullying: envolver os alunos, responsavelmente, na gestão dos espaços escolares e serem eles a determinar e a impor os códigos de conduta recomendáveis…

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Correio da Manhã-Domingo, 01.03.2009

A supervisão presencial dos adultos não resolve nada e não é possível colocar um “polícia” ao lado ou atrás de cada valentão. O bullying escolar previne-se também na interacção dos pares e na responsabilização dos alunos. A Escola da Ponte pode ter muitos defeitos, mas, nesta matéria, como noutras, é um exemplo do que pode e deve fazer-se. Vão lá, informem-se, inspirem-se…

Tudo isto se resolve com menos pedagogia, com mais disciplina, mais exames e mais chumbos e, naturalmemte, com o cheque-ensino…

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Público, 23.06.2008

A ironia é sempre um risco, sobretudo, quando aplicada à escola. Receio que alguns leitores não captem a ironia do título e acreditem mesmo que a violência escolar se resolve… “com menos pedagogia, com mais disciplina, mais exames e mais chumbos e, naturalmente, com o cheque-ensino”…

Claro que subscrevo inteiramente as palavras de Eric Debarbieux. Há mais de vinte anos que digo o mesmo… E há mais de trinta que a Escola da Ponte, por exemplo, prova que é (tem que ser) assim…

Uma escola pública portuguesa que é objecto, cá dentro e lá fora, de teses de doutoramento…

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Recebi hoje o convite, mas não poderei, infelizmente, estar presente (o Brasil fica um bocadinho fora de mão). No próximo dia 28, na Universidade Federal de Rio Grande do Norte, Cláudia Santa Rosa irá apresentar e defender a sua tese de doutoramento sobre a… Escola da Ponte.

Durante seis meses, ela acompanhou, por dentro, a vida da Escola. Viu livremente o que quis ver, falou livremente com quem quis falar, participou livremente em todas as reuniões e actividades em que quis participar, consultou e analisou livremente todos os documentos que quis consultar e analisar. Fê-lo com uma enorme delicadeza e uma imensa sensibilidade. Espero que ela não se esqueça de me mandar uma cópia da tese!

Eu sei que é apenas o resultado de mais uma investigação (mestrados e doutoramentos sobre a Escola da Ponte vão, felizmente, abundando), mas esta… foi e será certamente muito especial.

Que tudo corra bem, Cláudia!…

Sexo! (diz ela)…

Entrou-me pelo gabinete com passo decidido e a fogueira da delação no olhar: “Professor Ademar: estão uns meninos nos computadores a ver sexo!…” Como faço sempre nestas circunstâncias, fingi, para ganhar tempo, que não tinha percebido muito bem o sentido da observação e pedi-lhe que repetisse. Fê-lo exactamente nos mesmos termos: “Estão uns meninos nos computadores a ver sexo!”. E ficou à espera da minha reacção. Levantei-me da cadeira e pedi-lhe que me conduzisse ao local do crime. Atalhou imediatamente que não valia a pena, porque eles já tinham fugido. Para não a frustrar, pedi-lhe que me dissesse quem eram os meninos. Ela pôs um ar muito zangado e respondeu-me: “Acha que eu sou queixinhas? Só quis que soubesse que eles estavam a ver sexo. Mas não lhe vou dizer quem eram.” E saiu porta fora, tão resolutamente como entrara.
O sexo, na adolescência, é um excelente pretexto para o jogo do gato e do rato…
Novembro.2005
recuperado de abnoxio2.blogs.sapo.pt

A ponte resvaladiça da adolescência…

Quando eu era criança ou mais criança, julgava divisar uma linha de perpétua infelicidade nos olhares dos adultos. As crianças não compreendem os adultos, como os adultos, em geral, não compreendem as crianças. Porque os adultos que as crianças vêem não são os adultos em que elas gostariam de se transformar (as crianças sofrem os modelos sofredores…) e porque os adultos, frequentemente, sentem ciúmes das crianças ou uma dolorosa nostalgia do tempo em que foram (ou não chegaram a ser) crianças.

Guardo no meu telemóvel duas mensagens “poéticas” de uma amiga e colega que releio muitas vezes. Ela vai certamente compreender e perdoar-me que as divulgue aqui sem identificar a sua autoria.

Numa das mensagens, ela escrevia: “Onde está a poesia nesta Escola? Nas crianças. Onde estão as crianças? Nas crianças?”

Na outra mensagem, ela observava: “A infância é uma erva daninha. Volta sempre a aparecer, apesar do zelo jardineiro dos adultos”.

A educação é, de facto, uma luta interminável contra a infância. No fundo, o que os pais e os professores mais desejam é que as crianças deixem de o ser. A autoridade do educador é infanticida. Mata-se a criança, para que dela possa, mais rapidamente, irromper e emergir o adulto, domesticável.

Mas os pais (e, em parte, os professores) vivem um terrível drama interior: quanto mais depressa matam a infância, mais depressa também matam a sua própria autoridade sobre os filhos e os alunos. A adolescência é o conflito, a perturbação, o ruído, a rebeldia. Por isso é que os adultos, em geral, temem e abominam a adolescência, porque a adolescência disputa permanentemente a ordem social e os poderes estabelecidos. Na família, na escola, na sociedade.

Há quem acredite que os seres humanos podem passar, directamente, da infância para a juventude (ou até mesmo para o estado adulto), sem atravessar a ponte resvaladiça da adolescência. É uma crença perversa e, profundamente, castradora, porque é na adolescência (estádio das grandes descobertas e, também, das grandes rupturas) que, verdadeiramente, nos socializamos.

E aqui reside, porventura, um dos maiores problemas da escola contemporânea: não saber lidar e dialogar com a adolescência. Ou agir como se a infância devesse ser eterna, no espírito e no corpo dos adolescentes, antes de a matarmos…

Junho.2005
recuperado de abnoxio2.blogs.sapo.pt

Memórias da Escola da Ponte (47)…

“Metodologia de Trabalho de Projecto” (algumas notas provocatórias)…*

1
Se um aluno quer ou precisa de saber em que ano e contexto foi assassinada Inês de Castro, o que deve fazer? Um projecto de pesquisa e investigação ou uma simples consulta bibliográfica (por exemplo, do Dicionário de História de Portugal)?

Se um aluno quer ou precisa de saber como se conjuga o verbo “empatar”, o que deve fazer? Um projecto de pesquisa e investigação ou uma simples consulta bibliográfica (por exemplo, de uma boa gramática)?

Perguntas análogas a estas (e relativas a todas as áreas e disciplinas curriculares) poderiam ser multiplicadas exponencialmente. A ideia de que só se aprende através de “projectos” é uma ideia pateta. O decisivo na aprendizagem é que o aluno queira (e esteja motivado para) saber – os caminhos para o conhecimento são múltiplos e variados. O trabalho de projecto é apenas um desses caminhos, seguramente, o mais exigente de todos…

Se a curiosidade (o desejo de descobrir e aprender) e a motivação são as alavancas da “construção” do conhecimento, pode colocar-se então a pergunta: como é que um aluno se motiva (e é motivável) para procurar o conhecimento que lhe faz falta, quando ele nem tem consciência disso?

Eis um excelente problema para um projecto de investigação/acção. Ou melhor: para muitos projectos…

2
Quando eu era estudante, “problemas” havia muitos, mas a “metodologia de trabalho de projecto” (ou de resolução de problemas) ainda não tinha sido inventada (espero que se perceba a ironia). E mesmo sem ter aprendido a trabalhar em “projecto”, safei-me… Sócrates (ao que consta) também.

Hoje, parece que os estudantes não aprenderão nada, se, desde a mais tenra idade, não forem treinados a trabalhar em projecto…

Desconfio que esta obsessão “projectista” anda, nas escolas, a distrair os eminentes pedagogos da moda do prioritário. O prioritário, creio eu, é que os estudantes percebam o sentido de andar na escola, desenvolvam a curiosidade, não percam jamais a motivação para pesquisar e investigar, sejam cada vez mais autónomos e responsáveis e tenham condições para aprender mais e melhor. Como o poderão conseguir? Eis a pergunta fundamental a que os projectos educativos das escolas deverão dar resposta. É para isso, no essencial, que eles servem. O que os alunos deverão aprender… isso toda a gente sabe e, na dúvida, os programas curriculares resolvem.

3
O trabalho de projecto reclama a mobilização e o cruzamento de saberes, atitudes e competências que nem todos os “pedagogos” possuem ou desenvolveram, quanto mais os alunos…

Pretender que crianças que mal sabem ler, escrever ou calcular aprendam por “projectos” é uma imbecilidade pedagógica. A aproximação à metodologia de trabalho de projecto tem, por isso, de ser feita passo a passo, de uma forma segura e muito controlada pelos professores. Há patamares de autonomia que terão de ser previamente alcançados antes que os alunos possam tirar algum proveito do “trabalho de projecto”. Que patamares serão esses? Eis outro excelente problema para um projecto de investigação/acção. Ou melhor: para muitos projectos…

* recuperado de abnoxio.blogs.sapo.pt