Um poema (videografado) de Paula Fonseca…

Há muito que não tinha notícias da Paulinha, professora (apaixonada) da Escola da Ponte, onde a conheci. Não sabia que ela tinha publicado um livro de poesia (“Metade Somente”) e que alguns dos seus poemas estavam disponíveis no YouTube. Hoje, na abertura de um novo dia, convido-vos a lê-la. Obrigado, Paula!…

Uma perigosíssima delinquente de… 10 anos de idade…

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Correio da Manhã, 19.03.2010

Há quem saiba ou tente lidar com crianças “especiais” e quem não saiba (ou não tente). Crianças como esta, muitas, sempre houve na Escola da Ponte. Recordo-me, por exemplo, do F. Era um menino selvagem, filho da miséria e de pais alcoólicos. Um dia, numa das suas crises de fúria, também me bateu e arranhou e mordeu. Poderia ter reagido, poderia ter sustido a agressão: não o fiz. Deixei que ele batesse e se cansasse de bater. Quando parou, fiz-lhe uma festinha e perguntei-lhe apenas se estava mais calmo. Ele olhou para mim, com os olhos esbugalhados, e apenas me perguntou (grunhiu) uma coisa que nunca mais esquecerei: vais-me bater? Eu disse-lhe.: não, quero apenas conversar contigo. E levei-o para o meu gabinete e, calmamente, conversei com ele. Chorou. E ficámos amigos para sempre.

Não conto isto para me pôr em bicos de pés ou alardear uma sabedoria ou uma coragem que, infelizmente, não me assiste. Mas esta notícia revolta-me. Simplesmente, porque não deveria ser notícia. E nunca nestes termos…

Esta criança não é um monstro. É, apenas, uma criança, que a humanidade, muito provavelmente, abandonou…

Interpelação de um leitor (identificado) sobre a Escola da Ponte…

Meu caro,

Há tempos conversava com uma amiga (que tem responsabilidade no actual ME) e que me referia o facto de o projecto da EP não ter qualquer ligação ao mundo real, ou seja, se um aluno, por contingência dos pais, tiver de mudar de cidade, terá muitas dificuldades em ser absorvido pelo sistema educativo por falta de bases. Não sei se estou a formular bem a questão ou mesmo se ela se pode colocar, gostava era de perceber se a EP é um mundo totalmente à parte ou se, pelo contrário, ajuda a que os míúdos sejam cidadão preparados não apenas para viver na sua ilha.

Espero ser merecedor da sua atenção, enviando-lhe as minhas saudações.

Sou suspeito na resposta, porque estive cinco anos ligado à Escola da Ponte e aprendi a admirar o que, todos os dias, lá se faz pelos miúdos e com os miúdos. A questão colocada é, porém, uma questão recorrente, uma questão quase académica. Ouvi-a centenas de vezes e centenas de vezes tive de responder. Os miúdos da Ponte aprendem, desde muito cedo, a ser gente, a ser cidadãos. A desenvolver o olhar, a cumplicidade crítica com os outros, a inteligência da decisão, o risco da autonomia, a responsabilidade, a curiosidade do conhecimento. Adélia Prado tem dois versos que poderiam ser a epígrafe do projecto da Ponte (cito de memória): “Senhor, não me dês o queijo, nem a faca; dá-me simplesmente a fome”. Na Ponte, alimenta-se todos os dias a fome dos miúdos – e esse é o seu “segredo”. Tomara eu, que regressei à “escola tradicional”, ter alunos esfomeados…

Lino Ferreira…

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Público, 17.10.2009

Entre 2002 e 2005, Lino Ferreira (na fotografia) desempenhou as funções de Director Regional de Educação do Norte, Tivemos pegas monumentais e, em algumas reuniões, quase nos chegámos a insultar. Mas sempre deu a cara, nunca mandou recados por ninguém. E, na fase terminal do seu mandato, passou de adversário do projecto e da Escola da Ponte a seu aliado, batendo-se pela aprovação do contrato de autonomia que propuséramos. Apesar das divergências e das discussões que tivemos, sempre nos respeitámos. E não fora o empenhamento de Lino Ferreira, ainda hoje a Escola da Ponte não teria a sua autonomia, formalmente, reconhecida…

Ironia das ironias: foram aqueles que, na oposição, mais declarações de amor fizeram à Escola da Ponte que, no governo, lhe viraram as costas, pondo em causa a sobrevivência de um projecto educativo que, no passado, tanto tinham elogiado. Espero para ver até onde irá o descaramento do PS, sendo certo que, nas actuais condições, a Escola da Ponte não sobreviverá por muito mais tempo…

Esta é a Escola e o Projecto Educativo que o PS (no Governo e na Câmara Municipal de Santo Tirso) se prepara para sufocar e extinguir…

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Nenhuma escola portuguesa é tão conhecida, tão estudada e tão admirada lá fora, como a Escola da Ponte. Todos os anos, são milhares os nacionais e os estrangeiros que a visitam. Inúmeras dissertações de mestrado e teses de doutoramento foram feitas sobre a Escola e o seu Projecto Educativo. Nada é, porém, bastante para o PS. E a Escola da Ponte, a não serem sustidas as ameaças que sobre ela impendem, irá morrer às mãos do partido que, ao longo dos anos, mais declarações de amor lhe dedicou. Miserere!…

O PS, com todo o seu farisaísmo político, prepara-se para facilitar e apressar aquilo que o PSD e o CDS, apesar de terem tentado, não conseguiram: extinguir o Projecto da Escola da Ponte…

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Público, 13.06.2009

Leio esta notícia (infelizmente, recorrente) e recordo as posições públicas de apoio à Escola da Ponte de alguns dirigentes nacionais do PS, então na oposição, quando o governo do PSD/CDS tudo tentou para fechar a Escola da Ponte. Lembro-me bem, por exemplo, da visita que Augusto Santos Silva fez à escola e das declarações que então prestou a toda a comunicação social, defendendo o Projecto da Ponte e garantindo que, quando o PS voltasse a ser governo, a escola seria uma espécie de “jóia da coroa” do Ministério da Educação. Em 2005, Augusto Santos Silva regressaria ao governo e, quatro anos depois, o projecto educativo da Escola da Ponte continua sob ameaça. Nada, entretanto, foi feito para garantir a estabilidade do Projecto da Ponte. E, ironia das ironias, foi ainda o governo do PSD/CDS que assinou o contrato de autonomia da Escola, o primeiro que, em Portugal, se celebrou.

E ainda há quem se admire com o descrédito da nossa classe política e com os resultados eleitorais do PS, nas europeias…